30 de agosto de 2012

Paulino Vieira... simplesmente o mestre

Paulino Vieira num momento de partilha com seus amigos
no Auditório "Jotamont" (Mindelo 25/08/2012)
Paulino Vieira, uma artista de excentricidades e ao mesmo tempo de uma serenidade imensa, capaz de sentar um público em silêncio, luzes apagadas num palco vazio, e por cerca de vinte minutos falar sobre as vivências musicais, instrumentos e técnicas de execução. É Paulino Vieira. Um artista que tem cantado e tocado Cabo Verde, defensor acérrimo do tradicionalismo na música crioula, e que renova seus fãs de forma serena, ano após ano.

Fica aqui o texto do mestre:

“O Violeiro”

A música do nordeste do Brasil, tal como outros folclores, já constituía, para alem dos nossos ritmos tradicionais, um dos pratos típicos da nossa região, exercendo grande força nas nossas mornas e coladeiras para alem de outras sensibilidades que reflectiam a nossa vivência (a vivência do povo Cabo-verdiano).
Paulino Vieira, simplesmente o mestre
Utilizada no dia-a-dia para animar o nosso quotidiano, essa música tal como outras era tocada nos bailes e festas populares, por várias vezes ensaiada na nossa casa onde as pessoas se reuniam habitualmente numa de aprendizagem, lembrando-me perfeitamente da imagem do meu pai que com os seus ensinamentos pregava essa doutrina entre outro, fortificando assim, com a sua filosofia, as pessoas interessadas, para além dos jovens, que acabavam por ser (esses) os nossos animadores atractivos da nossa aldeia.
1958...59... talvez!
Esta convivência era existente em todos os cantos do nosso arquipélago, hoje Pais, com pessoas semelhantes que, com espírito de sabedoria vinham divulgando a mesma filosofia.

Apesar de ter eu na altura três ou quatro anos, não me passaram despercebidos os ritmos vindos da humilde viola de dez cordas que com toda a meiguice unia o violão ao cavaquinho, deixando na música uma certa suavidade aromática, numa harmonia bem mais melodiosa dada a afinação contrastada do instrumento que acabava por fazer nada mais nada menos que o papel dos nossos sintetizadores de hoje, fazendo cama de apoio.
Quem escolhia essa função só poderia ser uma pessoa humilde que estava-se marimbando completamente para o facto de querer dar nas vistas.
Esse era o homem são. “O violeiro”.
O Homem que tocava viola sem querer incomodar ninguém, e que quase só era merecedor de uma atenção isso aos olhos da multidão, quando o chefe da orquestra neste caso “O Violinista”, mais conhecido por rabequeiro, mandava parar o grupo, para chamar a atenção para o melhoramento das coisas. Dai os acertos: a afinação, ... a harmonia, … o ritmo,...enfim.

Artistas e público em homenagem ao mestre
Ao escutar a afinação deste instrumento, qualquer mais insensível se apaziguava, dada a meiguice da melodia transmitida pelas cordas duplas e contrastadas daquele que era conhecido como”Instrumento Vagabundo”. Mas se tocássemos naquele instrumento da mesma forma como se toca o violão (dedilhado), poderíamos inconscientemente encontrar melodias muito interessante! 

E era o que se ouvia quando uma vez ou outra o violeiro já agora, vendo-se livre das suas responsabilidades de acompanhador, dedilhava a sua viola que parecia trazer toda a solidão de um cavalheiro viajante, acabando por completar o seu momento de lazer com o enrolar de um relaxante cigarro. A imagem do violeiro vagabundo tinha a ver com a de um pistoleiro que em vez de uma pistola trazia uma guitarra. Era a única diferença. (pronto a dormir em qualquer sitio).

Mas faltava-me uma corda, neste caso uma corda dupla, para completar a minha viola, pois na realidade o que eu queria, já nessa altura, era um violão mais a braguesa reunidos num só instrumento, podendo uma hora ou outra encontrar o som da guitarra portuguesa mais a charanga, o triplo, o quatro, o som do banjo, o bandolim, tudo num só contexto. E para resolver esta questão nada mais nada menos que uma guitarra de doze cordas, podendo eu tocar a minha musica camponesa. 


UMA GUITARRA DE DOZE CORDAS!

Tocada com uma palheta neste caso assegurada pelo dedo polegar e pelo indicador, trazendo já a melodia completa mais o seu acompanhamento, isso com a técnica da guitarra eléctrica, ao mesmo tempo que os outros três dedos neste caso o médio, o anelar e o mínimo rufam a guitarra fazendo um trabalho diferente, que em conjunção com os dois dedos da frente “relembrando” o indicador e o polegar, acabam por completar um trabalho que deixa a impressão de serem mais guitarras tocando, que com a ajuda do pulso que tem que estar muito bem liberto, vamos buscar os ritmos e os rufos da palheta que, juntando-se ao trabalho dos dedos, acabam por trazer um efeito interessante.

O secar das cordas baseia-se no sistema dos abafadores do piano que neste caso fazem os bordos da palma da mão, que em contacto com o cavalete vão abafando ou libertando as cordas, de acordo com o desejado. Daí, a divisão de uma só mão que se transforma em varias partículas comandadas pela inspiração.



MÃO DIREITA PARA QUEM NÃO É CANHOTO.

A mão esquerda também tem as suas funções bastante interessantes. Para além de trazer sonoridades sem a ajuda da mão direita, também serve de abafador, que independentemente da movimentação (que pode bem deixar uma pessoa entretida), acaba ainda por trazer posições muito caricatas.
Essa conjunção de coisas, a par do esforço do instrumentista na sua luta para sacar o máximo rendimento, pode bem proporcionar-nos um bom espectáculo, caso nos posicionarmos num sítio que nos permita abranger todos os acontecimentos. 
Aí está o segredo!
Paulino Vieira

Paulino Vieira e Daivarela num abraço de gerações

2 comentários:

Ás de Espadas disse...

É pena não editar mais trabalhos discográficos. A música cabo-verdiana sente a sua falta.

Anónimo disse...

Tive a sorte de estar com ele no Porto Grande Hotel, ouvi-lhe falar durante largo tempo, sem se preocupar com um golpe de água que se quer lembraram de lhe servir e o conceito que fiquei do Paulino é totalmente diferente. Além de ser o que ele é como artista e músico, ele é aquela voz divina que deve ser escutada por qualquer principiante que queira aventurar no campo cultural,que queira ter um identidade própria apoiada numa base tradicional sólida, mas também uma inspiração de humildade, dedicação e de gratidão para consigo mesmo e sem espirito de sacrificio.
Para os que nele inspiram, deixo também uma palavra de admiração e que continuem para que a nossa Morna não seja uma «TCHOLDA» mas simplesmente o nosso BI made in Cabo Verde, numa praça, num bar do beco, por um fusco bem ou mal gravatod ou por uma beleza crioula atrás de um microfone ao solo de uns pares de cordas, como gosto, crua, assim soa bem aos ouvidos e assim saberemos quem são nossas vozes de facto...

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