Nós não somos ensinados – nem estamos apreendendo - para criar ou inovar. Nosso sistema de educação baseia-se no pressuposto de que a sabedoria vem de fora e que qualquer tentativa de mudar esse conceito é encarada como uma forma de revolta.
O nosso sistema educacional limita-nos de tal forma que nas ciências exactas as aulas são para resolver problemas com fórmulas mágicas. Passa-se anos e anos resolvendo exercícios usando uma fórmula sem se saber como foi possível chegar até essa mesma fórmula. Não há mudança ao resolver mil exercícios neste formato de aprendizagem.
A verdadeira inovação está em compreender os fundamentos que desencadearam a busca por esse conhecimento; como foi possível chegar até ele, e porque não, encontrar caminhos alternativos. Sim, porque o caboverdeano também pode encontrar caminhos alternativos para os conhecimentos existentes.
Infelizmente fomos ensinados de que o saber é um privilégio dos outros e que a nossa função é engoli-lo e dizer amém. E quanto mais engolirmos, mais somos recompensados: desde o jardim-de-infância, passando pelo ensino básico e secundário até ao universitário. Somos recompensados com as festas de formatura que celebram um sistema hipócrita e capitalista que só serve para alimentar o ego do caboverdeano.
“Olha pás crianças, vê como são criativas e curiosas
Vê como são pensativas e gostam de explorar coisas novas
A escola existe para lhes roubar a criatividade e formatá-las
Estandardizá-las, domesticá-las, robotizá-las
Para depois formar adultos que só vêm com duas balas”
Temos um sistema de ensino que limita-nos o intelecto de tal forma que muitas vezes o que produz são profissionais frustrados. Queremos formar-nos rapidamente para integrar o mercado de trabalho para termos nossa secretária ao serviço do Estado. Quando isso acontece é só sentar e perpetuar a burocracia. São profissionais frustrados porque muitos caíram de pára-quedas em cursos para as quais não estavam vocacionados, mas que resolveram persistir porque o importante é ter um diploma.
Vê-se diariamente jovens que esforçam-se para conseguir aprender um tema de forma pontual, somente para conseguirem uma nota num teste. O que isso tem de errado? Tem que isso demonstra uma falta de visão mais abrangente para reconhecer as disciplinas-chave do seu curso. Tem de errado porque o estudante não deveria procurar aprender um tema somente porque seu professor precisa de avaliá-lo.
“E é só pra ter dinheiro que a juventude está a estudar
Nós não queremos inovar, nem inventar ou criar novas tecnologias
Ou até mesmo copiar.
Pelo contrário: lá vem mais um BMW.
Há mais Mercedes em África do que no país originário.”
AS MENTIRAS – Composição: Azagaia
Aquilo que convencionou-se chamar das escolas informatizadas, com salas de aulas com computadores e projectores, pode vir a tornar-se um dos maiores perigos ao nosso já fraco sistema de ensino/aprendizagem.
Como é que a passagem do pau de giz e do quadro negro para as imagens (slides) projectadas pelo computador pode representar um perigo para a qualidade do nosso sistema? Simples: vai aumentar a preguiça mental, do professor e do aluno, e irá criar dois outros problemas, o roubo de conteúdo e o slide-o-mania (vou registrar esta expressão).
Roubo de Conteúdo nas Escolas
Com a preguiça mental e com a disponibilização de conteúdo na internet, muitos professores irão fazer somente o copiar-colar dos artigos encontrados na Web. O que há de errado nisso se todo conteúdo na internet é livre e não pertence a ninguém, não? Isso não é bem assim. A internet não é uma terra de ninguém, sem leis. Muitos artigos e imagens estão protegidos por direitos de autor (copyright e copyleft). Portanto, quando o professor faz o seu slide com material copiado da Web poderá estar a infringir leis de protecção de autor. O pior é que muitos dos conteúdos desses slides que são usados nas salas de aula são retirados de sites de autoria duvidosa. Quando o próprio professor faz copy-paste, plágio e/ou roubo de conteúdo, qual é a sua moral para exigir que o aluno faça diferente?
Slide-o-mania
Quando juntarmos a preguiça mental + roubo de conteúdo teremos um professor viciado em slides. Aquele docente que só sabe apresentar e ler os slides projectados na parede e que hipotecou a sua capacidade de reflexão: quando terminar o slide, termina a aula. Achas que isso irá melhor a nossa inteligência?
Minhas perguntas
Será que estou sendo pessimista demais? Você que é aluno, pensa que a informatização da sala de aula só trará benefícios? E você que é docente, acha que estou exagerando?


dai varela



Publicado em:
10 comentários:
è isso mesmo o nosso sistema está programado para um país que é sub-desenvolvido e que não quer de forma alguma evoluir mas sim continuar nessa posição de balde de lixo onde se deixa o que quiser e não de um país que quer avançar e fazer o melhor que pode para a sua gente.Mas tambem esta situação de pausa mental é favorável pelos politicos só ver que nesses 35 anos de independência continuamos com os mesmos partidos e se acontece o milagre de se ver um novo partido as caras são as mesmas ou seja inovação é uma palavra que ainda não existe no dicionário caboverdiano e muita falta deixa.
16 de Março de 2011 12:05
Dai,
Antes de mais, aquele abraço crioulo. Tocaste no Ponto G do nosso sistema de educação, pior disso tudo, a maioria das pessoas em CV(sou muito pessimista!) não querem discutir temas deste género.
Quanto ao "somos recompensados com as festas de formatura que celebram um sistema hipócrita e capitalista que só serve para alimentar o ego do caboverdeano", acho que o problema está em não termos a consciência disso, coisas que aprendi depois de estar fora de CV.
Quanto às fórmulas, sei que tiveram uma origens depois de estar cá em Portugal, também aqui na minha faculdade, a ideia é robotizar jovens para as empresas do fabrico do dinheiro e outras riquezas e como, nós os caboverdenos que infelizmente, vemos o mundo através do binóculo português, a tendência vai por aí.
Não quero massacrar-te com o meu longo comments, deixo-te este link, creio a última música do nosso Valete(http://www.youtube.com/watch?v=HChojrZNggU).
Parabéns e continua!
16 de Março de 2011 12:32
Oi luz
Realmente o "país" não quer desenvolver. Temos que ser 'desenvolvidos' pelos outros para que aceitemos a nossa evolução. Mas enquanto continuarmos com esse sistema de ensino, pouco ou nada se pode fazer.
Vamos nós jovens inovar e esse exemplo irá reflectir-se. De certeza.
Abraço.
16 de Março de 2011 23:16
Olá MRVADAZ
Aquele abraço também.
Sabes, aceitar discutir isso é aceitar que o Sistema não está bem. Isso é algo difícil para os que beneficiem dele.
Por isso que sempre preferi usar o 'binóculo' brasileiro - do conhecimento livre - para ver as coisas.
PS: 'brigado pelo link. "Um Só Caminho"
16 de Março de 2011 23:20
Trata-se de um artigo interessante, mas era escusado crucificar o caboverdiano da forma como o autor o fez, porque o que se passa com o sistema de educação está a escala mundial. Se nós não somos os melhores, nem tão pouco somos os piores.
Ok, limitamo-nos a engolir o saber e as tecnologias dos outros, assim como disseste. Mas as vezes paramos e pensamos: Para que inovar, se não há amor, não há paz nem tolerância?
Para que inventar armas para matar?
Para que inventar TV Plasma, Telemovel, internet para acabar com a convivencia?
Para que inventar mercedes e BMW para poluir a cidade?
Para que inventar jogos de computador para desencaminhar crianças?
Para que inventar novas fórmulas científicas para cimentar o ódio e o terrorismo?
Meu caro, o amor prevalece sobre todas as coisas. É necessário sim, ensinar para rejuvenescer o amor, a paz, a solidariedade, a moral, a ética, o respeito, a tolerância que está perdendo por causa da industrialização.
A educação e o conhecimento não limita-se apenas à ciência, porque a ciência feliz ou infelizmente é um dom que está ao alcançe de poucos por natureza. Pode-se inovar, investigar, buscar conhecimentos por outros ramos do saber, tais como: Literatura, música, poesia, etc., e neste aspecto em Cabo Verde tivemos e continuamos a ter pessoas inteligentes e inovadores.
17 de Março de 2011 16:03
Oi Bitim, prazer em te ver por aqui.
Não penso que seja crucificar, mas talvez um constatar de um facto muito pouco animador.
O Sistema está num ciclo maléfico: quem foi mal ensinado, hoje é professor e assim sucessivamente.
Inovar é bom, sem esquecer o Amor. Foi essa inovação que te permitiu fazer-me lembrar destes sentimentos tão lindos: Amor, Paz e Tolerância.
Realmente temos muitos progressos nessas áreas que apontaste, mas é bem provável que a poesia de Sérgio Frussoni deva muito pouco às fórmulas métricas dos poemas que nos eram ensinados na escola. Ou que a forma descontraida e com inclusão de expressões crioulas nos textos de Germano Almeida seja bem vista pelos professores de expressão escrita.
Bem haja àqueles que inovaram e que continuam a criar.
Abraço
18 de Março de 2011 00:27
oi posso dizer que mais uma vez concordo plenamente contigo pois desde cedo ensinam-nos a conformar a usar e a tirar proveito do que os outros criaram por vezes usamos coisas q n sabemos como foram feitas,nem tentamos pelo menos copiar só queremos consumir ,desde a roupa q vestimos ao alimento q nos sustenta.
12 de Abril de 2011 17:34
Em relação ao roubo de conteúdo nas escolas posso dizer q é representada pelo seguinte esquema:
professores tranmite o que copiou+aluno copia a cópia da cópia do professor=profissionais frustrados /vazios em conteúdo. os chamados srs. Doutores Professores na minha opinião têm duas formas de pensar 1º-q já sabem o suficiente p andarem a procura de um vasto leque de informações e q os alunos são suficientemente ignorantes q na hora da exposição do tema n sabem distinguir se este foi investigada, levada p a realidade do docente em questão e desta levantar questões e responde-los, de uma q foi feito o copy paste e minutos depois tranmitido e a 2ª forma de pensar dos docentes é q os alunos n merecem q ele corra atrás destas informações.Resultado nem o Docente aprendeu algo de novo mto menos o Discente,e ainda o cúmuloné q se os alunos fazem o mesmo(copy paste) os docentes os tratem como incompetentes como se eles não fizessem o mesmo, que hipocrisia !!!
12 de Abril de 2011 17:52
Oi Stephanie
Sabes qual a melhor forma para mudar isso? É cada aluno encarar a Escola de uma forma diferente. Penso que muitos tem a Escola como um circulo fechado de conhecimento onde o Professor está no centro e é o dono da verdade.
Basta reparar que os alunos ficam com o lápis e o carderno já pronto e copiam tudo o que sai da boca do Professor como se isso fosse uma verdade absoluta, sem margem para uma salutar discordância.
É necessário ver o centro, mas também o seu contorno: trazer os conhecimentos para a nossa realidade e apresentar alternativas.
Abraço
23 de Abril de 2011 14:54
Brevemente provarei a verdade e realidade daquilo que escreveste, não importa como te vêm, fazes o teu trabalho e mais nada.Força, camiho é para frente.
23 de Dezembro de 2011 17:56
Enviar um comentário
PROIBIDO comentar. Comente e saiba porquê. hehhehehehhee