7 de fevereiro de 2016

Minhas propostas no VI Encontro de Escritores de Língua Portuguesa - UCCLA



A convite da UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, estive integrado no painel dedicado ao Novos Escritores de Cabo Verde, enquadrado no VI Encontro dos Escritores de Língua Portuguesa. Foi um painel em que acompanhei autores de grande valor, como  Carmelinda GonçalvesChissana MagalhãesDâmaso Vaz, Débora Sanches, Eileen Barbosa, Natacha MagalhãesSilvino Lopes Évora. Ficou a faltar na lista dos que estavam anunciados o meu amigo Helder Fortes que por razões pessoais esteve em São Vicente.

Foi na terça-feira (2 de fevereiro) e revelou-se um momento muito intenso de partilha com meus colegas novos autores e também com o público que nos honrou com sua presença, recomendações, observações e também críticas construtivas.

Painel do Novos Escritores de Cabo Verde: (da esquerda) Carmelinda Gonçalves: Chissana Magalhães; Dai Varela; Dâmaso Vaz; Ana Paula Tavares [Moderadora]; Eileen Barbosa, Natacha Magalhães; Silvino Lopes Évora


Coloco aqui parte da minha intervenção no VI Encontro dos Escritores de Língua Portuguesa em Cabo Verde, promovido pela UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa - em colaboração com a Câmara Municipal da Praia, e que decorre na cidade da Praia - Cabo Verde.


Como afirmei no encontro dedicado aos Novos Escritores, vejo a questão da produção literária nacional em três níveis: os autores, as editoras e o Estado. Temos poucas publicações e muitos autores ou putativos autores. Este facto leva há que não exista nenhuma editora especializada no género infanto-juvenil, o que vai contra a corrente porque basta estar-se actualizado com os dados internacionais para saber que quem impulsiona fortemente as vendas do livro imprenso é o público jovem.

Estatuto do Livro Infanto-Juvenil

Porque acredito que proteger esta área tão frágil significa apostar no enriquecimento literário, artístico e intelectual do povo de Cabo Verde, proponho que seja criado o Estatuto do Livro Infanto-Juvenil, um instrumento que não só lhe reconheça o valor artístico, mas que crie as condições da sua expansão. Com este Estatuto o livro Infanto-Juvenil nacional não deverá pagar taxas alfandegarias para sua importação, e o valor de envio por Correios dentro de Cabo Verde terá um preço reduzido e suportado pelo Estado. A comunicação social dá uma atenção relativa a esta produção literária, mas com esse Estatuto seria possível fazer-se publicidade dos livros a um preço reduzido. Pode-se também deduzir do imposto as despesas efetivamente despendidas com a publicação das obras deste género.

Outras Propostas

Como sabem, o papel de formar, informar e distrair as crianças-leitoras não pode nem deve ser assumido apenas pelos autores. Os pais, e professores, e o Estado (na forma das suas instituições) também têm um papel importante neste processo.

Contudo, para mim, o problema está mais a montante, ou seja, no Estado, e por isso trago algumas propostas aqui:

Cabe ao Estado criar as oportunidades de desenvolvimento do gosto da leitura, principalmente ao disponibilizar ou facilitar o acesso às obras nacionais. A escola, desde o pré-escolar, é o local propício para assegurar a atenção da criança-leitora, mesmo que seja usando a literatura no seu aspecto utilitário, informativo ou pedagógico.

Cabo Verde dispõe de 526 estabelecimentos de educação ou ensino pré-escolar, 420 unidades de Ensino Básico e 50 do Ensino Secundário; Porque é que não se consegue alcançar este público com os livros infantis? Talvez porque o Ministério da Educação não tem um plano de leitura para incentivar o descobrir dos autores nacionais. Não há projectos de leitura e, consequentemente, não há disponibilização de livros e contacto com os autores e ilustradores.

É preciso desenvolver-se técnicas de incentivo ao hábito de leitura através de programas de pequena escala e itinerantes. Falo, por exemplo, de semanalmente montar a mesma tenda de leitura em diferentes escolas.

É preciso envolver-se as comunidades na criação de minibibliotecas infantis que serão com certeza acarinhadas pelos autores nacionais.

No nosso país, em 2015, estimavam-se cerca de 525 mil pessoas residentes. Destes, o número de jovens (pessoas entre os zero a 14 anos de idade) era de 155 mil pessoas. Com um público-alvo deste tamanho, porque é que editamos tiragens de 500 exemplares e temos dificuldades em vender livros?

Também proponho que o Ministério da Educação deve incentivar o professor a aperfeiçoar a sua formação na literatura nacional. O professor deve conhecer antes de procurar alargar o leque de leitura do aluno.

Os professores podem despertar a interacção dos alunos através de visitas às bibliotecas. Mesmo que a criança-leitora não pretenda escrever um livro, para ela se tornar um profissional de excelência é preciso ler muitos livros.

A escola pode promover o jornal de parede, mas que tenha espaço para a literatura.

Temos 22 municípios em Cabo Verde e um Ministério da Cultura. Quantos concursos de literatura temos anualmente? Políticos da minha terra, façam concursos de literatura, mesmo que tenham prémios simbólicos.

O Ministério do Ensino Superior e Inovação pode incentivar a pesquisa da literatura infanto-juvenil nacional no ensino superior e destacar os melhores trabalhos.

Um dos maiores problemas para os novos autores ou autores independentes é a distribuição. É preciso encontrar-se novas formas de circulação das obras. Para isso o Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro pode criar canais de facilitação de distribuição nos postos de venda em todas as ilhas. Em termos internacionais, o Ministério das Relações Exteriores pode criar canais para fazer chegar os livros nas Embaixadas e Consulados espalhados pelo Mundo e divulgar nossa produção.

Depois irei disponibilizar todo o texto para quem se interessa pelo tema, mas como pretendo usá-lo como base para um projecto maior vou trabalhá-lo melhor. Abraço e boas leituras...

VEJA TAMBÉM

Jornal de Letras de Portugal destaca novos autores de Cabo Verde 

Veja a reportagem que a Televisão de Cabo Verde fez sobre o Painel dos Novos Escritores de Cabo Verde:

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