9 de setembro de 2011

João Branco: Mindelact renova-se pela sua própria existência

João Branco
O coordenador geral do Mindelact - Festival Internacional de Teatro, João Branco, revela os segredos do sucesso de um dos maiores eventos teatrais da África e que já vai na sua 17ª edição. A capacidade de se recriar, digna da natureza do teatro, permitiu que o Mindelact torna-se numa escola dos agentes teatrais e do público que hoje é muito mais exigente. João Branco deixa em aberto a possibilidade do festival estender-se para outras ilhas e termina: “o Mindelact continuará de pedra e cal se eu sair”.


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O Festival Mindelact já vai na sua 17ª edição. O que esta nos traz de especial?

Em primeiro lugar e em especial é o facto de termos mais um Mindelact. Porque cada ano que se consegue manter um festival com estas características é uma grande vitória para nós. Esta é a única grande actividade cultural com dimensão internacional no país que não é organizada por uma empresa ou pelo Estado, mas sim por pessoas que estão simplesmente ligadas a uma associação. Para nós o destaque é continuarmos a resistir e a realizar o Mindelact de forma contínua e sem interrupções desde 1995 até esta data. Destaco também para as cinco co-produções em que o festival produz os espectáculos que estreiam no evento e o Ciclo Internacional de Contadores de Estórias.

Porquê esta extensão do Mindelact para a cidade da Praia?

Acreditamos que há um investimento muito grande para trazer determinadas companhias e que é preciso aproveitar a presença destas pessoas em Cabo Verde para se apresentarem noutros pontos do país. Conseguimos esta extensão porque o Centro Cultural Português/Instituto Camões decidiu abraçar este projecto de receber os espectáculos na capital e dar a oportunidade às pessoas que vivem na Praia de apreciarem teatro. Por outro lado, hoje em dia é desejável que se aproveite ao máximo a deslocação das companhias teatrais porque é muito complicado fazê-los chegarem ao país com todas as despesas próprias e disponibilidade de agenda e no fim ficarem somente por uma ilha.

Esta extensão foi uma aposta ganha?

Obviamente que sim ou não a teríamos repetido este ano.

Pretendem alargar o Mindelact para outras ilhas?

Tudo depende daquilo que chamamos de gestão de oportunidades: se um Município, instituição ou uma empresa mostrar disponibilidade em suportar os custos da realização dos espectáculos localmente, nós não temos problemas nenhuns com isso. Mas a iniciativa tem que partir desses locais e não do Mindelact.

O Mindelact é um festival elitista?

Não, porque um dos elementos fundamentais na escolha dos grupos e das peças a serem apresentadas é haver teatro para todos os gostos. Na programação deste ano encontra-se desde uma tragédia clássica, até uma comédia gestual ou um espectáculo que mistura todas as chamadas “artes do palco”, passando por um monólogo. Enfim, a nossa preocupação é que o público tenha uma espécie de caleidoscópio daquilo que se está a fazer um pouco por todo mundo. Quem estima o teatro vai certamente gostar de todos os espectáculos, porque no fundo só há o bom e o mau teatro. Nada mais.

Nesta edição temos um Centro Cultural do Mindelo de cara lavada…

Realmente a sala está muito mais agradável e acolhedora, mas também com alguns problemas técnicos. Por exemplo, a teia técnica que suporta as luzes sobre o palco foi modificada e isto dificulta mais o trabalho da iluminação das cenas. Recomendamos que ela seja revista numa próxima oportunidade porque não é a ideal para a execução de um bom desenho de luz para o teatro e para a dança.

Sentiram um maior engajamento do Ministério da Cultura no Mindelact agora com Mário Lúcio a tutelar a pasta?

Sem dúvida. Este governante já tinha dito uma vez – antes de ser ministro – que o Mindelact deveria ser considerado pelo Estado de Cabo Verde como património da nação pela sua importância e pelo que tem dado ao país, principalmente no domínio das artes cénicas. Este é o festival que coloca o teatro em Cabo Verde e de Cabo Verde no mapa-múndi e por isso acredito que Mário Lúcio está absolutamente engajado para - dentro daquilo que são as políticas públicas que têm que ser aplicadas no terreno - dar a devida atenção ao festival. Não conseguimos tê-lo aqui na abertura por motivos de agenda mas ele certamente só não virá cá fazer-nos uma visita se não puder. Aliás, em outras edições, ele já participou directamente no festival como dramaturgo e como nosso convidado, mas importa frisar que não esperamos qualquer tratamento privilegiado por conta disso.

Em Cabo Verde as associações nascem e morrem com muita frequência. Qual o segredo da longevidade do Mindelact?

O segredo é existir enquanto associação, ou seja, todos os nossos corpos sociais são eleitos e funcionam e as contas são apresentadas e avaliadas publicamente em sede de assembleia-geral. Esta forma de funcionar que deveria ser a natural, mas que é quase uma excepção, cria uma imagem que reflecte uma realidade de seriedade e comprometimento e este é um dos factores para mantermo-nos durante tanto tempo e conseguirmos várias parcerias.

E como surge este espírito de voluntariado das pessoas que trabalham no Mindelact?

A maior parte das pessoas que trabalham no Mindelact são aquelas que fazem ou que já fizeram teatro. Uma das principais razões para as pessoas se voluntariarem está relacionada com a grande festa das artes cénicas que este festival representa. São motivadas ainda porque desta forma podem ter livre acesso a todos os espectáculos e contacto directo com os artistas. Devo salientar que hoje vestir a camisola do Mindelact é um motivo de orgulho para quem o faz porque sabe o que isso trouxe para o teatro cabo-verdiano. Para muitos isto serve também para abrir-lhes portas e contactos e adquirir referenciais que de outra forma não teriam porque, acima de tudo, Mindelact é uma grande escola.

 
Porquê essa aposta na formação durante o festival?

Queremos potenciar ao máximo a presença das pessoas que aqui se apresentam. É um desafio aos agentes teatrais que tem um outro tipo de preparação e escola de poderem partilhar esta componente da formação que é muito importante para o desenvolvimento do nosso teatro. E a partilha para nós é fundamental por isso as oficinas foram pensadas como um outro canal para esta troca de experiências.


Ao fim de dezassete anos o Mindelact não corre o risco de tornar-se repetitivo?

Não, porque todos os anos temos essa preocupação de ter um espírito de inovação constante. O Mindelact renova-se pela sua própria existência porque essa é a natureza do teatro.

O Mindelact conseguiu criar um público mais exigente?

Certamente. Quando digo que ele é uma aprendizagem é porque é sobretudo uma escola do público. Os grupos locais nunca mais se podem apresentar em palco trabalhando mal ou pouco porque irão sofrer na pele as consequências disso através da crítica ou da ausência da assistência nas suas apresentações. Podemos constatar que o nível de exigência do público no Mindelo é incomparavelmente maior do que era antes de existir o festival. Isto é inquestionável.

Vai manter-se na coordenação geral do Mindelact? 
Até ao final deste festival, sim. Depois logo se vê. Já prometi a mim mesmo muitas vezes que não o faria mais por causa do sacrifício que é organizar este festival, mas obviamente a paixão acabou sempre por falar mais alto. Mas não sou só eu, há muita gente que trabalha comigo e que está nisso desde a sua fundação pelo que o Mindelact continuará de pedra e cal se eu sair.


Publicada (também) no Jornal A NAÇÃO N.º 210


1 comentários:

Joaquim Saial disse...

Mais uma boa reportagem do Odair. Um abraço para ele e para o João Branco, esse herói do "teatre" em Cabo Verde que tenho o prazer de ter conhecido recentemente.

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