7 de abril de 2011

São Vicente 'invadido' por lagartos gigantes

As ilhas de Santo Antão e de São Vicente estão a ser “invadidas” por lagartos gigantes, oriundos de África, supostamente, através da importação de madeira. O alerta é do biólogo Evandro Lopes, que chama a atenção para o risco que o ‘Agama ágama’, também conhecido por “lagarto do fogo”, constitui para o nosso frágil ecossistema.

Ágama agama macho
A ilha de São Vicente - mas também a de Santo Antão -, está a ser tomada pelo lagarto “Agama ágama”, de coloração viva, sendo, por isso, conhecido por “lagarto do fogo”. “Trata-se de uma espécie invasora, que chegou, supostamente, na madeira importada do continente africano. É um lagarto super-agressivo e há cerca de cinco anos que se encontra aqui, em áreas restritas, perto dos locais onde se vendem madeira”, disse ao Jornal A NAÇÃO, Evandro Lopes, especialista em Ecologia e Conservação e docente na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).






A primeira vez que se notou a presença desta espécie exótica no arquipélago, foi em Santo Antão, em 2006, quando a investigadora portuguesa Raquel Vasconcelos Lopes, encontrou um “Agama ágama” morto.

“Isso aconteceu enquanto estudava as nossas osgas e lagartixas, o que chamou, de imediato, a sua atenção, dado que até então não havia registo em Cabo Verde do ‘Agama ágama’”, explica Lopes.

Passados quatro anos, e após nova investigação, a dupla de biólogos luso-cabo-verdiana, constituída por Evandro Lopes e Bruno Martins, recolheram dados que demonstram uma evolução no número de lagartos invasores.

“Quando eu e o meu colega estávamos a estudar as nossas osgas e lagartixas, encontrámos uma população já estabelecida de lagartos machos, fêmeas e crias de ‘Agama ágama’. Isto é uma situação muito complicada’ porque faz muita diferença encontrar um lagarto isolado e descobrir uma população com indivíduos medindo entre dez e 30 centímetros”, sustenta Lopes.

PERIGO DE EXTINÇÃO

De acordo com a nossa fonte, são vários os perigos que as espécies nativas enfrentam diante de invasões do tipo. Desde predação directa, competição por alimento, refúgio e outros recursos, dispersão de doenças e parasitas, e ainda envenenamento através de glândulas dérmicas tóxicas ou mordeduras venenosas.

“Isso representa um problema muito grave, visto que, a nível de Cabo Verde, não temos predadores para este lagarto”, alerta o entrevistado A NAÇÃO.

Evandro Lopes - Biólogo
“Em comparação com outros répteis, o ‘Agama ágama’ é muito grande e agressivo, ataca lagartixas e osgas nativas, competindo por comida e ‘habitat’, o que pode provocar um problema de invasão e levar a extinção das nossas espécies nativas”, alerta.

Até aqui, refere ainda aquele investigador, a “Ilha do Monte Cara” tinha o registo de duas espécies de lagartixas: uma “endémica, de Cabo Verde”, e outra, “endémica, de São Vicente”.

Fora isso, “há ainda uma espécie de osga, também ela endémica da ilha”.

E, com a invasão do “lagarto do fogo”, sublinha, “é a nossa biodiversidade que está em risco”.

PONTOS NEGROS

Diante disso, o investigador recomenda o extermínio, puro e simples, dos reptéis invasores antes que o mal se propague ainda mais.

“Neste momento, esses lagartos estão confinados à zona de Campinho, Dji d’Sal e caminho do Aeroporto de São Pedro”, revela Lopes.

Estando confinados àqueles espaços controláveis, o extermínio desses repteis pode ser facilitado, embora se desconheça se existem ou não outros focos espalhados pela ilha.

“O que deve ser feito é a erradicação, o mais rápido possível, desta espécie, porque, se esperarmos que eles se alastrem para o resto da ilha, o problema será bem mais grave e não conseguiremos contê-los”, defende.

As metodologias de erradicação do “lagarto do fogo” já existem, com experiências bem sucedidas nos Estados Unidos da América e na Europa.

“Pode parecer uma solução radical, mas será pior deixar que estes lagartos destruam as espécies nativas que se encontram no nosso País”, argumenta Evandro Lopes.

MAIOR CONTROLO
Ágama agama fêmea

Aquele biólogo e investigador suspeita que os lagartos gigantes terão chegado junto com a madeira importada pela empresa Bamako, passaram pela Cocheira (Estábulo), onde encontraram um ambiente ideal com comida e água e, depois, passaram pela propriedade da EuroÁfrica, onde têm um jardim e locais para se esconderem.

Existe ainda um outro grupo que está na área das empresas SOSSIR e FAMA.

Entretanto, análises genéticas recolhidas em São Vicente estão a ser efectuadas num laboratório do Porto (em Portugal), para se determinar a origem desta espécie africana.

Segundo Lopes, os resultados podem demorar dois meses, mas é importante agir-se, rapidamente, para não se correr o risco de “perdermos parte da nossa biodiversidade”.

De acordo com Lopes, o aparecimento do “lagarto do fogo” vem comprovar a precariedade do nosso sistema de controlo fitossanitário. “O controlo daquilo que entra nos nossos portos e aeroportos é ainda muito precário”, frisa.

Por conseguinte, “além da importação do produto em si, há, também, a entrada involuntária de espécies vivas indesejadas. Um exemplo disso, foram as osgas caseiras, que são mais agressivas do que as osgas nativas e que competem pelo espaço e comida das nativas”, aponta.

Um outro caso - este bem mais grave -, foi a entrada do “tristemente ‘célebre mil-pés’”, ao que tudo indica, através de plantas oriundas, igualmente, do continente africano. “Antes de chegarem ao mercado, os produtos importados devem ficar em quarentena, como forma de travar que qualquer animal ou planta invasora à entrada”, recomenda, a modos de conclusão.

O A NAÇÃO tentou ouvir a delegada do Ministério do Desenvolvimento Rural (em São Vicente), Fernanda Fortes, que se mostrou indisponível.

Também procuramos saber a opinião de outras entidades que lidam com a problemática do Ambiente, designadamente, a Biosfera, infelizmente, sem sucesso.


Publicada (também) no Jornal A Nação


10 comentários:

Caboverdiano disse...

Se se confirmar que estes lagartos vieram entre productos importados pela BAMAKO Holding, o mais correcto é responsabilizar aquela empresa pela seu extermínio.

No mínimo, essa empresa deve assumir as suas responsabilidades para com este problema ambiental. Aliás Dai, antes de ter lido o parágrafo eu já desconfiava que esses lagartos tinham sido importados junto com a madeira daquela empresa.

Se a memória não me falha, no passado alguém me falou também num tipo de formigas que terão chegado a ilha nestas mesmas cicunstâncias.

Temos que fazer um controle sério das mercadorias que entram na ilha e no país. Em São Vicente temos uma cultra de favores e baixa-se a cabeça dizendo "sim senhor" para certas pessoas só pelo seu estatuto social/económico. Isso também tem que acabar. É urgente adoptar medidas para evitar situações do tipo. Porque se fosse na Bélgica, ou qualquer outro país da europa, o responsável teria que arcar com as despesas da resolução do problema. As vezes parece-me que certas pessoas podem fazer de tudo na nossa ilha, e ninguém diz nada.

MRVADAZ disse...

Foi exactamente o que aconteceu com as formingas Ninjas. Há que haver responsabilidade, hoje em dia, principalmente na Praia, as Ninjas são uma praga.

daivarela disse...

Oi Caboverdiano.

O controlo nas alfândegas deixa muito a desejar, talvez seja por isso que estejamos com essa ameaça.

Só espero que resolvam isso antes que eles dêem cabo das nossas bonitas osgas

daivarela disse...

Manera MRVADAZ

As formigas ninjas são mesmo umas especialistas em incomodar as pessoas.
Ainda bem que ainda não chegaram por cá (o que é estranho).

Criolinha disse...

Pois é, Caboverdiano, concordo plenamente contigo.Isto dá para ver que essa empresa, não interessa com mais nada para além da madeira que vai exportar para fora a não ser com o seu bolso que vai recear um pouco mais...e uma tristeza mesmo as nossas alfandegas.
Day força lá no seu Blog e estou a gostar das suas materias.

daivarela disse...

Oi Criolinha.
Bom saber que o blog te agrada.

Vou-me manter alerta para ver se há algum movimento para proteger nosso ecossistema e darei a dica aqui.

Abraço

Anónimo disse...

De facto as autoridades devem ter mais controle, talvez colocar produtos em quarentena, sei lá... so nao percebi uma coisa: os lagartos "vieram de Africa"??... E eu que achava que Cabo Verde era Africa! Abrc.

Anónimo disse...

A primeira vez que vi lagartos desse tipo foi no ano 1998, por altura da copa do mundo, quando o pessoal na minha zona, atrás do cemitério preferiu ir ver uma cobra que se encontrava entre paredes de duas casas. Depois dalguns foguetes atirados para a ranhura de lá saiu este lagarto, que na altura pensei ser um camaleão. O jaime quem o matou, a ferrada, levou o seu trofeu para casa.
A segunda vez que o vi foi no ano 2010 ao encanhar para a escola, depois das 17 horas,um descia da parede do sicor para os contentores que estão mesmo atrás do estabelecimento.

cruzz49 disse...

Eu moro mesmo atrás do Sicor e já tive um desses lagartos no terraço da minha casa, tinha uns 15 cm é rápido e difícil de apanhar, depois ele sumiu mas já vi também esses lagarto nus contentores de lixo junto a parede da sicor com crianças o arremessa los pedras. Agora eu pergunto aonde esta o MDR e a inspecção que dizem ser feita nas alfandegas, e pq ninguém fãs nada e não ser esses biológicos que estão alertando para o perigo que trazem para o ecossistema local. Se fossem venenosos e se já tivessem mordido pessoas ai talvez os técnicos da MDR já tinham saído do conforto dos seus escritórios equipados com ar condicionados. esses senhores não estão marimbando pelas espécies endémicas

Anónimo disse...

Eu moro na Zona de Cruz João Évora e hoje vi um lagarto deste... ficamos bastante assustados pois nunca tínhamos visto um animal deste por aqui e ainda ele está solto por aqui

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