30 de março de 2011

São Vicente não acarinha seus artistas

Fernando "Nóia" Morais, o criativo por trás do projecto do Grupo Cruzeiros do Norte, grupo campeão do Carnaval do Mindelo’2011, e criador dos trajes vencedores do Rei e da Rainha pondera bater a porta. Critica a falta de criatividade dos blocos mindelenses e da falta de reconhecimento de artistas como ele. Sem falsa modéstia, Nóia afirma que na sua área não há ninguém melhor que ele e que pondera fixar-se no Brasil, onde acredita ter melhor sorte. Uma entrevista que promete dar brado.

Participou neste Carnaval’2011 como criador de projectos de andores e fantasias dos foliões. O que achou deste Carnaval?


Fernando "Nóia" Morais
“Nóia” Morais - Esse Carnaval não teve nada de especial, excepção feita ao Grupo Cruzeiro do Norte que conseguiu surpreender-me até certo ponto. Embora eu sabia o que iriam apresentar, não contava com o empenho e a garra com que apareceram. Também o Samba Tropical trouxe inovações, tanto nas alegorias como nas músicas. Fiquei algo decepcionado com os outros grupos porque parecem estar dando mostras de cansaço. Estão sem inovações e pude constatar um retrocesso mesmo com o aumento de 7 mil para 10 mil contos do subsídio disponibilizado pela Câmara Municipal de S. Vicente.



Houve mais dinheiro e menos criatividade?

Sim, claramente.

A que se deve esse retrocesso?

Não há criatividade. Afirmo isso porque conheço as pessoas que estão à frente desses grupos. Apresentam flores, golfinhos e andores sem criatividade e sem expressão. São Vicente merece melhor Carnaval.


COMPLEXOS?

Essa falta de criatividade deve-se a quê?

Acho que isso é reflexo da falta de uma aposta naquilo que no Brasil é chamado do “carnavalesco”. É aquela pessoa que pensa o enredo e tudo o resto. Em São Vicente sou a única pessoa que pensa o enredo do grupo e coloca o projecto no papel. Quando o grupo aparece na Avenida, ele apresenta uma história contada, como se fosse uma peça de teatro ou um filme. Tendo em conta a qualidade apresentada pelo Cruzeiros do Norte, os outros grupos deveriam ter desfilado melhor. Embora o subsídio tenha aparecido tarde, se um grupo conseguiu mostrar um bom trabalho os outros também deveriam ter-se apresentado melhor caso fossem criativos



A Câmara Municipal de São Vicente (CMSV) aumentou o subsídio para este Carnaval de sete mil para dez mil contos, mas os criadores dos trajes de Rei, Rainha e dos projectos dos enredos continuam a não receber nada. Porquê?

Ou essa gente tem um certo complexo de inferioridade no tocante a quem pensa e executa o Carnaval ou então é puro desprezo por quem trabalha nessa área. Eu não preciso que me dêem prémio. Era só terem feito uma menção ao criador das fantasias do Rei e da Rainha do Carnaval durante o anúncio dos prémios. Eles pensam que tudo aquilo caiu do céu. Fizeram basofaria no trabalho alheio. No meu trabalho. Todos passaram sabe no meu trabalho. Mas é para terem cuidado porque eu não estou a dormir.


ONDE PARAM OS QUATRO MIL E 800 CONTOS?

O que pode ser feito para melhor o próximo Carnaval?

Antes de lhe responder deixa-me dizer o seguinte: a CMSV disse ter disponibilizado dez mil contos. Mas eu não consigo ver onde é que esses dez mil contos foram usados. Se houve três grupos e cada um teve direito a mil contos, mais cerca de mil e quinhentos em prémios e a Escola de Samba Tropical recebeu setecentos contos, onde está o resto do dinheiro? A soma fica longe de dez mil. Isso quer dizer que ainda tem um saldo de quatro mil e 800 contos, se ninguém ficou com ele...


Mas ainda não respondeu à pergunta!

E, respondendo à pergunta, o que se poderia fazer com este saldo era abrir a inscrição já, para que os grupos que irão se apresentar no próximo ano pudessem levar seus enredos e projectos e recebessem o subsídio a partir de agora. Faz muita diferença dar o subsídio agora do que nos dias que antecedem o Carnaval. Desta forma os grupos podem começar a fazer os projectos, encomendar os materiais no estrangeiro, pois que muitos deles não estão disponíveis no nosso mercado e começarem a trabalhar.


DE OLHO NO BRASIL


Pensa deixar o Carnaval de São Vicente?

Por causa da falta de reconhecimento pondero parar de produzir para o Carnaval de São Vicente. Custa-me tomar uma decisão radical, mas quando a tomar não há volta a dar. Tenho estado a avisar que quando largar tudo, largarei para sempre. E se eu largar isso, de certeza que não estou vendo seguidores nesta área. Se eu não tivesse trabalhado com o Cruzeiros do Norte eles teriam saído à rua iguais ou piores do que os outros grupos. Goste-se ou não, esta é a verdade.


Então ainda não é este ano que abandonará o Carnaval?

O que posso dizer é que não estou no Brasil porque não quero. A minha ida ou não para as terras brasileiras para trabalhar no Carnaval depende somente de mim. Já tenho os contactos das pessoas que todos os anos dizem-me estarem à minha espera no Brasil. Quando partir, será para ficar pois sei que lá pagam bem. Lamentavelmente ainda não vi nas ruas o Carnaval que tenho dentro da minha cabeça. Ainda não o vi e não há hipótese de ele vir para rua da forma como as coisas estão em São Vicente. Nunca o coloquei em projecto porque sei das limitações existentes. Por exemplo, limitações logísticas: não existem locais para os grupos trabalharem porque não existe estaleiro.


EXPOSIÇÃO PARA BREVE

Quer dizer que São Vicente não acarinha os seus artistas?

Sim, é uma coisa incompreensível mas São Vicente não acarinha os seus artistas. Eu não sou patrocinado por ninguém. Se um dia eu tiver sucesso lá fora, não quero que ninguém venha tentar “tapar-me o olho”. Se o Carnaval fosse na cidade da Praia, de certeza que eu estaria satisfeito. A sorte deles é que a Praia não tem clima para o Carnaval, senão eu estaria lá. Praia acarinha os seus artistas. Conheço vários artistas com quem falamos e dizem-me que eles são acarinhados. Podemos ver pela televisão que estão sempre em digressões e têm locais para exporem seus trabalhos. Aqui não, é todo mundo querendo enfiar o dedo no olho do outro.

Para quando podemos esperar uma exposição sua?

Para este ano. Estou a preparar uma exposição que irá iniciar-se em São Vicente e depois será apresentada noutras ilhas, onde dão valor aos artistas, sem interessar a sua origem. Valorizam por amor à arte, coisa que hoje em dia não existe em São Vicente. Tem que ser para este ano porque já esperei muito tempo e quem não aparece, desaparece.


Publicada (também) no Jornal A Nação Nº 186




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