7 de agosto de 2014

Problemas de credibilidade do jornalista-blogueiro em Cabo Verde


Esta artigo teve início por causa da inquietação do investigador sobre a problemática da credibilidade dos jornalistas residentes em Cabo Verde que utilizam ou utilizaram a ferramenta dos blogues. Procurou-se ao longo do texto demonstrar, conhecer e entender os blogues e sua relação com o jornalismo e, consequentemente, com a credibilidade do jornalista. 

Apesar da maioria dos blogues se terem iniciado como simples diários pessoais, pode-se constatar que sua função é mais abrangente. Pela sua flexibilidade e mutação, não é possível uma classificação rigorosa dessa produção multimédia que foi e é utilizado por muitos jornalistas residentes em Cabo Verde para divulgar informações, notícias, análises e opiniões. Um dos principais motivos para a criação dos blogues é a expressão individual e a partilha de ideias. Isto demonstra que estes jornalistas não estão a usar os blogues como uma extensão dos seus trabalhos (para publicar outras notícias) mas sim a expressarem suas opiniões sobre vários assuntos. Entretanto, se a credibilidade do jornalista é o bem essencial para a materialização do seu fazer, a questão que se coloca é para quem o peso de encontrar a veracidade e a credibilidade do jornalista/blogueiro na Internet foi passado? Uma das respostas é que foi passado para o leitor que se quer crítico e participativo nesta nova Web 2.0 da qual os blogues fazem parte. 

Nota-se que os comentários dos leitores quase que abriram uma terceira via neste novo ambiente de interacção entre o receptor e sua audiência. Mas, esta terceira via trouxe novas questões porque o que antes era feito de forma unidimensional hoje acontece em rede e o receptor pode interagir com o jornalista/blogueiro, o que raramente acontece nos medias tradicionais cabo-verdianos. Esta interacção na era da “informação ao segundo” tanto pode ser positiva – com a partilha do conhecimento, a informação em tempo útil - como negativa – com a calúnia, difamação e acusações sem provas - dependendo do teor dos artigos publicados. Conforme os casos, pode afectar positiva ou negativamente a credibilidade do blogueiro, mas já não é tão linear que faça o mesmo com a credibilidade do jornalista. Existem várias leis em Cabo Verde para proteger a liberdade de expressão do jornalista no seu blogue mas também há leis para proteger o cidadão contra a calúnia e difamação, e também deverá existir a Agência de Regulação da Comunicação para fazer a fiscalização do sector da comunicação. 

Esta nova ferramenta coloca ao jornalista/blogueiro uma questão interessante que merece uma análise mais profunda num outro estudo: os blogues, com uma vigilância atenta, são hoje entendidos como os “watchdogs” (vigias) do jornalismo, entretanto, esses mesmos blogues são mantidos por jornalistas. Ou seja, este profissional está a influenciar o processo comunicacional nos dois sentidos. Significa isso que quando o jornalista opina no seu blogue acerca de um tema que está a ser tratado na imprensa tradicional estará a fazer o papel de jogador e árbitro. Entretanto, se os blogues vigiam o quarto poder, a questão agora é saber quem vigia este quinto poder, tendo em conta que, como foi demonstrado neste trabalho, os blogues estão fora da alçada da Agência de Regulação da Comunicação ou do Código Deontológico dos Jornalistas Cabo-verdianos. Entretanto, essa inexistência de regulação é apontada como uma das razões que tornam os blogues tão atractivos para os seus utilizadores. Por isso que em “A ética comunicacional na Internet”, o estudioso Dênis de Moraes (2000, p.13), afirma que a ausência de ditames governamentais representa a pedra-de-toque para assegurar à Internet condições de consolidar-se como canal de informações e ideias, em moldes interactivos e descentralizados. “O campo de batalha delimita-se. De um lado, elites obstinadas em estender à Web, sob variados pretextos, a gama de comandos que exercem na quotidianidade. De outro, as forças sociais transformadoras, que anseiam projectar o ciberespaço como ambiente propício a uma ética de reciprocidades entre os sujeitos comunicantes”. 

Num estudo que realizei em 2012 intitulado "Problemas de Credibilidade do Jornalista/Blogueiro" , consegui identificar quinze jornalistas residentes em Cabo Verde que mantêm ou mantiveram um blogue durante o exercício das suas funções e que viram nesta ferramenta uma forma de produzirem livremente conteúdos sem a chancela de uma instituição. Um número que pode ser considerado substancial devido à pequenez do país e do reduzido número destes profissionais a operar no arquipélago. As próprias características da ferramenta (acesso imediato aos leitores; altamente interactivo; não existe um prazo definido ou cronograma de publicação; sem um tamanho fixo dos artigos; baseia-se nos comentários; mais casual no tom; e revela-se uma conversa contínua) podem explicar esta atracção dos jornalistas aos blogues. 

O certo é que esta casualidade no tom da conversa e esta interactividade também trouxeram questões como imparcialidade e isenção para a liberdade de expressão do jornalista que usa um blogue. O citado estudo mostra que esta liberdade de expressão do jornalista no seu blogue é inviolável e garantida pela Constituição da República e pela Lei da Comunicação Social, pelo que, nada impede o jornalista/blogueiro de se expressar, desde que não esqueça as suas responsabilidades sociais. Verificou-se que no país os blogues estão a ganhar um estímulo positivo dos medias tradicionais que usam-nos até mesmo como fonte de informações nas notícias publicadas. 

Usados para apresentar posições pessoais perante os acontecimentos, os blogues trouxeram a possibilidade do jornalista lidar com a crítica e o público. Já não existe aquela distância e o tratamento paternalista tradicional do jornalismo. Agora, com os comentários que permitem não só o elogio e sugestões, mas também queixas e correcções, os blogues amplificaram as vozes dos seus leitores que exigem ainda mais do jornalista/blogueiro. É através dos comentários que os blogueiros poderão medir o (feedback) retorno de seus públicos, preparar-se melhor para enfrentar suas demandas e exigências, e permitir-se enxergar aliados nos leitores. Contudo, acredita-se que a credibilidade dos jornalistas possa ser reforçada ou fragilizada de acordo com comentários que os internautas deixem após ler os artigos do seu blogue. 

Entretanto, os blogues configuram-se mais do que um simples complemento ao trabalho do jornalista. No estudo acima citado, efectuei o casestudy do “Kriol Rádio”, mantido pelo jornalista Carlos Santos, e comprovou-se que o autor usa-o como forma de jornalismo alternativo, no sentido de apresentar notícias e/ou entrevistas que não aparecem nos medias tradicionais. É esta opção que não reúne consenso porque se por um lado pode acrescentar informações que não cabem no órgão de comunicação que presta serviço, por outro questiona-se se será ético usar informações recolhidas durante a actividade jornalística com outra finalidade a não ser a de servir o meio de comunicação para qual se trabalha. Para provar esta dualidade, refira-se o caso do jornalista Emanuel Bento, do Diário de Notícias da Madeira, que foi despedido, em 2005, por aquilo que escreveu no seu blogue, “Esquina do Mundo”.

O jornalista deve ser uma pessoa que inspira confiança quando reporta os factos. Entretanto, como jornalista o “quem és tu” não é importante. O que importa é: como fizeste e porquê? A questão agora é que nos blogues o “quem” mete-se no caminho e pode ser usado para desacreditar o repórter porque este passa da posição de “exterior” para “interior” e a forma como um blogueiro reporta os factos é diferente de um jornalista. E, se bem que se reconheça que a “transparência” é fundamental, igualmente se reconhece que ela não é suficiente, e que a credibilidade depende também da “relação de confiança” que se estabelece entre a organização mediática ou os blogues e os seus destinatários. 

Embora seja ainda muito cedo para perceber que influências têm um blogue na credibilidade de um jornalista, há todo um conjunto de posturas dentro do próprio jornalismo que importa assinalar: a defesa ou a percepção da oportunidade. A primeira está relacionada com aqueles que criticam a entrada destes profissionais nesta nova plataforma e alegam que isto fragiliza o jornalismo e o exercício da actividade e que por isso deveria ser regularizada. 

A segunda postura relaciona-se com aqueles que percebem no blogue uma oportunidade de flexibilizar o jornalismo e de questionamento aberto e que acreditam que disto resultam vantagens na interacção entre jornalismo e os novos formatos. É também entendida como uma oportunidade do jornalista actualizar sua linguagem e ter nova atitude perante a sociedade. 

O que parece claro é que a blogosfera afirma-se como um local de ruptura onde há espaço para todo tipo de opiniões e que estas podem influenciar na credibilidade do jornalista que mantém um espaço virtual onde interage com uma audiência. 


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