21 de novembro de 2012

...mas livrai-nos do lixo! [texto de David Leite]

NOTA: este artigo é da autoria de David Leite e publicada na sua página do Facebook.


Este título conclui um precedente artigo: E não nos deixeis cair na poluição…  O tema pouco difere mas aqui o desenvolvo noutra direcção (outros segmentos estão na forja).

Como em qualquer pleito eleitoral, nas eleições legislativas de 2011 foi-nos dado escolher: “mesti manti”, “mesti muda” – cada cabeça sua sentença... Mas em nenhum comício se ouviu:

Mesti limpa!
E não se ouviu porque se calhar higiene e salubridade públicas ainda não rendem votos! Talvez nem lembrasse ao próprio cidadão eleitor (e contribuinte) que um ambiente limpo e saudável é um direito a exigir daqueles que aspiram à governação. Talvez ainda porque eleitores e candidatos vejam nesse direito uma prerrogativa das câmaras municipais...

Praia de Catchor, no Mindelo, é um dos locais
que precisam de um "mesti limpa"
Errado! Acontece que a nova taxa ecológica, promulgada em agosto deste ano, veio revogar a de 1995 pela sua abrangência municipal e nacional: se antes as receitas arrecadadas revertiam por inteiro a favor dos municípios, doravante a maior fasquia (60%) irá para o Fundo do Ambiente, a cargo das questões de saneamento básico e meio ambiente. (Esta repartição das receitas foi alvo de acerba controvérsia entre os três partidos com assento parlamentar... e não foi a primeira vez: não sei no que deu uma sulfurosa polémica, há uns anos atrás, sobre umas incineradoras da discórdia).

Além da eco-taxa (cobrada pelos serviços aduadeiros sobre a importação de produtos e bens nocivos ao ambiente), a questão ambiental tem beneficiado de algum apoio externo: de 2012 a 2015 podemos contar com 7,4 milhões de dólares, doados este ano pela ONU através do GEF (Fundo para o Ambiente Global).

Mas impostos e dádivas ainda não valem uma boa « reciclagem » de mentalidade! O lixo não é uma fatalidade: é o desmazelo de uns e a indiferença de outros que lhe dão vida, se bem que a pobreza não seja inocente! Mais surpreendente é vê-lo insinuar-se lá onde menos se espera, na barba-cara de muita « gente grande de nôs terra ». Quem em tempos andou, com olhos de ver, pelos bairros e achadas da capital, de vivenda em pardieiro até chegar ao Palácio do Governo, não há-de me desmentir. Honni soit qui mal y pense, não vá alguém ver nisto alguma piada !

Felizmente as coisas estão a mudar, e nos últimos anos temos assistido a melhorias consequentes: avé Praia-Maria, quem te viu, quem te vê! Hoje é um prazer passear pela capital, charmosa capital das ilhas, Cinderela que virou princesa! E já não era sem tempo!

Mas ainda estamos longe do ideal: recolher o lixo é um grande alívio, melhor ainda é dar-lhe o tratamento apropriado. O problema não é só nosso – aliás foi concebido por obra e (des)graça da sociedade de consumo que impera no mundo inteiro, e fatalmente nestas ilhas! Seduzidos pela embalagem, compramos alegremente recipiente por conteúdo; entretemo-nos a desplastificar, desembrulhar, abrir caixas e caixinhas que nem boneca russa, às vezes por um simples torrão de açúcar ou um bombom (não adoçava menos o açúcar que antigamente comprávamos ao quilo embrulhado em papel “de saquinha”)!

Não quer maçada? – utensílios descartáveis (usar e deitar fora)! E pouco a pouco vai o lixo investindo o nosso espaço existencial: vivemos com ele, em cima dele, uns tristemente acomodados, outros resignados, outros ainda sem dar por ele, mormente quando se dissimula no ar que respiramos, nos lençóis freáticos, nos rios e no mar.



  

E quem pensa na poluição, por assim dizer... biológica? Nas matérias e conservantes nocivos para a saúde? Nos aromas e sabores artificiais dissimulando os riscos sanitários dos consumíveis de uso corrente? E os poderes públicos mudos e quedos! Pudera!, andam distraídos nas contas! Com os interesses políticos à mercê dos grandes consórcios industriais, se não é balanço é eleição – se não é a contar dinheiro é a contar votos!


Reciclar é preciso 

Traje de carnaval feito com material
reciclado por professores do
Ensino Secundário no Mindelo
Aqui nas ilhas a questão é tanto mais complexa quanto se sabe que todos os detritos de nossas festas e piqueniques, “barbecues” e outras quermesses não são biodegradáveis; nem são retornáveis garrafas e latas, convivendo essas “no mesmo saco” com detritos orgânicos, matéria plástica, cartões e metais diversos, pilhas, dejectos químicos e todo o tipo de recipientes. E ninguém ignora onde e como termina essa lixeira toda: enterrada ou a fumegar num descampado qualquer!

A emenda pior do que o soneto? Mais baratos sem dúvida, os aterros sanitários são uma solução de facilidade que infelizmente ainda não nos livra da poluição (dupla, porque do ar e do solo). Longe da vista de quem mais consome, expondo à imundície e à doença os miseráveis que não podem consumir senão as sobras dos outros! Socialmente, as lixeiras aparecem como uma ponte entre a sociedade de consumo e a miséria indigente, porém não podem colmatar o fosso abissal que as separa. Lembro-me ainda de uma reportagem (na televisão) sobre uma lixeira nas cercanias da Praia, e de ter pensado nessa célebre lei de Lavoisier: na natureza nada se perde, tudo se aproveita e se transforma.

Mas... miséria como motor de “reciclagem”? Cruel ironia da sorte numa sociedade de “passá-sab”! O que falta é mais solidariedade: quem tem de sobra dê a quem tem falta. Não por interpostos monturos mas olhos nos olhos, senão através de associações e instituições benévolas. “Reciclagem social”, porque não... mas com dignidade!

Reciclagem de fome é que não! Porque é indigna. Porque não é solução. Numa sociedade feita de espaços insulares diminutos, com uma expansão urbana caótica (somos mais de metade a viver nas cidades), que importa quase tudo o que consome, que fazer com o acúmulo dos detritos não degradáveis? O problema tende a tornar-se crónico se não forem adoptadas verdadeiras medidas de reciclagem, devendo os cidadãos consumidores colaborar com a triagem dos seus lixos domésticos. 


Reciclar para criar...

Reciclagem industrial? Parece que ainda vai no adro! Felizmente têm-nos valido as diferentes formas de reciclagem artesanal que, essas sim, têm feito um belo percurso, o mais das vezes para fins artísticos. Porque a Arte está no sangue do nosso Povo criador – ou não fosse o carnaval a mais popular e espontânea das expressões artísticas. Mas carnaval é uma vez por ano, e ele próprio acaba em... “cinzas”! Felizmente não é só para o entrudo que os nossos artistas e artesãos nos deslumbram, e não é de hoje que o Povo cria com o pouco que lhe vem à mão. Dou comigo a lembrar os meus tempos de criança: bolas de meia, bonecas de trapo, carros de madeira e lata, pneus, arcos metálicos, o que não virava brinquedo nas nossas mãos! Botões e tampas de garrafa “jogavam” em tabuleiros de cartão que improvisávamos em “campos de futebol”! Pouco havia, naquele tempo, para deitar fora, mas a falta de recursos estimulava a nossa criatividade, ganhando com isso o meio ambiente. Descuidando-se os adultos, lá nos escapulíamos para ir “catá côbre” atrás do cemitério, que íamos depois vender na loja de “Nho Cesa”. Cobre, zinco, alumínio, tudo se vendia la na “Nho Cesa” a pensar naquele “barão com sucrinha” que comprávamos por um cruzado. Se desse para uma farinha-de-pau com açúcar e leite dutch – o chamado “concreto” que fazia o regalo da garotada – ai a sabura! Às escondidas, que gente-grande não autorizava dinheiro em mão de criança!


...e para desenrascar

Se os nossos artistas e artesãos podem dar vida aos refugos e objectos da natureza inerte, melhor ainda é associar criação artística e rendimento. E têm pano para manga se derem asas à imaginação! Lá onde há pobreza há “desenrasca”, e a reciclagem popular foi sempre uma questão de sobrevivência: os bairros de madeira e lata das periferias urbanas pouco mais têm de artístico senão o engenho face à adversidade. Aqui nas ilhas crescemos com ofícios liberais e outros negócios caseiros vivendo de reciclagem artesanal: tradicionais umas (ferreiros, funileiros e outras oficinas), outras nascidas com o espírito empresarial da economia de mercado (aguardentes, licores, mel de cana, confeitarias e doces, que hoje compramos nos supermercados...)

Crioulo sempre foi bom a desenrascar-se
(duas crianças a apanhar tamblas na
Avenida Marginal - Mindelo)
Felizmente não-retornável não significa inútil. Ignoro o que diz o direito comercial (que sem dúvida existe) sobre a reutilização de vasilhames de marca registada. Não se pode é ignorar os benefícios desses restauros e “recipiências”, uns dando vazão ao ferro-velho e outras carcaças de automóveis que vemos a enferrujar na natureza, outras garantindo uma segunda vida a garrafas e bocais vazios.

E não é só o meio ambiente que sai a ganhar com essas reciclagens “de recurso”. Ao dinamizarem o mercado de trabalho e de consumo, também revitalizam a economia de proximidade, com impactos macroeconómicos induzidos: quanto mais auto-suficiente for o mercado de consumo, menos importamos e mais poupamos em devisas. Quem pensou numa taxa ecológica para dissuadir a poluição, em contrapartida devia pensar num bónus (incidindo, porque não, sobre direitos e impostos) para as actividades empresariais que concorrem para o saneamento ambiental.

Mas reciclar não é só recauchutar os pneus “carecas” e dar tratamento aos detritos sólidos. Ignoro o destino dado aos resíduos de hidrocarburantes, mas não menos importante é expurgar as águas residuais, com vista à sua reutilização no saneamento público e na rega. Veja-se o exemplo da Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) da Ribeira de Vinhas (S. Vicente), resultado do Plano Sanitário dos anos oitenta. Não é à toa que Mindelo se orgulha de ser uma cidade com praças e jardins bem cuidados...

Reciclar é preciso… mas atenção às mentalidades! Da taxa ecológica e dos donativos recebidos, faça-se bom uso! Às Câmaras e ao Fundo do Ambiante, não nos deixeis cair na poluição, mas livrai-nos do lixo…


Ámen!

Mantenhas da terra-longe, 21 de novembro 2012
David Leite (modestoleite@facebook.com)


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Devolvam-nos as nossas praias

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