5 de fevereiro de 2011

'Às vezes danço enquanto pinto' - Kiki Lima (Artista Plástico)


Kiki Lima, o pintor que há mais de quarenta anos procura celebrar a caboverdeanidade. Com um trabalho que distingue-se pela expressão do movimento e também pelo seu cromatismo, o pintor caracteriza Cabo verde a partir do real em pinceladas longas.


Odair Varela - Teve alguma influência de artistas caboverdeanos no início da sua carreira? 

Kiki Lima - Não tive influência de pintores caboverdeanos e nem podia ter porque eles não existiam.
Kiki Lima
Repara que comecei a pintar em 1974, com vinte e um anos, e nunca havia visto uma exposição de pintura. Conhecia algumas pinturas de Abílio Duarte, após 1974 porque antes eles eram proibidas. Outra pessoa que conheci, como desenhador não como pintor, foi o arquitecto Pedro Gregório, que vivia na cidade da Praia.


Como vê as artes plásticas em Cabo Verde actualmente? 

Toke e Dança (óleo) - Kiki Lima
- Não sei se é por eu ter estado um pouco afastado este último ano mas tenho a sensação de que as artes plásticas tiveram um abrandamento. O Centro Cultural do Mindelo que esteve apresentando exposições com alguma regularidade parece ter abrandado. Talvez seja porque esteja em obras nesses últimos tempos. Mas acho que é uma questão mais conjuntural, não é por falta de valores. 


- Há algum jovem talento despontando nas artes plásticas? 

- A nível de artes plásticas tenho notado pouca coisa. Na música tem aparecido bastantes jovens com qualidade mas nas artes plásticas isso já não acontece. Não me lembro de nenhum nome que tenha aparecido com impacto.


A música influencia os seus quadros? 

- São coisas interligadas mas a música é sempre secundária para criar um ambiente. Quase nunca coloco uma música propositadamente para pintar um quadro. O processo é inverso. Começo a pintar e vou colocando música para acompanhar o momento. Depende do feeling do momento e do estado de espírito. Pode ser música caboverdeana, lenta ou movimentada. Ouço também música clássica ou jazz ou então música popular brasileira. 

Às vezes provoco um pouco se estou pintando um quadro com muito movimento, coloco uma música que me faz dançar enquanto pinto. O meu tipo de pintura é caracterizado muito pelo movimento que imprimo. O movimento que está no quadro é vivido. É mais a pintura que influencia a música do que o contrário. De uma forma contraditória, e isso é um factor psicológico importante na minha pintura, em regra não sou o tipo de pessoa alegre, que gosta de rir e brincar. Mas no meu interior vivo muito desta forma. Eu gosto de dançar. A minha alegria interior que não manifesto na convivência com as pessoas, manifesto-a nas minhas pinturas. É a minha oportunidade de mostrar o meu interior e ele está nos meus quadros.


- Como é a sua relação com os outros artistas plásticos? 

- Em princípio, entre nossos colegas artistas somos todos amigos. Não é aquela amizade muito estreita mas que dá para trocar impressões. Acho que podemos falar em termos de amizade profissional. É claro que há uns com que se convive mais facilmente. Mas não é por ser artista, depende da personalidade. Dou-me bem com o Manuel Figueira, a Luisa Queirós, o Tchalé Figueira, o Alexandre Silva ou a Bella Duarte. Talvez pela distância não consiga visitar muitas vezes mas aprecio o trabalho da InterArte do Nild e do Rô.


- Pensa que seu trabalho é mais valorizado no estrangeiro do que em Cabo Verde? 

- A questão da valorização do artista mais no estrangeiro de que dentro do país é um hábito muito caboverdeano, posso até afirmar que é um hábito lusófono. Eu sinceramente sinto-
Frescuras de Carnaval (óleo) - Kiki Lima
me muito acarinhado no meio caboverdeano. Um artista não mede o carinho ou a apreciação que as pessoas têm por ele através de mais ou menos venda. Isso não é o mais relevante, apesar de ser um indicador importante. 

A apreciação do trabalho não deve reverter só sob o ponto de vista comercial. Tem a ver com a maneira como as pessoas reagem, o interesse que demonstram em assistir a uma exposição mesmo sem comprar, os comentários do público. Isso demonstra interesse e valor. Por isso não embarco nessa ideia que em regra os artistas são mais apreciados lá fora do que cá dentro.


- Existe crítica da arte em Cabo Verde? 

- Penso que seria um exagero dizer que ela não existe. Existe quando assistimos a uma exposição e reagimos. O público pode manifestar a sua opinião ao artista ou não mas há sempre crítica. O que escasseia é uma crítica de forma organizada, por exemplo, escrita em jornais e revistas especializados. Não temos essa prática de comentar. Tenho visto, não os chamarei de críticas mas sim de artigos de opinião em jornais que falam sobre determinadas exposições. Elas são feitas por jornalistas e são opiniões que nem sempre são relevantes. Muitas vezes soam a oco. 

Criticar uma obra implica aprofundar na obra e também conhecer o artista. Aceito que um observador ocasional de uma exposição faça um comentário ou uma crítica sobre uma obra que observou e reaja do ponto de vista do imediato. Mas um indivíduo ao fazer uma crítica num meio de comunicação, não o pode fazer de ânimo leve. Tem que o fazer com mais conhecimento do que aquele que somente está a observar e reagindo na hora. A apreciação de um artista não deveria ser feita somente pela observação de uma obra, nem mesmo de dez. Ela implica a avaliação de todo o seu percurso, para saber se ele mudou ou evoluiu. 

Deve-se ter em conta o que críticos de arte falam mas penso que se deve situar a opinião dos ditos críticos de arte especializados no mesmo patamar de que qualquer pessoa que não seja especializada. Há vários elementos que nos levam a intervir ou reagir perante uma obra de arte, que para mim torna-se quase irrelevante que tenhas mais ou menos conhecimentos.


- O que é isso de pintor comercial? 

- Já ouvi essa expressão mas penso que não faz nenhum sentido. Ser pintor comercial é vender a sua obra? Não conheço artista que não venda a sua obra. Existirá alguns, mas por opção. Pode-se falar numa atitude profissional. Eu assumo-me como um profissional da arte. E o que qualquer profissional faz? Vende o seu trabalho. Ele estuda, pratica e inventa
Xkina d' Soncente (óleo) - Kiki Lima
 para mostrar às pessoas a sua obra. Para que possa repor os materiais necessários, alimentar-se e viver ele precisa vender o seu trabalho. Não entendo essa expressão ‘comercial’. Acho que em Cabo Verde existe esse preconceito quanto à venda da arte. 

Encontramos muito esta expressão ‘artista comercial’ e admito que sou muito conotado com ela porque vendo muito. Mas eu não vendo muito porque obrigo as pessoas a comprarem. Vendo porque o público aprecia meu trabalho e compra. Que culpa tenho eu de vender muito? Tenho uma carreira de quarenta anos, com evolução, dedicação, estudo e sacrifício para encontrar um caminho dentro da arte. 


- Já sentiu vontade de reaver um quadro? 

- Ainda há pouco tempo manifestava a intenção de reaver um quadro. Trata-se de um quadro que não tem nada a ver com a minha maneira de pintar hoje mas que faz parte do meu percurso. É uma obra do ano (1975) que iniciei na pintura. Pela história que ela representa, pois o valor do quadro não é medido somente pelo estilo que ele tem. Como já havia dito, a avaliação de um artista faz-se tendo em conta o seu percurso, sua carreira. Assim sabe-se se ele evoluiu ou não. Aquela obra é capaz de valer mais do que uma pintura actual porque foi a partir dali que foi feito um caminho até chegar onde estou agora. Eu não teria chegado aqui se não tivesse passado por essa fase.


- Um desejo para 2011? 

- Não sou futurista. Sou uma pessoa positivista por natureza. Espero que este 2011 seja bom como foi o ano anterior. Aquilo que considerarei um bom 2011 será conseguir realizar os projectos que tenho em carteira.


Extrato da entrevista publicada (também) no Artiletra - Jornal-Revista de Educação, Ciência e Cultura de Dezembro/Janeiro de 2011 - Nº 108


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