10 de janeiro de 2013

Progressos “kamikaze”, vidas perdidas e mortes adiadas! [texto de David Leite]


Esta crónica vem ampliar uma sequência temática sobre o meio ambiente, toda ela escrita na terra-longe do meu exílio...

David Leite - diplomata
Paris, capital «des lumières»! Dizem os portugueses que deram novos mundos ao mundo… Paris deu-lhe novos ideais! Da política à medicina, da arquitectura às ciências ou à conquista dos ares – novos rumos! «Belles-lettres» e «beaux-arts» fizeram escola na cidade-luz, berço da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão. Paris, Lutécia de nascença que romanos, ingleses, prussianos e alemães se arrependeram de ter cobiçado ! Que viu passar Clovis Rei dos Francos, porventura Astérix o gaulês… e Joana d’Arc, «la Pucelle d’Orléans» que fez frente aos agressores de além-Mancha.

Mas tanto resistiu Paris que haveria enfim de «capitular»… face à fuligem que impregna suas paredes e janelas ! Incómodo «ocupante»  ofuscando o brilho da cidade-luz! Mais um french paradox, diriam os british… se todavia Londres fosse melhor ! 

Se a poluição que se lê nas fachadas da cidade-luz – como, de resto, em todas as grandes capitais – já não incomoda «grand-monde», é porque a ela nos habituámos. Valham-nos os boletins meteorológicos que nos mostram, «pollution oblige», os índices de respirabilidade do ar!


Complexa ambivalência nuclear

Na verdade, pouco pesam, hoje em dia, as «poluências» urbanas no debate ecológico feito “leilão” – quem dá mais, leva ! A ecologia tradicional, dir-se-ia que se dissipou com a fumaça das fábricas e dos comboios a carvão de outrora… ou com os gases intestinais das vacas, nocivos de metano para o efeito de estufa! E trazer a flatulência dos bovídeos para um debate ecológico moderno seria, convenhamos, simplesmente ridículo! O «planeta azul» vai mal, e hoje em dia a conversa é outra: camada de ozono, aquecimento global, degelo das calotes polares, aumento do nível das águas oceânicas com risco de inundação dos baixos litorais… Sombrias perspectivas para os nossos filhos!

Numa palavra, o debate ecológico sofreu «inflação» em proporção directa com a poluição. Inflação não apenas semântica, porquanto exprime uma realidade por demais inquietante. Por prova, os desastres de Bhopal (Índia, 1984), Tchernobil (Ucrânia, 1986) e Fukushima (Japão, 2011)... Essas e outras hecatombes tiveram ao menos o mérito de reavivar a polémica em torno da energia nuclear de uso civil, brandida pelos nuclearistas convictos como panacéia ao problema energético do mundo moderno, repudiada pelos “Verdes” e outros militantes do meio ambiente como uma ameaça inexorável ao nosso planeta.

Esta velha controvérsia do pós-guerra parece ter vindo para ficar... mas contra factos não há argumentos: independentemente de convicções diametralmente dísparas (cada cabeça sua sentença), o que já ninguém pode negar é a insidiosa perigosidade das instalações químicas e das grandes centrais electronucleares. Vinte mil inocentes fulminados pelos gases letais da “Union Carbide” em Bhopal, cem mil contaminados! Qualquer semelhança com o fim do mundo não é mera coincidência numa cidade mártir como Fukushima ou Pripiat, perto de Tchernobil! Populações inteiras foram afectadas, inclusive em países limítrofes e longínquos.


The day after ou o silêncio dos inocentes

Doloroso “day after” para quem ficou! O “day after” é quando o arrependimento chega tarde demais, e os governos, reunidos em comité de crise, constatam – “E agora? Isto não estava no programa, vamos perder as eleições!” Vidas perdidas? Um minuto de silêncio... e bandeira a meia-haste!

Vidas perdidas e mortes adiadas... O que vale é que os mortos não falam! E os sobreviventes, quem lhes dá ouvidos? Mais alto que a palavra embargada dos inocentes, ecoam sonoras mentiras de Estado, carapaças de sacrossantos segredos! Mentiras e segredos de Estado, mais impermeáveis que o sarcófago erigido à pressa para isolar o reactor n° 4 de Tchernobil no rescaldo do “day after” – ou seja, tarde demais! Dezenas de milhares daqueles que o construiram (os chamados “liquidadores”) ja não são deste mundo, outros ficaram contaminados... de doença crónica ou morte suspensa! Se os entendidos divergem quanto ao alcance da onda de choque dos acidentes atómicos e suas consequências sanitárias (a curto e a longo prazo), é que nem todos (cientistas, e a própria OMS) ousam contrariar os tão potentes quão temíveis lobbies nucleares!

Todos esses cataclismos ainda não bastam para enternecer os vampiros do consumismo selvagem e os nucleocratas que proclamam urbi et orbi a auto-suficiência energética pelo átomo. Por uma razão simples: não se trata apenas de alimentar, educar, dar trabalho e um tecto aos sete biliões de inquilinos que somos deste planeta a transbordar de gente (nove biliões no horizonte 2050, ou seja um aumento de 29% em apenas um quarto de século!!!) Trata-se, verdade seja dita, de sustentar a vaidade de uma parte dessa humanidade, a mais poderosa e consumista, gente sabida em ciências e tecnologias, porém ingrata e fátua: tão ingrata e fátua que na terra que lhe deu de comer plantou lixos e selvas de betão para recolher cancros e fumos tóxicos! De seus luxos fúteis e poluentes faz “isca” e moeda de troca para melhor explorar a força anímica e a matéria prima de povos que atrevidamente trata de “menos desenvolvidos”. E tal como impera o rico sobre o pobre, assim impera a ditadura do supérfluo sobre o essencial, o artificial sobre o natural. (Como não pensar nesses forasteiros de sinistra memória que num passado remoto vinham trocar fusis e bugigangas por escravos?)


Repensar o progresso

Se a industrialização desenfreada foi motor de progresso para a humanidade (ou parte dela), está à vista que não lhe trouxe apenas benefícios. É esta antinomia contida na noção de « progresso » que as sociedades modernas tendem a repensar. Para que não acabem mais pobres (e com elas a sua qualidade de vida) ao sacrificar o equilíbrio ambiental no altar da sua ganância ! De ganância ia morrendo Midas, rei da Frígia : tendo obtido de Baco que tudo virasse ouro ao seu contacto, por pouco sucumbia de fome e sede se a seu rogo o deus do vinho o não tivesse aliviado desse fatídico dom ! Moral desta lenda ? Ganâncias «kamikazes» levam o homem à perdição! Alternativamente, só um desenvolvimento sadio e sustentado pode perenizar a Vida na terra sob todas as suas formas, sem hipotecar o futuro das gerações vindouras.

Certos « ecocépticos » materialistas e gananciosos que nem o rei Midas preferem subestimar ou caricaturar essa reflexão como refractária ao « progresso » (entendido este como falazes riquezas num planeta exangue, com populações inteiras a passar fome !) Francamente! – quem de bom-senso, ecologista ou não, deseja regressar às cavernas ou trocar a lâmpada eléctrica pela «cafuca» ou fogueira de lenha ? Mas só um cego – ou irresponsável – não vê que uma lâmpada tisnada de fuligem dá menos luz, que a poluição destrói a vida! Atenção às consequências da cegueira negacionista!

Tão-pouco lembraria a alguém de bom-senso repudiar a economia liberal num mundo global, quando seja justa e não esmague os mais fracos. Um novo conceito alternativo apareceu recentemente contra os excessos e as injustiças da globalização: o alter-mondialismo.


Apocalipse não!

Em aberta oposição aos adeptos impenitentes do nuclear, os lobbies ecologistas e ambientalista recusam “capitular”... mesmo em desespero de causa. Nesta guerra de garrafa contra pedra, uns e outros rivalizam de determinação, senão de intransigência: às enérgicas gesticulações doGreenpeace, respondem as interpelações manu militari dos seus mais temerários activistas quando se envolvem em operações mediáticas de alto risco.

Dos argumentos ao extremar de posições, o único consenso no que tange à energia nuclear é que uns e outros receiam eventuais amálgamas entre uso civil e militar (ver o caso do Irão). Os trezentos mil mortos de Iroshima e Nagasaki continuam a assombrar-nos, e ninguém ignora que em caso de conflito atómico inter-potências, o “day after” pode ser o último! Disso ninguém divida. E não é preciso ser profeta do fim do mundo para saber que não haverá testemunhas nem comités de crise... e tão-pouco eleições a disputar! 

Mas haja bom senso e sabedoria que ainda vai longe o apocalipse! O justo equilíbrio deve brotar de uma serenidade pragmática. A não confundir com indiferença: pior que o discurso da “nucleocracia” reinante e os pregões dos ecologistas do apocalipse, é o insensível torpor dos “desimportados” da vida! Em boa hora entenderam os grandes deste mundo que não podiam continuar a espremer, que nem um limão, este planeta a rebentar pelas costuras! Nem a divagar sobre o sexo dos anjos ou a insana flatulência das vacas! Já é bom sinal o terem-se sentado à mesa, e melhor ainda os compromissos assumidos (em Kyoto, Rio-de-Janeiro, México City e Copenhaga) de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa.

Mas grandes cimeiras, tonitruantes comunicados e declarações de intenção serão letra morta se as principais potências industriais, cada uma puxando brasa à sua sardinha, continuarem a exaurir os recursos do planeta. A Terra não é um limão nas mãos de quem pode «espremê-la» e beber-lhe o sumo sem pensar nos Outros e no Amanhã ! Ela não tem outro dono senão Todos Nós... e limão espremido não volta a encher!


Mantenhas da terra-longe, 7 de janeiro 2013
David Leite (modestoleite@facebook.com) 


9 comentários:

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