5 de abril de 2012

[Desafio Criativo Nº2] - A vida que a ninguém pertence

Não restavam mais que três palmos… mais que três passos… 

Numa manhã de Dezembro deparei-me com aquela notícia estranha, tão inesperada quanto triste. Tinha perdido o meu filho na sequência daquela dor enlouquecida. Tivera início de repente sem que nada tivesse acontecido que justificasse aquela perda tão estranha. A partir daquele momento perdera o chão por completo. Já tinha dentro de mim aquela sensação de carregar minha criança e aquela esperança certeira de vir a carrega-la no colo, fazê-la sorrir, ninar seu sono… Educar! Não “necessitava” de mais nenhuma decepção para os próximos anos que viriam a seguir na vida. 

Eram dez da noite desse mesmo dia quando chegou Bernardo e mesmo recebendo a triste notícia não desistira da decisão que tomara anteriormente. Pôs término ao namoro sem ao menos levar em conta toda a dor que sentia naquele momento. Não sentia mais aquela dor cruel que dilacerava pela tristeza de ter perdido a vida que desejava mas uma dor amarga que sabia a fel no centro do céu-da-boca. Não quisera escutar nem mais uma palavra e a revolta povoou de certa forma minhas entranhas que parecia um ser desconhecido para a minha própria pessoa. Sentia crescer dentro de mim um sentimento que jamais tinha funcionado no meu âmago. Parecia que continha uma nova peça, nas peças que trazia comigo desde sempre. 

A partir daquele momento passei a ter a triste ideia de “vingar” o filho que nasceu, a vida que fora interrompida e tinha descoberto o alvo da minha vingança. O próprio pai dessa vida. Dediquei horas e dias da minha vida tentando encontrar uma forma de fazê-lo sofrer, de fazê-lo antever toda a treva que corroía meus pensamentos que alimentar-me-ia para todo o resto da minha respiração. 

Naquela tarde saí à rua querendo encontrar sua figura num lugar habitual. Já tinha regado aquele ódio de tal forma que naquele momento estava apta a colocar em prática todo o plano de vingança que tinha delineado com requinte. Mas, o alvo passou a ser outro. Parecia um ódio maior, uma vontade maior de sugar toda aquela vida… e a vida que vinha dentro daquela pessoa parecia ter roubado a vida que carregava eu, dias atrás. Naquele preciso momento passei a ter novo alvo para destruir… aquela criança pulsando de coração dentro daquele ventre tirava minha vida aos poucos, sugava todo o sangue que corria-me nas veias, secava todas as flores que um dia brotaram em mim. 

…não restavam mais que três palmos… mais que três passos… já nessa altura conseguia sentir sua respiração pulsando ao longe, talvez pela certeza daquilo que estaria por acontecer… 

Não poderia deixar que aquela vida superar a vida que antes nascera em mim. Podia sentir seu cheiro de tão perto que estava. Tinha passado dias a investigar sobre tudo até saber que aquela seria a melhor hora para que tudo acontecesse… quando sentia suas chaves a mexer senti que seria esse o meu momento triunfal. Entrei como se de u m furação se tratasse. Já não respirava. Tinha esquecido de como fazê-lo. Ela esqueceu-se de ter cor… parecia alguém transparente, aquela mulher que trazia dentro de si a vida que me roubara. Não tinha pressas em querer aquela vida. Queria deliciar-me com aquele momento, sorver cada gota daquela tomada de posse duma vida que a mim não pertencia mas queria bem longe dali, fora do mundo, sem olhos para ver, sem boca para sorrir, sem sentidos para tocar… sem mundo, sem vida, sem respiração. 

Para começar não poderia deixar de esbofetear aquela que roubara tudo aquilo que era, tudo aquilo que seria meu, toda a vida que a mim pertencia. Fiz com que se sentasse para que escutasse toda a revolta, toda a amargura que aquela situação toda criara. Aquela casa dava-me arrepios e maior sede de acabar com toda a respiração que ali pulsava. Ela estava ofegante e parecia que morreria antes que eu desferisse aqueles golpes. Não contentar-me-ia com uma morte qualquer… era preciso marcar aquilo tudo com o sangue com que ela regava a vida que eu queria ter. Comecei por desferir golpes com minha pequena navalha em sua face… uma, duas, cinco… talvez centenas… e não parei pelo rosto! Tive prazer em esfaquear sua pele toda para que nenhum milímetro restasse sem marca minha. 

Mas batia-lhe por toda a raiva, por todo o ódio que em mim pulsava e fiz com ela não pronunciasse um único grito com toda a pressão psicológica que fiz. Queria uma morte lenta, silenciosa, assim como a do meu bebé que não proferiu um único som, que não teve um queixume, uma lágrima e não queria que ela demonstrasse qualquer sentimento, que permanecesse fria… queria vê-la… queria que o sofrimento estivesse estampado no rosto e não na sua voz que não apetecia-me escutar. Levei-a para a cozinha e comecei a queimar a mesma navalha com que a feria, e a queimar sua pele ensanguentada. Era uma mistura de dores que a mim deliciavam. E batia-lhe para que doesse bem mais. Depois levei-a de volta para a sala onde com a mesma navalha abri-lhe o ventre para encontrar lá dentro aquela vida que pertencia ao meu filho e destruir seu respirar para que nada mais restasse, para que nada mais respirasse… 

Hoje escrevo esse desabafo daqui… vendo a vida que passa enquanto aqui coroo a existência tentando descobrir o que será da vida depois dessa etapa… pensando se haverá mais uma etapa… 



OBS: este texto é da autoria de Anete Carvalho e faz parte do Concurso de Escrita Criativa


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