21 de setembro de 2012

AmarGurar [A minha primeira vez]

Este texto é a segunda parte de um pequeno conto. Para ver a primeira parte click aqui

[A minha primeira vez] - Foi numa tarde solarenga que dei comigo com mais certeza. Após longa discussão com a minha pessoa, senti meu corpo cansado, muito mais cansado. Acho que tinha os olhos injectados de sangue porque não me conseguia contemplar sem um espasmo de espanto. Eu até que tentei, mas não podia compreender o que se passava comigo. Era uma pressa enorme sem sentido, por um rumo sem caminho, sem volta física. Meus olhos injectados de lágrimas, não pela saudade do que havia de ficar, mas pela covardia que desaparecera. Será que eu queria voltar a ter medo? A razão trabalhava de forma minuciosa como antes nunca houvera feito. Pensei em perder os sentidos, mas meu cérebro continuava extremamente alerta. Não sentia o chão. 

… um único sentimento, uma vontade comum de fazer aquilo em que se acredita… -a Voz voltou outra vez. 

Acho que Ela é a minha única companheira para além de mim. Talvez hei-de me acostumar. Senti o chão nos joelhos e de braços abertos ouvi a Voz. Desta vez era um som que, ao contrário dos outros, acalmava. O martelar tornou-se uma carícia e nesse momento eu alcancei: 

- Poucos serão aqueles que atingirão o estado Presente após o futuro que nos é dado a escolher, um Presente sem memórias nem planos, somente ser, estar na forma inacabada, a um nível da perfeição. Um único sentimento, uma vontade comum de fazer aquilo em que se acredita, pedra e pau, sorriso a olhar, todos juntos ao redor de si próprio, cântico ao Presente após esse futuro do amanhã passado. Seguirão através do futuro do passado ao Presente simples e por completo a mor a mar ao céu e a terra-criança farta feliz mãe-bebé, água pura dos teus vales profundo e porosos crescer flor fruto Presente. 

Deseja o alcance ao Presente e viverás, porque o futuro só é uma transição e o passado não existe, sedentariza-te e serás passado pois o movimento é incessante e sem pressas porque é uma certeza. Serás tu a tua presa e o teu predador, o juiz e o próprio réu, a chave que te abrirá a porta a ti pertence, és o segredo de ti próprio! Não existe coveiro, cada gesto um buraco e a conduta o carcereiro, a esperança morreu antes de nasceres.  
Chegou a minha hora! 


[Alegria] - Ter um objectivo! Algo impossível até agora. Acho que eu vivia num pesadelo mas em que eu sentia que havia alguém a tentar acordar-me incessantemente e infrutiferamente. Ouvia o chamado mas era como se ouvisse e não ouvisse ao mesmo tempo na confusão do silêncio. Sobrevivi para a alegria da Voz e tristeza dos Outros. É um passo de cada vez mais ainda estou a gatinhar e a arfar. O pulmão quer ar, desesperadamente entram golfadas com sabor a lágrimas e inalo vida. Saio à rua com o chão nos joelhos. Agradeço a terra batida e fétida e a puta que passa. Agradeço o sol que me queima as lágrimas em forma de olhos esbugalhados e raiados de vermelho. Agradeço porque agora sou Vida. 

Sigo em frente e procuro encontrar alegria na criança de barriga inchada de fome, na velha desdentada e rica de filhos, nas coisas pequenas a que me importo. Procuro e por vezes encontro outros com histórias menores e piores. Desisti de desistir...

Este texto é a segunda parte de um pequeno conto. Para ver a primeira parte click aqui

2 comentários:

Criola di terra disse...

A primeira vez que li este texto também como o Zito achei-o quilométrico...deve ter sido falta de tempo. Mas hoje, com mais calma reli-o e achei-o interessante. Ainda não percebi toda a essência do texto, mas sei onde encontrá-lo sempre que o quiser reler e percebe-lo mais um poquinho.
ABC

dai varela disse...

Podes voltar e ler que fico feliz de saber que estás por cá.
ABC

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