22 de agosto de 2010

Nascer, Sofrer e Morrer [Cap. 8]

Sempre que faltava luz na zona ou quando ela ia geral, era gritarias, correrias, quedas e gargalhadas, porque toda a gente queria sair para a rua. Os mais velhos juntavam-se a conversar e nós reuníamos sempre debaixo da árvore em frente a minha casa. Quer dizer, nem sempre saia-mos à rua, às vezes, quando faltava luz já tarde da noite, eu e o Nunin ficávamos juntinhos, o mais perto possível da vela ou da lamparina, por causa do escuro e das coisas que via-mos quando a luz balouçava na parede formando bruxas e outros personagens da nossa imaginação, que nos deixavam cheios de medo.
Não sei porquê, mas só quando faltava luz é que se lembravam às pessoas as histórias mais medonhas e arrepiantes… Havia uma senhora, nhã Madalena, senhora velha, nossa vizinha desde que veio de Santo Antão – Janela – que contava histórias, que ela dizia ter presenciado a todas, do princípio ao fim. Histórias essas, todas de conteúdo espiritistas, onde não faltava bruxas, feiticeiras, gongons, canelinhas, entre outros intervenientes. Estou-me a lembrar duma história que ela contou um dia e que me impressionou muito.
Era assim: “havia um senhor que era padrinho de sua mãe e esse senhor tinham um “dom”. Ele conseguia saber as coisas antes de elas sucederem, tanto que quando eles estavam longe de casa, nas meradas a cultivar, e apesar dum sol tórrido, ele predizeu mau tempo com chuva e avisou aos outros companheiros, só que ninguém lhe deu ouvidos e tendo tomado seus filhos pela mão e desceu com eles rumo à casa. E aconteceu que choveu, chuva forte com mau tempo e onde eles estavam não lhes era possível descerem directamente, por causa do perigo e por isso foram obrigados a fazerem um volta enorme para chegarem a casa. Só após muito tempo é que começaram a acreditar nele e sempre que o viam a descer a ladeira com os filhos, arrumavam logo os trapos e seguiam-no. E mais – dizia ela com uma cara séria – o meu padrinho, o falecido Benjamim, que Deus tenha a sua alma, chegou mesmo a adivinhar o ano, dia, e a hora da própria morte. E quando chegou a sua hora, despediu-se de todos, deixou muitos conselhos aos filhos, deitou-se e morreu”.
Ninguém dizia nada para contraria nhã Madalena – vá-se lá saber como é que ela sabia tantas histórias deste tipo.


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