13 de maio de 2014

Alex da Silva critica duramente campanha publicitária da Câmara de Comércio do Norte


A nova campanha publicitária da Câmara de Comércio do Norte foi lançada dia 9 de Maio com o objectivo de trazer nova imagem à instituição mas seu produto gráfico é alvo de fortes críticas do artista plástico e investidor em São Vicente, Alex da Silva. É por isso que o também curador da galeria de arte, ZeroPoint Art, decidiu manifestar-se contra a recém-lançada marca "Be CV", que faz parte do projecto de marketing da nova imagem da Câmara do Comércio de Barlavento e financiado pelo Banco Mundial.



Alex da Silva - artista plástico
MEU MANIFESTO

A nova imagem do Business Entrepreneurs da Câmara de Comércio do Norte é, no mínimo, deplorável. Pela primeira vez, não consigo deixar de manifestar publicamente a minha total indignação por tamanha afronta.

Questiono-me se terá havido um mínimo de esforço para adequar a nova imagem do BE CV à subjacente estratégia de investimento empresarial que terá sido desenhada para o Norte do nosso país. Quero acreditar que uma estratégia terá sido pensada, pois custa-me a crer que estamos à toa na governação das nossas ilhas. Mas conforta-me imaginar que a nova imagem não a traduz. Caso contrário, teríamos uma estratégia no mínimo aberrante. Senão vejamos:



Ao observarmos a nova imagem patente no convite para a Gala BeCV o quê que nos salta à vista? Uma mulher aparentemente nua, visivelmente dengosa e submissa, quase humilhantemente disponível para o que quer que seja. Será essa a nossa forma brilhante de promover o nosso Norte? Propondo como isco um conceito reles e imediatista, que convida qualquer oportunista com um passaporte estrangeiro a fazer um assalto ao nosso país, enriquecendo-se rapidamente com o investimento das suas parcas poupanças em decréscimo de valor em outras paragens? Não insultemos a inteligência dos verdadeiros homens e mulheres de negócio que têm respeito pelo seu dinheiro.


Queremos, sim, investidores a sério, que tragam capital e conhecimento, metodologias de trabalho e inovação, que se enriqueçam e façam enriquecer as nossas gentes, que nos ajudem a construir um país que nós, sozinhos, já demos provas de não sermos capazes!

O logótipo do BE CV, que supostamente deveria traduzir robustez, confiança, responsabilidade e inovação, mais parece um emaranhado de letras desorientadas e desorganizadas, tecnicamente intratáveis, visivelmente desarmonizadas. Será que a nossa arrogância e a nossa pequenez não nos permitem a humildade de “deixar fazer quem sabe”? Não somos sequer capazes de perceber que o mundo é maior do que o nosso umbigo e que a nossa imagem deveria ser direcionada para além-fronteiras, captando o interesse de gente que interessa? E quem interessa? Na verdade, só nos interessa quem vem para Cabo Verde por opção e não por necessidade. Essa gente que nos interessa já viu melhor, muito melhor, do que o logótipo do BE CV. Essa gente que nos interessa procura gente interessante e, por isso, espera mais de nós!

Muito mais eu poderia dizer sobre o total desequilíbrio gráfico da imagem, cujos elementos estão distribuídos de tal forma que a enfatização competitiva de cada detalhe impõe uma agressividade e confusão visual deveras lamentável. A cor e a luz são propostas de percepção que devem ser correctamente intencionadas por artistas, designers e arquitectos para criar harmonia e equilíbrio em trabalhos desta natureza. O respeito que os profissionais da arte visual devem ter por estes dois elementos essenciais da construção gráfica deve ser sagrado.

Temos que pôr um BASTA no amadorismo com que se assumem os processos de tomada de decisão nas nossas ilhas. Nós não estamos num país de brincadeira. Cabo Verde não é uma terra de “faz de conta”. Não nos ridicularizemos perante os nossos parceiros estrangeiros, despertando neles um paternalismo patético que ofende quem, como alguns de nós, quer a qualidade absoluta e não a relativa naquilo que fazemos em Cabo Verde.

É nossa responsabilidade individual e coletiva evitar que um dia a nossa sociedade seja maioritariamente constituída por gente insana que governe os destinos das nossas ilhas com pressupostos e objectivos insanos. Estando à beira dos 40 anos da nossa independência, é inadmissível que percorramos os mesmos caminhos errados que outras nações percorreram no seu suposto processo de desenvolvimento. Quando o desenvolvimento é conseguido à custa da desconstrução da essência de uma nação, adulterando valores éticos e culturais estruturais, desorganizando prioridades, deixando “terra queimada” para gerações vindouras, ainda que de forma aparentemente subtil, estamos a falar de outra coisa, não de desenvolvimento e progresso de um país.

O nosso Norte e o nosso Cabo Verde merecem mais e melhor do que isto!

Concluo deixando aqui um repto:
Podemos estar desesperados, mas nunca deixemos que ninguém nos veja como nada menos do que uma sociedade culta.
Mindelo Cultural Revolution.



NOTA: texto publicado no blogue com autorização do autor, Alex da Silva.


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