29 de junho de 2011

“Nada me escapa” - Manuel Figueira

Manuel Figueira
Manuel Figueira, um dos nomes maiores das artes plásticas do arquipélago, somente em Novembro de 2009 fez sua primeira exposição individual organizada em Cabo Verde. Avesso às novas tecnologias (não tem computador nem telemóvel) foi o autor do cabeçalho do Jornal Artiletra, criando as letras a mão. O artista regressou a Cabo Verde em 1975 com a intenção de dar a sua colaboração no desenvolvimento no campo cultural, em especial da cultura popular e hoje é representado pela Perve Galeria em Portugal.

Como foi parar em Lisboa para estudar Belas Artes?
Isso só aconteceu por causa da minha habilidade que se revelou desde muito cedo na escola. Mas porque meu pai não estava muito interessado em que eu estudasse Artes, o Dr. Baltasar Lopes teve que fazer certa pressão sobre ele para que permitisse a minha saída para Lisboa. Isso porque não havia esta tradição de sair para estudar Belas Artes. Prestei prova aqui e parti com vinte um anos. A viagem foi num dos barcos que regularmente passavam por Cabo Verde a caminho de Portugal e Brasil.

Porquê somente em Novembro de 2009 fez a sua primeira exposição individual em Cabo Verde?
Isso aconteceu a convite de Ana Cordeiro do Centro Cultural do Mindelo (CCM) que financiou tudo. Foi feita na Galeria ZeroPoint Art, talvez a primeira galeria privada em Cabo Verde. Se fosse por iniciativa própria, para fazer os contactos com o Alex Silva, dono da galeria, todas as despesas estariam por minha conta e eu não tenho disponibilidade como artista para suportar tantas despesas.

As suas pinturas da década de 60 são quase totalmente influenciadas pela sua vivência em Lisboa?
Tenho Portugal como temática de alguns dos meus trabalhos feitos nos anos sessenta. Alguns são de carácter político, relativamente ao regime político colonial. A partir de determinada altura em Portugal comecei a fazer desenhos de carácter satírico. Mas, antes de partir para Portugal já desenhava a partir da rua, ao natural: pescadores e arredores da cidade. Continuei a fazer desenhos tendo Cabo Verde como temática. Existem trabalhos meus desta época expostos lá na Perve Galeria. O hábito de desenhar ao natural na rua levei-o de cá.

Pintura de Manuel Figueira
Porquê o Capitão Ambrósio foi motivo de tantas pinturas suas?
Depois do 25 de Abril encontrei-me com o Gabriel Mariano, grande poeta, em Lisboa na Casa de Cabo Verde. Nessa altura já conhecia o disco Long Play (LP) Unidade e Luta do PAIGC, onde havia vários poemas ditos por diversos cabo-verdianos. Um dos poemas era o Capitão Ambrósio. Baseado nesses poemas fiz uma série de desenhos-testes relacionados com o momento de luta de libertação de Guiné e Cabo Verde e o Capitão Ambrósio era um deles.
Esses quadros fazem parte da minha faceta revolucionária. Eu fui politizado por um indivíduo chamado Abílio Monteiro Duarte, um cabo-verdiano que trabalhava no Banco Nacional Ultramarino, na Guiné-Bissau. Ele mesmo foi um politizado por Amílcar Cabral. Depois de deixar o seu trabalho no Banco, Abílio veio para o Liceu em São Vicente para fazer um trabalho político no seio dos jovens da ilha. Em finais dos anos cinquenta alguém deve ter indicado meu nome à ele por causa da minha habilidade. O Abílio também era uma pessoa habilidosa e é através dessa habilidade que ele fazia a aproximação dos jovens que gostavam de desenhar. Ele fazia uma lista das temáticas que devíamos abordar quando saíssemos à rua: Ribeira Bote, Monte Sossego, Praia de Bote, Mercado de Peixe. Somente temas de carácter popular. Esta consciência política vem dessas actividades de iniciação nas artes plásticas.
Só para teres uma ideia de como éramos controlados, há tempos, a investigadora Ângela Coutinho disse-me que foi à Torre do Tombo, onde estão todos os documentos históricos de Portugal, e encontrou entre os documentos da polícia secreta portuguesa (PIDE) que ‘em nenhuma circunstância Manuel Figueira pode regressar a Cabo Verde’.
Durante o regime de partido único em Cabo Verde tinha uma polícia política muito parecida com o português que tentava enrascar-nos a vida e fazia picardias que não era brincadeira. Nunca fui preso mas eles nos tinham debaixo do olho e meu filho, Sérgio Figueira, foi preso pela polícia pidesca em São Vicente enquanto eu estava na ilha de Santiago.
Em finais dos anos noventa eu e a minha mulher saímos do Centro Nacional de Artesanato (CNA). Em 1991 o PAIGC cai do poleiro, mas depois veio o MPD e eles vieram fazer coisas parecidas às do PAIGC. Quando, passados dez anos, o MPD caiu então reconquistámos o espaço do Centro de Artesanato e colocamos aquilo em ordem. Propomos que a casa se chamasse Senador Vera Cruz e dona Olívia Feijoó enviou-me de Lisboa uma fotografia do Senador Vera Cruz, que está lá no CNA. Entretanto, depois de conflitos com o PAICV acabamos por sair.

Manuel Figueira no seu atelier
Nas suas viagens de investigação pelas ilhas o que mais o marcou?
Enquanto director do Centro de Artesanato, a ilha que mais visitei foi Santiago, mais propriamente o interior da ilha. A cidade da Praia era pacata, diferente desta turbulência de hoje em dia mas era somente um local de passagem. O meu interesse estava no interior de Santiago pois lá é que habitava uma cultura popular forte. Foi através das visitas à ilha que conheci o sr. Damásio. Ele foi o maior tecelão que já existiu em Cabo Verde. Criador de vários panos que eram usados na sua maioria pelas mulheres na cintura ou no ombro. Eram panos com um orifício mágico, para consumo popular. Nós é que viemos trazer para o conhecimento público, por via erudita, o trabalho que ele desenvolvia. Eu sempre me referia ao sr. Damásio como meu mestre, e não era fingimento porque eu estava encantado com a tecelagem de Cabo Verde. Aprendi todos esses pormenores do sr. Damásio e fiz várias tecelagens. Ele foi com certeza, uma grande descoberta. Por duas vezes ele esteve em São Vicente a convite do Centro de Artesanato e ficava em minha casa porque éramos amigos.

O que é isso de orifício mágico?
Orifício Mágico, segundo me foi explicado pelo sr. Damásio e outras pessoas – porque eu procurava saber todos os pormenores – é aquilo que todos os panos feitos no interior de Santiago têm ao serem costuradas em seis bandas e que há uma parte que não é costurada. Perguntei ao sr. Damásio o porquê e ele respondeu-me “é pa ca morri”, ou seja, tem uma função mágica de proteger a mulher que usa o pano. Quem não sabe não irá notar aquilo. Isto é de tal forma interessante que inspirou-me um poema e um quadro.

Dos alunos formados no Centro Nacional de Artesanato, quem mais se destacou?
O João Fortes era um dos elementos mais habilidosos, principalmente na tapeçaria. Os jovens eram formados no CNA e os que tinham mais qualidade ficavam lá trabalhando. Estipulamos que lá seria um centro de investigação mas também uma escola. Eu tinha experiência que trazia de Portugal como professor de Educação Visual, assim como a minha mulher Luísa Queirós e a Bela Duarte.

Pintura de Manuel Figueira
Porque não volta de novo ao Centro Nacional de Artesanato?
Não colocámos os pés lá outra vez. Nós tínhamos colocado aquilo tudo em ordem para dar continuidade naquilo que tinha sido parado. Eu pessoalmente não coloco os pés lá. O Centro de Artesanato foi criado por mim, minha mulher e Bela Duarte. Já não me interessa ir lá para saber como está o local. Já é demais. Ficamos com pena, mas para voltar lá e falar sobre Cultura em São Vicente ou outros nhé, nhé nhés, já não fica bem. Quem quiser que fale, mas eu já estou um pouco enjoado. Agora deixem-me aqui fazendo o meu trabalho pessoal.    

Quem é esse Nhô Griga que aparece em tantas pinturas suas?
Conheci-o em São Vicente através de uma aluna minha do Liceu. Era um senhor de Santo Antão que morava em Fonte Francês e que fazia tecelagem. Foi a primeira fez que entrei em contacto com um tecelão tradicional de Cabo Verde. Nhô Griga está relacionado com uma determinada visão política de Cabo Verde, mas isso é muito mais tarde porque só venho a conhecer Nhô Griga em 1975. Tudo isso é devido à ideia de independência de Cabo Verde. Essa ideia nunca faltou-me.

Porquê muitos dos seus quadros representam pessoas em situações caricatas?
Não tenho nenhum preconceito moral em relação a essas coisas. Se passo e vejo um indivíduo urinando na rua e como nada me escapa, tomo apontamento ou então faço de memória, pois muitos dos meus trabalhos são feitos de memória. Quando vejo alguém nessa situação, não paro logo observando a pessoa a defecar ou urinar mas guardo no meu arquivo mental. O desenvolvimento dessa temática está relacionada com um certo humor, mas também é uma forma de dizer que algo não está bem na nossa terra. Digamos que não vejo isso de uma forma tão simplista.

Como começa o seu processo de criação de um quadro?
O processo de criação de um quadro está relacionado com tudo. No meu caso não está restrito somente ao campo da visão. Como ponto de partida pode ser uma conversa que escuto na rua ou em casa. Não me limito somente à imagem de figuras de pessoas e animais. Para não esquecer-me trago sempre papel no bolso para tirar meus apontamentos. É a partir de uma conversa, de uma posse de uma pessoa dormindo ou então da observação dos barcos que estão apodrecendo no mar ou de qualquer outra coisa que nascem meus quadros porque eu não nego nenhuma influência. Não coloco limitação às minhas fontes de inspiração.

Como surgiu o convite para criar o cabeçalho do Jornal Artiletra?
Depois de algumas visitas ao meu Atelier, surgiu o convite da Larissa Rodrigues para fazer o cabeçalho do Jornal Artiletra. Como não tenho computador, as letras foram feitas à mão depois de consultar cadernos de caligrafia e catálogos de letras. A partir dali fiz a minha criação do cabeçalho que foi feito para o primeiro número.

Como se define enquanto artista?
Pintura de Manuel Figueira
Sou um artista que tem como faceta bastante forte a observação acerca daquilo que acontece ao ar livre. Tenho uma amiga que diz que eu não deixo nada escapar. Quando estou na rua presto atenção a tudo o que acontece. Isto é uma característica que vem dos primórdios da minha carreira. Tudo o que faço relaciona-se com essa palpitação popular e de rua e não só, evidentemente. Meus trabalhos estão muito ligados ao meio ambiente. Mas a minha observação não se limita às pessoas. Também observo os animais, por exemplo, porque nada me escapa.


Como é feito a compra ou encomenda de seus quadros?
Eu praticamente não faço quadros por encomenda. Não goste que as pessoas me digam para fazer isto ou aquilo. As pessoas visitam e como aqui funciona como uma galeria, se estiverem interessadas podem comprar. Um ponto muito importante, eu não tenho a preocupação de fazer muitas vendas porque eu fui professor de Liceu, depois fui transferido para o CNA e sou reformado como professor e esta reforma permite-me estar à vontade e não ter afronta para vender quadros. De maneira que a minha criação, dito em bom crioulo, é na descontra.

Os quadros já têm todos os preços definidos?
Eu faço um cálculo mais ou menos dos preços dos meus quadros. Porque faço exposição fora do país, tenho uma noção dos preços praticados no estrangeiro. Tenho quadros expostos na Galeria Perve, fiz exposição na Ilha da Madeira e na Holanda, por exemplo. Eu sempre escuto o preço que artistas plásticos como Alex da Silva, o meu irmão Tchalê Figueira ou que a minha mulher Luísa Queirós pedem por seus quadros para poder situar a minha pessoa.

Em Cabo Verde existe um grupo de artistas que podem ser considerados uma elite?
Esta é uma questão melindrosa. Eu tenho feito exposições no exterior, Luísa Queirós, Bela Duarte, meu irmão Tchalê Figueira e Alex da Silva também têm feito. Isto dá para perceber qualquer coisa.

Acha que há uma certa dificuldade dos jovens artistas aproximarem-se dos considerados elite?
Você lhes chama de artistas? Talvez lhes chamava pessoas com certa habilidade. Acho que a palavra artista é um pouco mais cara. Dentro desse campo de artesanato podemos falar de um artesanato para turista ou um artesanato de aeroporto. Depois temos um artesanato mais artístico e de qualidade. Penso que se faz um trabalho mais virado para o turista e o estrangeirado. Quando ele era feito a serviço da comunidade ou para o seu próprio consumo, podia-se encontrar coisas de grande qualidade artística e de valor.

Como vê o panorama actual das artes plásticas em Cabo Verde?
Pintura de Manuel Figueira
Talvez seja preciso fazer uma retrospectiva da situação até chegar ao presente, porque a questão em Cabo Verde é um pouco complicada. Temos um público que não tem capacidade de compra. Um dos habilidosos que conheci na altura que estava no Liceu foi Pedro Gregório, arquitecto que vivia na Praia. Ele não desenvolveu a sua habilidade mais porque era arquitecto mas é um indivíduo a considerar. Mitú é uma das pessoas que se pode considerar de facto como artista.
A nível de São Vicente, tem Alex Silva, tem Bela Duarte, Luísa Queirós, tem eu próprio, não vou fingir que não existo porque trabalho todo dia, tem o meu irmão Tchalê. Daqueles que ensinamos no CNA tem o João Fortes. Mas a caminhada é um bocado difícil porque não temos um público erudito cabo-verdiano para sustentar em termos quantitativo, algo fundamental também. Isso porque o nosso ensino não estimula a arte fazendo com que sejamos completamente secos, áridos em termos de estímulo. É uma calamidade.    

Porquê mudou o seu atelier da Rua de Praia para a zona de Monte Sossego?
Eu e a minha mulher, a Luísa Queirós, partilhávamos o mesmo atelier na Rua de Praia onde eu ainda tenho alguns trabalhos. Eu é que decidi vir para aqui porque mudamos de casa e o atelier já não tinha espaço suficiente e como não queríamos alugar ou vender esta casa resolvi fazê-lo meu novo atelier. Assim eu e a minha mulher podemos ficar mais à vontade e é melhor um certo afastamento em termos criativos.

Como as pessoas podem encontrar seu atelier agora?
Tenho obras no Café Lisboa (Mindelo) e se as pessoas perguntarem ao Alberto, dono do bar, ele pode trazê-los cá ou indicar-lhes o caminho.

Publicada (também) na Revista/Jornal Artiletra N.º 109 - Março/Abril 2011



1 comentários:

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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