15 de janeiro de 2011

Policia mais agressiva. Marginais mais violentos.



Lembro-me do tempo (anos 90) em que a Policia Militar patrulhava as ruas da nossa querida cidade do Mindelo. Não conseguiam lidar com a situação naquele tempo, verdade seja dita, porque não estavam vocacionados para essa tarefa. E continuam a não estar. Recordo-me que quando os adolescentes viam-nos na ronda, gritavam “PM pegá matá” ao que eles saiam a correr atrás dos meninos na zona para lhes bater com o manduco. 




O Estado então treinou uma força especial chamada Policia  de Choque, mais bem equipada e intimidante, pois a violência nos bairros mais carenciados estava aumentando (Ilha de Madeira, Chã de Tiliza, Tchetchénia, etc.), sem razão aparente. Durante algum tempo a Policia de Choque impôs respeito, ou talvez, medo por onde passava. Eram brutamontes cheios de músculos que carregavam um bastão especial, chegavam logo batendo e depois perguntavam o que se passava. Quando apareciam na zona gritava-se “oli choquada” e todos se afastavam. Passado o efeito novidade, a violência aumentou e houve apedrejamento à viatura da Policia de Choque, sem nenhum respeito. Como aconteceu essa transformação não se sabe, pois os policias de choque continuaram cheios de músculos e com o manduco especial. 


Em 1993 o Estado notou que havia uma nova forma de criminalidade nas ilhas. Criou a Policia Judiciária para investigar crimes de forma ‘científica’. Colocou-se em campo Agentes instruídos em técnicas de investigação que não os conseguiam aplicar no terreno pois não tinham os meios necessários. Trabalhavam ao nível de denúncias (riolas e bufos) e de técnicas de interrogatório pouco recomendados em países democráticos. Porque não havia muito para fazerem de forma ‘científica’, começaram a patrulhar as ruas nas suas viaturas e ocasionalmente intervindo. Chegaram de cara mau e criando fama de agressivos o que, durante algum tempo, impôs respeito, ou talvez, medo às pessoas. Quando apareciam na zona gritava-se “oli judi” e todos se afastavam. Passado o efeito novidade, a violência aumentou e houve apedrejamento à viatura da Policia Judiciária, sem nenhum respeito. Como aconteceu essa transformação não se sabe, pois os Agentes continuaram de cara mau, com a mesma fama e sem os meios necessários. 


Aumentou a violência e a sua regularidade e o Estado precisava dar uma resposta forte e rápida. Em 2007 aparece o Serviço de Piquete da Policia de Ordem Pública. Jovens cheios de sanha com algumas semanas de treino a mais e pé pesado no acelerador da viatura policial. Respondiam rapidamente ao chamamento do número 132. Inicialmente bem acolhida pela população, o Piquete rapidamente criou fama de ser muito violento e pouco preparado. Quando apareciam na zona gritava-se “oli pikete” e todos se afastavam. Passado o efeito novidade, a violência aumentou e houve apedrejamento à viatura do Serviço de Piquete, sem nenhum respeito. Como aconteceu essa transformação não se sabe, pois os Agentes continuaram cheios de sanha e com o pé pesado no acelerador. 


Ainda em 2007 é criada a Brigada Anti-Crime (BAC) para combater a crescente onda de violência na cidade da Praia (ilha de Santiago). Conhecidos por actuarem de forma mais firme, ou talvez, violenta, claramente pode-se confirmar que o BAC não trouxe a tão esperada segurança à capital do país. Nos finais de 2009 é operacionalizado o Serviço de Informações da República (SIR) ou Serviços Secretos de Cabo Verde. Os serviços de inteligência e segurança do Estado vieram para lutar contra o crime organizado.


No início de 2010 a Policia Militar regressa às ruas para combater a criminalidade. São patrulhas de jovens muito menos preparados mas com armas mais poderosas do que as da Policia. É só vê-los de noite de capacete especial, colete à prova de bala e metralhadora ao peito. Por estarem tão fortemente armados poderia-se pensar que impõem um respeito ou medo de forma tal que não aconteceriam casos de apedrejamento da viatura militar. Puro engano! 




Com formação em combate militar onde o ‘outro’ é considerado inimigo, agora um dos Agentes de combate à criminalidade é um jovem sem formação específica que carrega uma arma capaz de disparar 350 a 600 tiros por minuto. Numa lógica de que quanto mais armas na rua, melhor a segurança, o próximo passo será colocarmos tanques militares a patrulhar a Praça Nova. Quando um Estado de direito faz uso da sua força militar para combater a criminalidade, qual será o próximo passo se essa criminalidade não diminuir? Decretar Estado de Emergência e recolher obrigatório? Pedir ajuda internacional?


Agora avançou-se para os Ninjas (Embrião da Brigada Anti-Crime no Mindelo) que por enquanto está a ter bons resultados. A pergunta é até quando? O que será que virá após esta Unidade Especial? 




Sinceramente não acredito que aumentar policiais e militares nas ruas irá estancar esta crescente onda de violência. Um combate à violência tenderá a gerar mais violência. Quanto mais violenta as forças de ordem forem com esses jovens de comportamento desviante, mais agressivos se comportarão perante a sociedade. Todos os sinais estão lá. Quem tiver olhos de ver pode analisar esta situação. Atrevo-me a afirmar que a violência exigida da sociedade sobre os adolescentes e jovens marginais é uma das causas do crescente sentimento de insegurança que esses jovens injectam na nossa cidade. Não quero com isso dizer que devemos começar a tratar os marginais com flores e beijinhos. Mas que esta forma de actuar não está resultando, isso não é preciso nem dizer.


Publicada (também) no Jornal NhaTerra Online


10 comentários:

Ralão disse...

Excelente artigo Odair, alias tu sabes que sou teu fã, inclusive já discutimos isto varias vezes.

Tudo que escrevestes aqui e’ verdade, mas pelo menos, e como identificastes o problema, na tua opinião, qual seria uma das soluções para amenizar este problema?

Eu, pelo que tenho vindo a acontecer, nestes sucessivos anos de aumento de violência, por mais que se coloca mais forcas de intervenção ou que aumente as suas capacidades, há uma coisa que nunca fizeram! Não mudaram as leis, ou seja, as nossas forcas policiais estão desprotegidas pelas leis... Muitos policiais que entram nesta profissão com objectivo de combater os pequenos delitos e o crime organizado ostensivamente, deparam com leis que protegem os bandidos...

Não há uma ligação e/ou cooperações entre as forcas policiais e as judiciais, aqui em Cabo Verde, ou pelo menos, em S. Vicente onde vivo, muitas vezes estão de costas voltadas. Assim como há um esforço de os advogados em diminuir as penas ou mesmo manter os bandidos fora da cadeia, deveria haver esse mesmo esforço para aumentar as suas penas e os manter presos para pagarem pelos crimes cometidos.

Há que mudar também a forma como são tratados nas cadeias, parece que estão em hotéis, isso dá-lhes uma percepção de que o crime compensa. Os criminosos deveriam, ao mesmo tempo que cumprem as penas no regime fechado, deveriam também prestar serviços sociais e forcados.

O mais grave a que estamos assistindo, são muitas crianças na criminalidade, dos 15 aos 17..., eles cometem barbaridades e as leis não estão adaptadas a eles, por serem menores de idade, e digo mais, eles sabem desta situação, que ao cometerem os crimes, ficam impunes, e cometem cada vez mais crimes..., e infelizmente vão continuar cometendo mais ainda!!!!!!!

Se não conseguirmos nos próximos 5 ou 10 anos eliminar ou travar esta situação crescente, com certeza teremos grupos de extermínio pagos pelos cidadãos sufocados por esta violência, o mesmo que já aconteceu nos EUA, Brasil, Colômbia, México, etc..., se o estado não garantir a segurança dos cidadãos, quem o fará? Espero que os cidadãos nunca cheguem a este nível. Torço para que nunca cheguemos a este nível de violência, porque pela dimensão do nosso território e pela estreita relação das pessoas, será um caos, ou mesmo um pandemónio.

Mais importante do que criar novas leis duras contra a criminalidade, mais policiais e militares na rua, e’ criar grandes projetos sustentáveis – formação profissional nas mais diversas áreas, pratica de desporto, etc… - de prevenção, para que estes jovens com problemas familiares e sociais críticos, possam se sentir acarinhados, que possam ver uma luz no fundo do túnel e um futuro risonho que todo ser humano merece

daivarela disse...

Obrigado caro Ralão.

As soluções desses problemas deveriam ser apresentadas pelas pessoas que foram nomeados para esses cargos e que por conseguinte, recebem e muito bem por isso. Se eles não apresentam essas soluções, elas tenderão a aparecer por si só. Isso se acreditarmos na teoria do meu amigo Mirú de que ainda não atingimos o pico da crise, logo da insegurança. Segundo ele, as coisas poderão voltar à normalidade depois de atingirem o seu máximo de criminalidade e violência. Nunca antes.

Não obstante, como cidadão devo ter voz activa na sociedade. Mas apresentar soluções requer políticas transversais: passa pelo papel da Comunicação Social na nossa sociedade; passa pela Educação, que pensou que era mais fácil expulsar os adolescentes com comportamentos reprováveis, esquecê-los porque já não seriam um problema, que expulsou as adolescentes com gravidezes precoces pois assim o problema estaria resolvido;

Passa pelas formas de ocupação dos tempos livres das crianças, adolescentes e jovens. Somente praças com banquinhos de cimento e polivalentes serão suficientes?; passa pelo ordenamento do território, evitando a construção de guetos urbanos, comprovadamente incubadoras de criminosos: passa pelo sistema prisional e de reinserção social que claramente não está cumprindo seu papel.
Se meu amigo Mirú estiver certo, então ainda temos muitos casos de violência e de insegurança para presenciar. Mas uma coisa é certa, mais armas na rua, nas mãos de policiais ou militares ou criminosos, não será certamente a solução.

Marcus disse...

gostei, muito meu caro, uma análise bem feita do estado da violencia em Cabo Verde . Ainda nao perceberam que o aumento descontrolado da policia nas ruas nao diminui o fenómeno da criminalidade.

O problema deve ser atacados com políticas socias e formação de recursos qualificados. Policial bem armado sem qualificação nao serve, há que trabalhar com agentes bem capacitados e chefias com formações.

Espero que o nosso governo entenda de uma vez por todas que a solução passa por dotar das forcas policias de tecnicos altamente formados para conseguir trabalhar no sentido de afugentar o mal das nossas cidades. Hoje temos universidades em Cabo Verde e devemos aproveitar os policias licenciados.

Énio Martins disse...

Fantástico...
Essa forma simples do Odair abordar os temas é de uma pessoa humilde e Inteligente, digo isso para entrar no tema em si, muito dos que estao dentro do crime sao pessoas simples e com algum nivel de inteligencia. Uma das formas para combater essa mesma criminalidade é envestir na Educaçao dar mais aportunidades aos joves sem olhar a quem. Força Dai continua te escreve assim.

Caboverdiano disse...

Excelente análise, Odair!

Não estou em Cabo Verde, mas pelo que tenho ouvido através de amigos, e dos noticiários (que nem sempre dizem tudo), e pelo que vi e passei em 2010 quando estive lá numa visita de trabalho, concordo com tudo o que escreveste neste artigo.

Coloquei um link do teu blog no meu. Espero que não te importes. Os leitores que ainda não o cenhecem apreciarão o teu trabalho, de certeza.

Abraço aqui de Rotterdam,

Gilson Silva

daivarela disse...

Ao meu novo amigo Gilson Silva (Caboverdiano, obrigado por colocar um link do meu blog.
Espero que os teus leitores e você gostem do meu blog e regressem sempre

C.C. disse...

Em resumo: as LEIS deviam estar apoiando o trabalho dos polícias, militares e demais agentes de segurança do país para que os criminosos entendam que crime= dura punição!

Ralão disse...

Pura verdade meu amigo, pura verdade,

só queria te dizer que uma coisa não concordo, sabes que estou dentro do sistema de ensino há mais de 7 anos, quando dizes que o sistema esqueceu destes jovens não corresponde a verdade, aliás o sistema/ministério continua aceitando alunos com mais de 3 reprovações num mesmo ano.

São alunos que com todas as ajudas possíveis, psicólogo, bolsa refeição, transporte, material didático, desconto em propinas, continuam não querendo mesmo estudar, desafiam os professores e colegas, desrespeitado-os sempre, praticamente são abandonados pela familía a sua sorte, e os pais e/ou encarregados acham que a escola sozinha tem obrigação de recuperar estes alunos.

Hoje, eu como professor do secundário, e conhecendo o sistema como conheço, pelo contrário, cria muito facilitismo aos alunos, quase eliminando a responsabilidade deles para com a própria vida, o estatuto do aluno criado está sendo mal interpretado por estes, e olha que muitos professores na nossa escola e mesmo alguns membros da direção tentam recuperar e falar com estes alunos, mas não querem mesmo. Eu gostaria que um dia tivesses a oportunidade de trabalhar no ensino secundário como professor para veres que é muito, mas mesmo muito difícil lidar com estes alunos. Te digo que estes alunos se chegarem um dia a universidade com essas atitudes seriam expulsos de certeza, é claro que até lá, espero, que já teriam modelado um pouco os respetivos comportamentos.


Abraço
Ralão

Ralão disse...

Certo meu amigo, eu estou dentro do sistema e vejo o esforço que o sistema faz para trazer estes alunos de volta, dando-lhes várias oportunidades.

Meu amigo, há alguns alunos que são oriundos de familias de boa índole, gente boa mesmo, educadas, etc..., mas são alunos que não querem mesmo nada, não querem se esforçar e acham que na vida tudo tem de ser conseguido da forma mais fácil.

Ralão

Anónimo disse...

a colocaçao de militares nas ruas de mindelo foi por os jovens que de momento estao a servir as f.a. em prigo porque quando sairem de das forças armadas terao proteçao?

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