15 de outubro de 2012

Nosso mar, nosso litoral: alto à poluição [texto de David Leite]

Gasóleo na Baía!

Quarta-feira, 5 de setembro, tempo “voltod pa tchuva”. Só alguns “fominhas” se aventuram pela ourela do mar – esse mar lá em baixo a perder de vista, sem os habituais reflexos de sol mas não menos tentador para quem conta os dias que lhe sobram para voltar para a terra-longe. “Pedra de Doca”!, pensei. Pedra de Doca é esse pedacinho de Matiota onde o velho trampolim corroído pela erosão (mas teimosamente de pé como um zumbi) coabita com os enormes pedregulhos que sustentam o estaleiro naval. O mar ali é cristalino e convida para um mergulho... mesmo com tempo “voltod pa tchuva”. A tentação cresce, desço a encosta a pé para um banho revigorante... mas um amigo, Carlos, atalha-me, já arrepiando caminho: “O mar está poluído, hoje não vale a pena”!
Cabnave na zona de Matiota

Pronto, lá se foi o meu banho! Deambulando nas imediações da Cabnave, uma napa de fuel! E lá foi vagando ao sabor da corrente até ir “encalhar” nas traseiras pedregosas do cais acostável.

Isto vi de meus olhos vistos – e outros também viram! O mais surpreendente é a apatia resignada daqueles que vêm, uns dizendo que não é a primeira vez, outros até, que já estão habituados. Na maior descontra, como se fosse coisa natural! Um amigo meu habituado ao mar é peremptório: - “Há partículas de chumbo no fundo do Baía, que terminam nas estranhas do peixe que consumimos. Podes dizer que eu é que disse!”

Ah! nôs Baía de Porto Grande! Todos são unânimes em dizer que os vazamentos provêm da Cabnave na calada da noite. Eu, não tenho por hábito insinuar o que não sei nem propalar o que não vi... mormente à noite quando todos os gatos são pardos! Ignoro quem anda a desconsiderar dessa maneira a nossa Baía, reconhecida e classificada como das mais bonitas do mundo, património natural da ilha do Monte-Cara e de Cabo Verde. Só sei que é preciso agir, e isso é competência da Capitania dos Portos e das autoridades de controle e fiscalização.


Nosso mar, nosso pão
Dou comigo a pensar: não andamos a ser ingratos para com esse mar providencial que hoje tanto desconsideramos ou deixamos maltratar? Que seria de nós sem o peixe que marcou presença na nossa mesa quando nos faltou pão, “nos limária e nôs mêrada” sucumbindo com a estiagem, inanição e fome em dias de carestia!

Mais um barco encalhado na praia de Lazareto
E o mar não é só o nosso “celeiro” mais seguro. Está escrito que em 1662 a pesca, ainda insipiente, já contribuía para uma verba atribuída, a título de emolumentos, aos religiosos mal remunerados. Somos tributários de uma emigração moderna que começou com a pesca da baleia, juntando a saudade aos nossos males existenciais mas compensando-a com o júbilo do regresso – “si ca badu ca ta biradu”, assim falou Nho Eugénio, o poeta.

Mas deixemos a poesia e vamos ao que mais importa: a diminuição dos nossos recursos haliêuticos. Não é preciso ser pescador para estar a par dos períodos de defeso destinados a proteger as espécies piscícolas em perigo: tartarugas, lagostas, atum... e até mesmo, quem diria!, a cavala, o peixe do povo, o que mais abunda nestes mares. Decepção para os turistas que ainda pensam que vivemos a tropeçar em lagostas! Se calhar isso era uma vez, perguntem aos antigos da Boavista. Mas hoje? Só para turista mesmo e para quem pode, e oxalá! O atum vai passando porque Cabo Verde está no seu caminho, porém a migração é longa e todos os predadores não são peixes como ele – outros apetites rondam, vorazes e furtivos, nos nossos mares! Que podem traineiras e redes artesanais contra essas usinas flutuantes que com dragas e arrastões rocegam até o plâncton que alimenta a fauna marinha?!


A tropa para o mar!
Claro que não é fácil combater a pesca clandestina nestas ilhas exíguas de terra firme quanto lhes sobra de oceano: 630 mil km² de Zona Económica Exclusiva, mais extensa do que a Península Ibérica, ou seja Portugal e Espanha reunidos! Como evitar que o peixe venha a faltar nas nossas mesas e usinas por causa da pilhagem dos nossos mares?

A tropa para o mar! Já é grande coisa poupar nas casernas e investir na marinha – entenda-se Guarda Costeira – com patrulhamento naval apoiado por aviões e helicópteros (Em agosto de 1999, um dos dois aviões da Guarda Costeira, um “bandeirante” alugado à aeronáutica civil, despenhou-se nas falésias de Santo Antão, morrendo os 18 passageiros a bordo! Foi esse o mais trágico acidente aéreo de todos os tempos em Cabo Verde).

Entretanto, há que reflectir seriamente sobre o futuro das nossas populações piscatórias. E nós-outros, consumidores cá das ilhas, meio milhão de bocas (favor incluir turistas e emigrantes em tempo de férias) quando, à data da independência, não passávamos de 275 mil?! Por este andar, e se não nos precavermos, oxalá os nossos filhos não tenham que se contentar um dia com frango de aviário!

Escusado dizer que a crise dos recursos haliêuticos não é só nossa – ela é planetária. Com a pesca industrial intensiva e a poluição dos mares, outra coisa não era de esperar num mundo em crescimento demográfico acelerado. Navios-“lixeiras” cruzando pelos mares peri-africanos não hesitam em derramar neles seus resíduos de hidrocarburantes e outros detritos tóxicos! Poluição de caso pensado, acordos de pesca firmados com parceiros de comportamento duvidoso e outros “negócios da china”, quem sabe mais que nos informe!


Orla marítima em perigo! 
Está provado: o mal que se faz ao mar paga-se em terra! Baleias a dar à costa, quem não ouviu falar? Infelizmente não é só a fauna marinha que sofre com a poluição das nossas águas de difícil controlo. Não menos vulnerável é a nossa orla marítima talhada de enseadas e praias exuberantes. Quem não viu um dia partículas de alcatrão flutuando numa praia remota? Cheguei a ver uma praia tapeçada de cápsulas contendo um misterioso líquido amarelado.

Orla marítima do Porto Grande de Mindelo
Mas toda a poluição litorânea não é “importada” do mar alto – basta ver os entulhos que nós mesmos vamos largando nas nossas praias e costas! É assim: a curiosidade suscitada pelo nosso litoral selvagem, que antes nos passava despercebido, levou à descoberta (ou valorização) de novos espaços de lazer, mais acessíveis hoje em dia graças à popularização do automóvel. Nunca, antes de nós, houve tantos piqueniques, assadas e outros “barbecues” à beira-mar. Se podemos inferir daí uma invejável qualidade de vida (decerto não vive melhor quem tem feiras e touradas, casinos e cabarés, Miami Beach e Champs Elysées!), não é descabido pensar nos impactos ambientais inerentes. Infelizmente há pessoas que – “après moi le déluge!” – só pensam no seu bem-estar; pessoas tão ocas e imprestáveis quanto as latas e garrafas que vão largando na natureza! Dúvidas? É só ir passear lá para as bandas da estrada Calhau/Baía. Dizer que ainda “há dias” foi inaugurada essa estrada, com áreas de piquenique dotadas de contentores!

Contentores, disse eu? Lá onde existam, com certeza! Mas com ou sem eles (não custa nada levar consigo os seus detritos até onde os houver), ninguém tem o direito de conspurcar uma praia com seus refugos de carvão, de comida, espinhas e ossos descarnados, isto para só falar dos detritos orgânicos. Por esses e outros restos é que uns repugnantes roedores resolveram “migrar” para a Baía das Gatas! Lembro-me de uns ratos no trampolim há uns anos, no rescaldo do Festival: insolentes no breu da noite, volatilizando-se como por encanto ao menor ruído de presença humana, certamente nas fendas batidas pelo mar! Que os ratos nadavam isso eu já sabia, agora no mar!... Eu não ousaria afirmar isto se não houvesse testemunhas!

Sujeita à poluição (“importada” ou interna), a nossa orla marítima também sofre com a febre da indústria imobiliária, e o turismo não será de todo inocente se não se aplicarem as normas de legais regulamentação na matéria. Está à vista que certas construções litorâneas violam ostensivamente a lei da orla marítima. Por causa da apanha de areia e outros inertes, algumas praias devolutas estão a ficar desfiguradas e a perder o seu charme, não sem consequências sobre a oferta turística que assim vai perdendo os seus encantos. O nosso turismo é cheio de paradoxos, e este é um deles!

A questão não é apenas de ordem paisagística ou ambiental – ela interfere com a sobrevivência das espécies. Que o digam as tartarugas em período de desova quando as pás, o betão e as luzes do “progresso” se insinuam demasiado no seu habitat natural!

Entre poluição e devastação, a nossa orla marítima está em perigo! Denunciar os comportamentos irresponsáveis e egoístas daqueles que só pensam no seu próprio bem-estar, é agir no interesse do bem-estar comum. Devemos aos nossos filhos estas praias e costas, espaços privilegiados de convívio social e de recreio. Não como uma sala entulhada de lixo depois da festa, mas impolutas e saudáveis como as recebemos da mãe-natureza (Feita esta análise sobre a orla marítima, num próximo artigo proponho ampliar este assunto para uma abordagem mais genérica do problema ecológico.)


Quando as praias viram “feiras” 
Hoje em dia virou moda transformar o areal das nossas praias em pistas de dança! Salas de festa a céu aberto? Eu também quero dançar! Porém a festa muda de tom quando emana de uns "busynessmen" que vêem nas nossas praias lucrativos espaços de negócio! Na época estival damos com elas transformadas em vitrinas de promoção comercial, nomeadamente para reputadas marcas de cerveja. Nada melhor para iniciar os mais novos, futuros consumidores das famigeradas “tendas electrónicas” que volta e meia surgem plantadas na areia! Já agora, a presença de uma gigantesca “tenda electrónica” para “drenar” a juventude alienada nos três dias que durou o último Festival da Baía foi, no entender de muitos, um acto grave de lesa-cultura!

Nem as discretas praias do Tarrafal de Santiago escapam à febre das “tendas electrónicas” e outras choldras à beira-mar. Em agosto pude assistir a uma dessas desbundas nocturnas numa minúscula mas charmosa praia profusamente iluminada para a ocasião, uma música ensurdecedora a zunir nos ouvidos dos munícipes privados de sono até ao raiar do sol!


Porque a poluição também é sonora... mas disso falaremos noutra ocasião.

Mantenhas da terra-longe, 15 de Outubro 2012

David Leite


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