30 de setembro de 2011

Afinal Aristides Pereira era boa pessoa

Aristides Pereira

Para escrever este texto poderia aproveitar e fazer uma rápida pesquisa na Internet e trazer muita informação que passaria a sensação de que sei muito sobre Aristides Pereira. Mas, na verdade, sei muito pouco sobre a história do homem que foi o primeiro Presidente da República de Cabo Verde. Pensei que o problema fosse só meu e por isso procurei saber a opinião de várias pessoas da geração de menos de trinta anos. 




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Admito, houve quem o caracterizasse como “importante na formação da nação independente cabo-verdiana, porém discreto” ou como “grande líder e um Presidente que teve que governar numa época de construção de uma Nação livre e soberana”, mas é preciso contextualizar o momento e reconhecer que por esses dias recebemos uma sobrecarga de informações sobre a sua vida e obra. 

Por esses dias, reitero, veio a público factos sobre a sua vida dignas de um Herói Nacional que fazia todo o sentido ter sido homenageado e reconhecido durante vários momentos da nossa História e, principalmente, enquanto vivia. Mascarenhas Monteiro, o homem que o substituiu na Presidência da República, foi homenageado há tempos no seu concelho natural, Santa Catarina de Santiago; Pedro Pires, na véspera de deixar a Presidência, foi também homenageado nos Mosteiros, ilha do Fogo, onde seu nome foi dado a um auditório. Na Boa Vista, ilha natal de Aristides Pereira, só agora os seus responsáveis falam em erguer uma estátua a este “cabrer”, cuja casa natal, em Fundo das Figueiras, foi deitada abaixo.

Por isso não me estranha que a maioria dos jovens que perguntei desconhecia esta personalidade que é Aristides Pereira. “Nem sabia quem ele era”, respondiam-me alguns, ou “só ouvi falar mas não conheço a sua imagem”, diziam outros. A quem deveria ser passada esta responsabilidade por nossos jovens desconhecerem o trajecto de um dos obreiros da liberdade da pátria? “Aos próprios jovens que não procuram conhecer a sua história”, responderam-me logo. Houve quem ainda apontasse o dedo ao facto de que depois que perdeu as eleições em 1991 e na sequência dos anos gloriosos do MpD sua imagem ter sido “apagada de cena” no país e onde aparecia apenas como um mero figurante. Um desconhecimento da sua pessoa justificável também porque após a sua derrota ele preferiu desligar-se por completo das lides político/partidárias e em nenhum momento as convulsões políticas o atraíram de volta à luta pelos votos do povo (excepção feita à carta que publicada no A NAÇÃO onde apela à unidade no PAICV em torno da candidatura presidencial de Manuel Inocêncio Sousa).

E claro, se para a juventude tão desatenta aos noticiários já é difícil reconhecer todos os actores políticos, imagina-se alguém que nos últimos vinte anos esteve afastado dos holofotes da comunicação social.

Pior do que desconhecer a figura do antigo Chefe de Estado é saber que no imaginário colectivo de grande parte desses jovens povoam fragmentos negativos da História contemporânea que associam a Aristides Pereira. “Reforma agrária”, “prisões arbitrárias e tortura”, ou “partido único” são associações que alguns fazem, à parte de “combatente da pátria” ou “herói nacional”.

Após anos em que, com discursos inflamados, muitos foram aqueles que nos fizeram crer que Aristides Pereira (ou o partido que criou e que representava) pouca coisa trouxe de bom para Cabo Verde, hoje são esses mesmos políticos a reservarem-lhe rasgados elogios.

A verdade é que diante disso muitos como eu ficaram ficaram pasmos com os elogios póstumos, pois tinham criado uma imagem negativa de Aristides Pereira – ajudados por aqueles que hoje o elogiam – e que agora sentem-se confusos com esta nova realidade. “Agora com a morte essas homenagens todas parecem algo esquisitas”, dizem-me os jovens que sempre associaram o seu regime deste homem com H grande (segundo Carlos Veiga) a uma época menos boa do nosso país. Afinal, eu e outros jovens da minha geração temos de concluir, “Aristides Pereira era boa pessoa”.    


Publicada (também) no Jornal A NAÇÃO N.º 213




2 comentários:

mrvadaz disse...

Eu adoro os caboverdeanos, uma raça que, particularmente, adora os finados. Eu defendo que os homens devem/deviam ser reconhecidos vivos e não visto como H depois de bater botas.

Como muito respeito à figura do Aristides Pereira, um homem que um dia parou-me na Prainha para perceber quem estava no retrato(Madre Teresa de Calcutá) que segurava juntamente com os antigos colegas daquela residência estudantil, Internato da Praia em ASA, mas acho que as coisas devem sem contextualizadas.

Dizer que foi “grande líder e um Presidente que teve que governar numa época de construção de uma Nação livre e soberana”, eu pessoalmente, tiro a palavra livre.

Admiro o homem pela forma como manteve depois como cidadão mostrando que nem só da política e politiquices vive o cidadão.

Que descanse em paz a sua alma!

C.MR.86 disse...

OS CABOVERDEANOS TEM QUE LOUVAR E AGRADECER ARISTIDES PEREIRA PELO CONTRIBUTO DADO A NOSSA NAÇÃO PORQUE ELE DEIXOU C.VERDE NUMA SITUAÇÃO SERENA, O QUE NÃO ACONTECEU COM OS NOSSOS PAÍSES IRMÃOS(G.BISSAU,ANGOLA,MOÇAMBIQUE...).

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