26 de agosto de 2011

Raio X ao cancro em São Vicente

As doenças cancerígenas tendem a aumentar em Cabo Verde. As razões são várias. O tratamento, nomeadamente , por quimioterapia, acontece no Hospital “Dr. Agostinho Neto” (HAN), na Praia, e “Dr. Baptista de Sousa” (HBS), no Mindelo. Eis a primeira reportagem de fundo sobre uma doença que ainda amedronta muitos cabo-verdianos. Quanto mais não seja pela sua letalidade.
Mindelo regista vários casos de cancro

Por se tratar de um serviço que necessita de equipamentos e medicamentos caros, bem como de médicos especializados, só existem dois serviços de oncologia em todo o país: Barlavento (HBS) e Sotavento (HAN). E o mais grave, se esses serviços não conseguirem dar as respostas necessárias, os doentes têm como último recurso serem evacuados para Portugal.

Cabo Verde dispõe de alguns meios para fazer certos tipos de diagnósticos mas outros não. Há casos em que se pode fazer o diagnóstico mas que não é possível fazer o tratamento. Quando a solução é a cirurgia, é possível fazê-la no país. O problema é que nalguns pacientes é necessário recorrer à quimioterapia (a base de químicos) e até radioterapia, que é o tratamento a base de radiação ionizante, que ainda não é praticada ainda no país.

Mesmo o campo de actuação na cirurgia é limitado, pois só se faz alguns tipos de cirurgia, não por falta de cirurgiões competentes para tal, mas porque não se consegue oferecer todas as condições de um pós-operatório como uma Unidade de Cuidados Intensivos e outras medidas de suporte inexistentes. Nesses casos, Cabo Verde faz uso do protocolo assinado com Portugal para evacuar os doentes onde quem tem mais prioridade são os mais jovens por terem maior probabilidade de cura. Apesar dos claros benefícios deste protocolo, ele se revela insuficiente pois só permite evacuar 300 doentes por ano.


O Hospital “Dr. Baptista de Sousa”, de São Vicente, à semelhança do seu congénere da Praia, “Dr. Agostinho Neto”, procura assegurar o diagnóstico e o atendimento de casos de cancro. Uma experiência, apesar de curta, com alguns importantes ganhos, especialmente, entre os doentes e seus familiares.
Dr. Alcides Vieira Gonçalves

No combate ao cancro a partir do HBS, o coordenador do Serviço Ambulatório de Oncologia do HBS, Dr. Alcides Vieira Gonçalves, fala “basicamente” de três valências, nomeadamente “problemas relacionados colo do útero, cancro da mama e também trabalhamos como hospital de dia”.

Naquele serviço é feito o acompanhamento de doentes que fizeram o tratamento no exterior e que regressaram e os que estão na ilha de São Vicente. O médico acredita que “dentro das limitações” o serviço de Oncologia “tem sido bom”, trabalhando na melhoria da qualidade de vida dos doentes e dos familiares afectados.


Pessoal do Serviço Ambulatório de Oncologia

A nível de pessoal afecto ao serviço este é constituído por uma equipa médica permanente composta por um Internista, responsável pelo ambulatório e que responde pelas diversas patologias, uma Ginecologista, que se ocupa das patologias ginecológicas, um Cirurgião Geral, que se ocupa das patologias mamárias, uma enfermeira responsável pelo agendamento das consultas e uma auxiliar de serviços gerais. Embora a título experimental conta ainda com o concurso de uma Psicóloga com formação em Oncologia Clínica. Além dos profissionais permanentes, o ambulatório conta também, apesar de pontualmente, com vários outros médicos nomeadamente Anestesistas.

 
"EU TENHO CANCRO"
Valentim José Lopes

Actualmente, a mensagem que se quer passar é que o cancro é uma doença prevenível e perfeitamente curável, desde que diagnosticado a tempo. “O problema que se põe é que a maior parte das pessoas chegam ao Serviço já num estado avançado da doença”, lamenta Dr. Alcides que explica o procedimento nos casos diagnosticados: “primeiramente, procuramos saber se podemos fazer uma intervenção cirúrgica e só depois procuramos uma terapia coadjuvante de quimioterapia ou radioterapia. É verdade que ainda não fazemos essas duas últimas em São Vicente e nestes casos as pessoas são evacuadas para Praia ou Portugal, conforme o caso”.

Este é o caso de Valentim José Lopes, 74 anos, que depois de sentir-se mal e ter sido hospitalizado no HAN foi-lhe diagnosticado em Setembro de 2009 o cancro colo-rectal, que é um dos tipos de cancro mais comum nos homens. “Fui operado na Praia e depois de algum tempo fui evacuado para Portugal onde continuei o tratamento, agora com quimioterapia”, conta Valentim que se preparava para receber alta do HBS no momento da reportagem. Por causa da saudade que sentia da sua terra, toda e qualquer oportunidade Valentim aproveitava para vir abraçar seus familiares e amigos, peça importante na recuperação de qualquer doente. “Desde o mês de Fevereiro que estou em Cabo Verde a fazer o tratamento em casa junto da minha família que tem grande carinho por mim. Este apoio familiar para mim é maravilhoso”, revela feliz ao lado dos muitos familiares que o foram buscar ao HBS.

Veletim é mais um dos muitos doentes com cancro que engrossam uma lista onde uma leitura rápida pode levar a pensar que os casos de cancro têm vindo a aumentar em Cabo Verde. Embora não houvesse estudos e dados sobre a prevalência do cancro entre nós, o Dr. Alcides é da opinião de que a leitura que se deve fazer é que os novos meios de diagnóstico tem permitido descobrir mais ocorrências. “Acredito que actualmente detectamos mais casos por causa da melhoria dos meios, mas como não temos estudos sobre a prevalência desta doença fica difícil afirmar se aumentou ou não.” Como principais factores desta prevalência ele indica o aumento da qualidade e do tempo de vida e reconhece que o HBS não pode fazer tudo. “Temos uma relação de parceria com a Liga Cabo-verdiana Contra o Cancro (LCCC) que vêm desde a sua criação e que foi entretanto oficializada no mês de Julho último, mas informalmente já trabalhávamos em sintonia em relação aos apoios que ela presta aos doentes e familiares.”


QUEM AJUDA OS FAMILIARES?

Dra. Conceição Pinto

Toda a ajuda é bem-vinda numa doença que provoca mais mortos do que o VIH/SIDA, o paludismo e a tuberculose juntos e que é a causa de morte mais frequente no mundo. É por isso que nasceu a LCCC com a finalidade de levar informações sobre a doença para os pacientes e familiares, tornando-se assim como que “um complemento ao serviço prestado pelo HBS”, como nos conta a presidente da LCCC, Dra. Conceição Pinto. “Há pessoas que procuram o HBS mas que por vários motivos, incluindo a falta de tempo dos médicos, acabam por sair sem saber muita coisa sobre as suas doenças. Nós prestamos um serviço que sentimos que o hospital não conseguia dar, como informar sobre os vários tipos de cancro e seus factores de risco.”

Outra questão levantada pela presidente da LCCC é que os cuidados dispensados aos doentes no Serviço de Oncologia do HBS ainda são bastante limitados em relação aos dispensados no Hospital Agostinho Neto. “Somente casos de pequenas cirurgias são efectuados e se o doente necessitar de quimioterapia ele terá que ser evacuado para o HAN”, afirma a médica que fala de “um Cuidados Paliativos que podemos ter e não o melhor que poderíamos ter”, onde falta bons medicamentos para diminuir a dor. “Muitas vezes há doentes com dores terríveis devido à doença e nesses casos são precisos analgésicos potentes para aliviar a dor, mas o problema é que nem sempre dispomos desses medicamentos. Pode dar-se o caso de haver medicamentos na Praia ou no Mindelo, mas não nas outras ilhas o que obriga a ter um tratamento diferenciado entre as ilhas.” É por estas razões que ela declara ser necessário “criar uma rede a nível nacional para ajudar o tratamento dos doentes com cancro”, mesmo reconhecendo os constrangimentos por causa da nossa distribuição por ilhas.


CASOS REGISTADOS


Cabo Verde, como qualquer parte do mundo, sempre teve casos de cancro pelo que pode ser uma observação limitada afirmar-se que há um aumento de casos. O que se verifica neste momento é um aumento e melhoria dos meios de diagnóstico, pois antigamente não havia procedimentos como endoscopia ou ecografia. Por outro lado há um aumento dos factores de riscos (tabaco, álcool, alimentação inadequada, falta de exercíco, obesidade, radiações e infecções) na nossa forma de viver que está a predispor a nossa população para ser afectada pelo cancro.

Gráfico 1 - Óbitos por cancro por faixa etária e sexo (total: 16)

Desde que iniciou suas actividades há cerca de três anos, tem aumentado o número de atendimentos no Ambulatório de Oncologia. Em 2008 foram atendidos 190 pacientes, em 2009 foram 426 e em 2010 foram atendidos 378 pacientes. Dos dezasseis mortes por cancro registados em 2010 pelo serviço, dez deles são do sexo masculino e encontram-se na faixa etária dos 50-59 e 70-79 anos de idade. (dados do Hospital Baptista de Sousa)

Em 2010 foram atendidas no Ambulatório de Oncologia um total de 378 casos, onde se constata um número significativo de lesões antecipadoras de cancro do colo de útero, seguidas de cancro de mama, nódulos de mama e um número significativo de casos sem registo, numa média de 31,6 pacientes por mês conforme o Relatório de Actividades elaborado por este serviço. “Tem aumentado o número de pacientes que são atendidos pois a procura é cada vez maior neste três anos de existência do serviço no HBS”, observa Dr. Alcides que vê nisto uma “aposta claramente ganha” ao criar-se o Ambulatório.



Publicada (também) no Jornal A NAÇÃO N.º 207 - na verdade o título no jornal é "Radiografia do Cancro em Cabo Verde" mas como a parte relativa a Santiago foi feita pela minha colega então não a poderia publicar aqui. Aconselho a compra do jornal.






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