3 de fevereiro de 2012

“As causas da desorientação da juventude continuam” , alerta Frei Silvino

Frei Silvino Benetti é um dos grandes impulsionadores dos “acordos de paz” entre os grupos de jovens rivais em São Vicente. Apesar dos ganhos conseguidos e da aparente acalmia dos “gangs”, considera que “as causas que criaram a desorientação na juventude ainda continuam”. E, por conseguinte, é preciso uma intervenção mais próxima aos jovens. 

Frei Silvino diz que as causas
que criaram a desorientação
na juventude ainda continuam 
Responsável pelo Centro de Protagonismo Juvenil da Ribeira de Craquinha, Frei Silvino acredita que o trabalho da sua instituição está direccionado aos jovens da comunidade e isto é uma das razões que os levaram a ser aceites por eles. 

“Temos a consciência de que não conseguimos combater por completo estas causas”, afirma este activista social que já tem mais de vinte anos no trabalho social em São Vicente. “O problema é que há uma valorização do dinheiro em detrimento do ser humano e o fosso entre os mais ricos e os mais pobres está a aumentar em Cabo Verde devido às nossas políticas”. 

Esses são, por assim dizer, alguns dos factores que têm contribuído para a actual instabilidade, aliada à inexistência do conceito de solidariedade e ao “sentimento de abandono” que esses jovens sentem. “Mas a causa maior para esta delinquência juvenil está na ignorância e na pobreza desses jovens. A marginalização e o apego ao dinheiro tem feito que jovens pertencentes à classe média também façam parte dos grupos”, alerta Frei Silvino. 

Uma das melhores respostas para este fenómeno, defende, é continuar a experiência de Centros de Agregação Juvenil onde os jovens possam tornar-se protagonistas das acções nas suas comunidades. “Agora, isso não funciona se for feito por alguém dentro de um gabinete ou por pessoas que procuram prestígio político e social”. 


Protagonismo Juvenil 

O Centro arrancou nos finais de 2007 e neste momento tem cerca de 100 jovens a receber explicações e uma Orquestra Infantil com 50 crianças. “Isto tem criado muita auto-estima numa comunidade que era visto como um lugar onde não podia-se circular e este trabalho com a juventude local é uma mensagem forte para São Vicente”, afirma Frei Silvino que acredita nos valores humanos nas periferias marginalizadas. 

Centro de Protagonismo Juvenil
da Ribeira de Craquinha - São Vicente
 
Antes de ser pintado o edifício estava cheio de escritos nas paredes, mas não eram pornografias ou ameaças a políticos ou a outra pessoa. “Só escreviam seus nomes ou os nomes dos grupos”, explica Frei Silvino para quem isso demonstra que estão à procura de uma identidade e de uma forma de mostrar que existem. 

“Quando se fala de futuro e desenvolvimento do país, eles sentem-se fora disso e vão reconstruir na própria ‘gang’ outras leis e outra forma de ver as coisas. Se para nós assaltar e dar ‘caçubody’ é mau, para eles é bom porque, quando os marginalizamos, eles criam uma ideia errada sobre nós que os impede de querer saber como alguém ganha o seu pão antes de o roubar”. 


"É preciso criar boas referências" 

Frei Silvino Benetti recomenda que se crie boas referências para os jovens, “que pode ser o pai, professor ou outro adulto responsável”, porque eles sentem o peso desta falta mesmo que inconscientemente. “Por causa disto, alguns podem desorientar e começam a criam um outro sentido da vida. É nesta fase que os ‘gangs’, com seus amigos e inimigos, leis e unidades começam a fazer sentido para eles. Tudo aquilo que não conseguem ter na sociedade por estarem marginalizados são reconstruídos dentro dos seus grupos e definem objectivos contra os inimigos que podem ser até inimigos inventados”, explica e recomenda que se invista mais nos Centros de Protagonismo Juvenil para que o trabalho seja feita na e com a comunidade local.


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