28 de outubro de 2010

Um Crioulo n'descontra [Capítulo 8]

Hoje pus-me a pensar sobre a salvação da minha alma. Não na salvação em si, mas da falta dela. Pois é, hoje é um daqueles dias. Estava a matutar acerca dos sofrimentos que me aguardam depois que for jogado no mármore ardente do Inferno – esta expressão aprendi numa novela onde havia muito haraam.
Apesar de que não deverei sentir muita diferença em relação ao calor de lá com o de cá (São Vicente). Talvez o calor do Inferno seja menor. Tem um diálogo que acontece nesta cidade todos os verões:

- Moss, oh que calor. – chega sempre alguém dizendo, como se tivesse feito uma grande descoberta. Como se por dizer esta frase o calor fosse diminuir ou que eu passaria a notar a sua existência.

- Não te preocupes – digo logo – no Inferno é um pouco mais fresco e já tens o teu quarto reservado.

- Mas eu não vou para o Inferno.

- Ah isso é que vais. Todas as pessoas da ilha de São Vicente vão para o Inferno. Pelo menos assim pensa alguns badius. Mas é realmente melhor pensar que passarás a eternidade – que nem é tanto tempo assim comparado com o programa radiofônico Mantenha pra Rádio – do que pensar que deixarás de existir depois da morte.

Por medo do Inferno, resolvi elaborar um plano que pelo menos garantisse a salvação do meu filho (ainda não nasceu, apesar das más-línguas que garantem que sou pai de três dois filhos). Tão traumatizado que estou com essas más-línguas, que há dias uma criança aproximou-se de mim e disse:

- Ó senhor!

- Eu não sou teu pai! – fui logo dizendo.

- Mas... – insistiu.

- É que eu nem conheço a tua mãe – gritei, já preparando para apanhar um blok de calçada.

- Mas eu só queria perguntar-lhe as horas.
- O que tu queres sei eu – disse-lhe enquanto afastava-me sempre olhando pra trás para ver se ele não me seguia.

Como estava dizendo, tenho um plano que irá garantir o paraíso ao meu rebento: vou-lhe isolar de toda a informação religiosa. Nada de conceitos como alma, paraíso, purgatório, pecado, Testemunhas de Jeová ou Mórmons ou outras duplas em proseletismo. Nada mesmo. Porque se ele ignorar a existência do Inferno, logo não poderá ser condenado a ele. E quando ele quiser saber das coisas, tipo:

- Como é que o mundo foi criado?

- Nada se cria, nada se perde (tirando as chaves e a virgindade), tudo se transforma. E se o mundo está em transformação, logo ele não foi criado, mas sim, transtornado – responderei.

 

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