19 de maio de 2014

A Lusofonia e o jazz ao ritmo da crioulidade


David Leite - diplomata
Com alguns dias de atraso, comemorou-se na UNESCO, no dia 14 último, o Dia da Língua Portuguesa, como todos os anos acontece. Como tema para este ano, a Delegação Permanente de Cabo Verde propôs aos seus parceiros do Grupo CPLP/UNESCO que se fizesse uma "ponte" entre o Dia da Língua Portuguesa e o Dia Internacional do Jazz.

Como? Chamando para o evento artistas lusófonos com ritmos aparentados ao jazz.

Porquê? Não faltaram argumentos para fundamentar a nossa proposta, a começar pela proximidade cronológica entre essas duas comemorações: o Dia Internacional do Jazz a 30 de abril, o Dia da Língua Portuguesa a 5 de maio - o primeiro, por proclamação da Unesco em 2012, o segundo por convenção dos Chefes de Estado e de Governo dos países da CPLP.

A natureza universalista do Dia do Jazz está bem patente nas festividades planetárias preconizadas pela Unesco, cuja sede serviu de palco, em 2012, para a primeira edição comemorativa. Em 2013 as comemorações irradiaram de Istambul, na Turquia, para o mundo inteiro. Quando, nos primórdios do século XX, os afro-americanos, criaram o jazz, não pensaram que a sua criação haveria de "subjugar" muitos daqueles que os subjugaram! O que não foram inventar esses descendentes de escravos levados de África!

Quando ao português, perdeu o seu carácter hegemónico para ser língua de descolonização, ligando povos e nações em cinco continentes. A história tem dessas…

Fazer interagir o Dia da Língua Portuguesa com o Dia Internacional do Jazz, é celebrar a universalidade de um idioma e de uma música que transcendem fronteiras e culturas. A lusofonia e o jazz ao som da crioulidade, porque não? Vivemos num mundo cada dia mais crioulo, onde os (pre)conceitos de raça se vão perdendo. O futuro da humanidade é feito da crioula cosmovisão que ela hoje veicula.

A nossa proposta fundamentou-se ainda numa carta da Directora Geral da Unesco, Irina Bokova, instando todos os países a se associarem às comemorações do Dia Internacional do Jazz, este ano com o epicentro em Osaka.

Outro argumento : com todos os olhares virados para o Japão, as comunidades lusófonas em Paris estariam a dar um valioso contributo para que o Dia Internacional do Jazz não passasse despercebido na própria casa-mãe da Unesco… onde foi instituído!

Brandidos estes argumentos, foi aprovada a nossa proposta. É então que entra na história – e mais tarde em cena – a banda "Criolidade", sem que os nossos colegas lusófonos hajam proposto algum artista dos respectivos países. O mentor da banda, Vamar Martins, filho do pai que todos sabemos, apresentou-se com os seus rapazes, jovens voluntaristas e talentosos, e no dia 14 de maio la estava a banda na Unesco em ordem de combate, Ide e Tiago Silva a cantar, uma voz feminina para a ocasião – Naldina Fortes. Os guitarristas Jean-Pierre e Dany Dulac juntaram-se à aventura, e ao público foi servido um agradável menu de música das ilhas "jazzificada" ao gosto do freguês, sem perder da sua essência.

O público, diverso e curioso, aplaudiu com entusiasmo mais esta demonstração da crioulidade interactiva.

Mantenhas da terra-longe, 16 de maio 2014
David Leite


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