14 de julho de 2008

Um Crioulo n’Descontra [Capítulo 2]

… então aquela linda crioula, abre o caderno para me mostrar a sua preciosa colecção de poemas (acompanho-lhe o movimento de abertura naquelas pernas grossas e de pele lisa para me mostrar a sua preciosa…), e começa a ler: “O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente […]”. Tive uma disfunção eréctil. Olhei-a nos olhos e disse-lhe: “ou o Pessoa encarnou em ti, ou estás a gozar comigo”, ao que ela respondeu: “è que quando gosto dum poema, eu o escrevo na minha colecção…”. Quase que a odiei, mas quem pode não gostar duma linda mulher apreciadora dos seus poemas?

Continuamos com a sessão de poesia enquanto a declamadora lá continuava a se engasgar na leitura do “Não vou para Passárgada”, de Ovídio Martins, e no fim da leitura quando a mediadora perguntava, “algum comentário?” – silêncio absoluto – logo se ouvia outra vez um rapaz que começava a falar em português e se encrencava, para depois voltar para o seu badiu, que era menos incompreensível, infelizmente não conseguia formular uma ideia de todas as palavras que por sua boca saíam, apesar dele ter vencido o concurso de poesia – Deus me livre e guarde de ler algum trabalho desse indivíduo – o seu falar dava pena (eu não participei desse concurso por achar que não tinha qualidade – o concurso, não eu - e também por causa do pequeno prémio) e estava certo.

Porque o ambiente denotava algum desinteresse, perguntei a mediadora porque será que, estando nós no Festival da Juventude e estando presente os jovens vencedores do concurso de literatura – infelizmente ainda não tinha ouvido o rapaz falar – só se ouvia poesia dos antigos poetas. A confusão estava lançada. Tomou a palavra o professor Moacyr Rodrigues para defender os antigos poetas, porque eles tinham vivido uma juventude muito mais rica do que a nossa, porque eles tinham lutado, tinham sofrido as secas, a fome, sendo secundado por uma aluna sua (que na certa estava à procura de mais um valor), dizendo que os jovens estavam desligados da terra, já não eram patriotas e que na certa escreviam sobre coisas sem valor. Tomei da palavra para lhes dizer que não se devia comparar as épocas vividas, e que só por não termos vivido a luta ou as secas que os nossos poemas seriam de menor qualidade e que não era possível saber se os jovens poetas estavam tão desligados da terra se não têm apoio para publicar as suas obras.

Não posso falar de mim como poeta sem apresentar uma obra minha, não é? Dou-vos o privilégio de apreciarem a minha escrita:

Inspiração

Na vã tentativa de alcançar a inspiração
Isolei-me
Criei um mundo fechado
De pensamentos sem rostos
De rostos sem vida
De vidas sem sentido

Solidão!
Minha única companheira
Meu único sentimento
Tentando criar outras emoções
Que nela desconheço

Fecho meus olhos sentindo-me sair de dentro de mim
Evado-me do meu mundo
Minha prisão
Arrebento os grilhões com o poder da imaginação
Faço desaparecer as paredes invisíveis do meu cárcere
Com um desejo louco pela liberdade
E fujo sem voltar uma única vez
Com medo de me perder
E parto, flutuando por entre a multidão
Observo os rostos de sentimentos em expressão
Faço-me parte de suas vidas
Sinto-lhes o bater
Partilho suas sensações
Seus momentos

Realizo-me escrevendo.
.

2 comentários:

Rui Filipe disse...

Bravo, aprecio a tua ousadia e a forma como alimentas o teu ego... com certeza chegarás longe. tens todo o potencial e a arrogância típicas de qualquer jovem, porém o que te distingue dos demais é que pareces saber utilizar muito bem o dom que te foi dado a teu favor, dom esse que só seguirá aumentando conforme fores ganhando mais e mais experiência.
Mais uma vez... BRAVO, BRAVISSIMO!!!

Anónimo disse...

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