13 de novembro de 2012

E não nos deixeis cair na poluição... [texto de David Leite]


Num precedente artigo que intitulei “Nosso mar, nosso litoral – alto à poluição!”, propunha-me, havendo tempo, ampliar o assunto, agora da ourela do mar para dentro.

Aqui o faço. Se carrego neste tema, é porque a problemática do Ambiente, não sendo subsidiária no mundo de hoje, tão pouco poderia sê-lo em Cabo Verde. E não sendo subsidiária, merece que falemos dela. Melhor seria vê-la inscrita nos programas de governação como já se faz noutros países civilizados – não apenas para constar mas com o destaque que lhe é devido!

Equilíbrio paisagístico e ambiental  

Poluição nestas ilhas plantadas no mar-oceano? Já estou a ouvir os mais cépticos: – “Mas cadê as turbinas e chaminés industriais, os reactores, os vazamentos tóxicos? Os engarrafamentos, os tankers?”  Outros ainda:  – “E os ventos de Leste? Injusto seria levarem-nos as nuvens carregadas de chuva e deixarem-nos os gases carbónicos!

Plataforma Petrolífera na Baía do Porto Grande (Mindelo)
Seja! Podemos até excluir a poluição atmosférica (atenção à queima de lixos, à bruma seca e às tempestades de areia da Boavista!) Mas ninguém pense que estamos imunes aos problemas ambientais do mundo moderno! Com os nossos exíguos 4.033 km² de terras batidas pelas ondas mas pobres em água “de pote”, um crescimento demográfico exponencial, um consumismo de “basofaria” com tudo a vir de fora, um turismo em franca expansão, vulneráveis são o nosso ecossistema e a nossa biodiversidade. Há menos peixe nos nossos mares, menos areia em certas praias – e cada dia mais betão! (Com licença: onde estão os chalés e bungallows em harmonia com a paisagem? E esses mega-negócios opacos que deles pouco se fala, fazendo tábua rasa da lei da orla marítima – a quem aproveitam?)

Nem só o mar e a biodiversidade marinha merecem reflexão. Imagino os institutos científicos competentes (INIDA, IICT...) preocupados com a nossa fauna e flora “innerland”, com especial atenção para as espécies endémicas em risco de extinção. Mas quem se preocupa com a harmonia paisagística? Colinas e rochas com as entranhas à mostra? – por lá passaram escavadoras ecaterpillars! A extracção de inertes (um negócio dos mais lucrativos para empreiteiros e construtores imobiliários) é sem dúvida um mal necessário: sem pedras, areias, cascalhos e gravilhões, impossível ter um tecto e dotar o nosso país das infrastruturas indispensáveis ao seu desenvolvimento. O problema não é pois a extracção em si, mas a maneira caótica como vêm sendo “raspadas” praias e desventradas rochas, transformando-as em paisagens “lunares” que nos ferem a vista e já não prestam para nada!

Mal necessário ou não, do mal o menos! Quanto menos se respeitar as regras legais sobre a extracção de inertes (espero que as haja), mais os danos serão irreversíveis. Antigamente atacava-se as colinas pelos flancos, mas ultimamente vemos montanhas a ser desbastadas... pelo topo! Assim é em S. Vicente... e não é só a paisagem que resulta desfigurada. Parecendo que não, até o clima pode ressentir-se com esses entalhes feitos na rocha, protecção natural contra os ventos. Atenção para não deixar a já ventosa cidade do Mindelo desguarnecida e exposta à ira de Éolo!

Os “tont-ta-dame”, os “txa-contcê” e outros “desimportados” da vida dirão, para não variar: – “Qual estória, la fora ainda é pior!

É verdade. Mas como “la fora”, nós também não estamos imunes às consequências! Ninguém tem direito à indiferença, sob pena de virmos a pagar com juros, culpados e inocentes, pelos males causados à Natureza, nossa casa e nosso sustento!

Energias fósseis: poupar para não faltar... e não poluir

Luz já bai!” – quem, de entre nós, não viveu essa angústia? Ou a “seca” da falta de água? A água é essencial à vida como é a energia ao conforto e desenvolvimento de qualquer sociedade. Que o diga quem ficou na penumbra e sentiu “na pele” o vácuo da torneira seca!

Santa Maria (Sal)
Penumbra e vácuo que mostram à evidência o quanto somos ainda tributários do petróleo e seus derivados... Ninguém ignora que sem o gasóleo teríamos que nos contentar com a luz da lua (ou das velas) e não andaríamos a beber da água do mar! É sabido que boa parte das nossas reservas em devisas se consomem nos combustíveis, sem dúvida indissociáveis do desenvolvimento, porém importados em dólares conforme os desígnios e caprichos do mercado mundial. E ninguém deve ser insensível a tão pesados encargos para um país que só tem de sobra mar e vento!

O que temos tendência é esquecer é que o ónus energético não é apenas financeiro! Não é só pelas avultadas transferências em dólares que os combustíveis fósseis nos custam caro; também pesa na balança o seu elevado grau de “poluência”. Tanto pelo seu consumo quanto pelos seus incómodos resíduos, não devemos substimar os seus impactos ambientais.

Seja por razões ecológicas ou financeiras (não poluir/não esbanjar), a poupança está no ganho e o erro no malgastar. Numa terra avara de águas a não ser do mar, onde a dessalinização custa os olhos da cara, os hábitos de consumo não podiam ser os mesmos que numa França nuclearizada ou num qualquer país com rios e barragens hidro-eléctricas. Para um consumo ecológico e racional da luz e da água, faça-se conforme a consciência de cada um. Atenção: não adianta poupar porque é caro ou esbanjar porque não custa – antes importa dar voz à consciência ecológica, e que fale mais alto do que o bolso de cada um (consciência ecológica é, por exemplo, isto: não haver falta de água em França, e ser a própria empresa distribuidora quem apela os consumidores a preferir o chuveiro em vez da banheira!) Piscinas de água doce? Por montes e vales ainda vemos mulheres de lata à cabeça e burros carregados de vasilhames, como em romaria ao precioso líquido! Para bom entendedor, meia palavra...

Claro que os pequenos gestos contam, e havendo bom-senso, já é muito. Mas também conta o equipamento: por exemplo, os painéis solares que já marcam presença em residências e hotéis, as lâmpadas e aparelhos electrodomésticos menos energívoros (ainda que custem mais caro), e até mesmo o simples autoclismo que permite dosear a descarga de água... A título individual ou comercial, quanto mais ecológico, melhor.

Mas equipamentos “ecológicos” só contam se merecerem a preferência de quem os compra. Já que não os fabricamos, o Governo pode dar uma ajudinha... por exemplo, aplicando-lhes direitos alfandegários bonificados. Tal seria um formidável estímulo à importação dessas utilities, tornando-as mais atractivas para o mercado imobiliário e para o consumidor. Talvez houvesse mais investimento na prospecção e edução de águas, numa horticultura menos “hidrívora”, enfim, num melhor meio ambiente...

Haja água e... fiat lux! Na verdade, não ha pior apagão que o das consciências “apagadas”! Quando a consciência do bem comum brilhar sobre a penumbra do “txa-contcê” e do “tont-ta-dame”,  então sim...

- Luz ja bem!

Energias renováveis, purgueira e biodiesel

Cabo Verde dá as boas vindas às energias renováveis e alternativas! Todo este sol e vento que nos deu a natureza não haveriam de se consumir só no bronzear e velejar – além desta grande dádiva que é o turismo náutico e balnear, muito mais têm ainda para nos dar. E se as energias eólica e solar têm futuro nestas ilhas, ainda podemos canalizar a energia das ondas sem privar delas os aficionados dosurf! O Governo, se assim pensou, melhor o faça! Não lhe faltará matéria prima para implementar as ambiciosas políticas energéticas que ja tem em carteira, assim possam elas reduzir a nossa dependência dos hidrocarburantes.

Planta da purgueira
Aos países industrializados que começam a orientar-se para os biocarburantes e outras energias alternativas, podemos propor, como matéria prima, a purgueira. A purgueira (jatropha curcas) é um excelente carburante para motores de combustão, além de serem os seus resíduos um formidável fertilizante agrícola. Essa planta oleaginosa já fazia parte da cobertura botânica destas ilhas quando chegaram os primeiros portugueses. Li algures que em 1485 já existia na Ribeira-Grande uma fábrica de sabão de purgueira (que até chegou a exportar-se para a Guiné). Dos seus grãos se extraiu, durante séculos, óleos lubrificantes, medicinais e de iluminação, estes com escoamento para Lisboa a partir de 1836. No século XIX a purgueira é exportada para Inglaterra e França, e as autoridades incentivam o seu cultivo em todas as ilhas, mesmo em Santa Luzia. Mas enquanto se aumentava a produção, eram agravados (como em 1845) os direitos de exportação. Objectivo, dissuadir a concorrência estrangeira para que as colheitas fossem todas para Lisboa e de lá reexportadas. Em 1847, um busynessman inglês estabelecido em S. Vicente, George Miller, viu indeferida a sua proposta de comprar o exclusivo das colheitas em troca de taxas de exportação reduzidas.

Principal produto de exportação até meados do século XX, a purgueira ficou desde então confinada aos óleos medicinais de fabrico caseiro que vão sobrevivendo nos mercados de rua. Mas com o biodiesel na ordem do dia, melhores dias hão-de vir. Em boa hora uma nossa compatriota (emigrada na Itália, se bem li num jornal) pensou em investir nessa planta, para exportação. Boa sorte! Que venham mais patrícios investir nas energias renováveis e alternativas.

Mantenhas da terra-longe, 10 de novembro 2012
David Leite (modestoleite@facebook.com)


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4 comentários:

zito azevedo disse...

Por vezes lava-nos a alma sentir uma voz dar visibilidade a problemas de fundo que parece passarem ao lado das autoridades competentes...Cadâ, amigos, as outras mais e muitas vozes para o coro necessário???

zito azevedo disse...

Queria esrever CADÊ...

zito azevedo disse...

Verifico, com enorme tristeza, que todo o mundo se está marimbando para algo que pode colocar a HUMANIDADE em risco - A POLUIÇÃO!!!

dai varela disse...

Pois é, Zito Azevedo, hoje mesmo estava a pensar que nunca ouvi falar de um processo às empresas responsáveis pelos barcos que constantemente poluem a praia da Laginha e o mar da Galé. Nada.
Essa inanimação está alastrada de alto a baixo em Cabo Verde.

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