12 de fevereiro de 2011

Praça Amílcar Cabral: a Praça Nova


Nhe Jusê caminha com passos curtos e rápidos. O sol começara a pôr-se, sem pressa, por detrás do Monte Cara enquanto ele passeava resignado na Praça Dom Luiz, talvez um dos últimos passeios naquela praça que era o lugar de descontracção e divertimento, implantado na rua mais movimentada de Mindelo, a Rua de Praia.

Coreto da Praça Nova
Nhe Jusê era um dos que não aceitavam a demolição da principal praça da cidade, a Praça Dom Luiz, para criação desta outra praça, muito fora do centro de Mindelo. O decreto régio foi assinado no dia 26 de Setembro de 1891 pelo Ministro e Secretário d’Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar de Portugal. Não conseguiu conter um ”oh diabo” ao ler que “António Júlio Machado, representante de um grupo de negociantes de Lisboa e Porto, ligados a proprietários de minas de carvão na Inglaterra, obteve uma concessão de 99 anos para construir um depósito de carvão, ponte, plano inclinado e oficinas no Porto Grande.”

Bom, pensou, a construção dessas estruturas será bem-vinda para esta ilha que tanto carece de trabalho. Mas teria mesmo que ser feita na Rua Tenente Valadim [agora Rua da Praia]? Isso iria alterar significativamente a configuração urbana de Mindelo! Mas Nhe Jusê também reconhecia que era necessário fazer frente à forte concorrência dos portos de Dakar e das Canárias, por isso ainda reflectia se iria juntar-se às vozes que reclamavam contra a Companhia de S. Vicente de Cabo Verde, ou Companhia Nacional, que seria fundada com grandes privilégios e suportada pelo Estado.

Sim, porque foram muitos os que reclamaram de imediato contra a decisão de demolir a Praça Dom Luiz e também sobre a localização da nova praça. Basta ver os acórdãos no Boletim Oficial para constatar que vários negociantes e outras pessoas da cidade reclamaram. Outros reclamaram a decisão de deixar o município pagar parte das obras necessárias para a construção da nova praça, como empedramentos e trabalhos de aterro e desaterro das ruas circundantes.

Apesar do seu amigo de longa data, Clarimundo Martins, negociante de trato fino e resoluto ter recorrido do próprio Decreto que aprovava os estatutos da Companhia Nacional, em 1893 os planos de Machado para construção do depósito na Praça Dom Luiz foram aprovados. Todos os recursos foram em vão. Na nomenclatura das praças, ruas, travessas e becos da cidade do Mindelo, aprovada em Dezembro de 1895, a nova praça figurava com o nome oficial de Praça Serpa Pinto, mas sempre chamada Praça Nova.

A Praça Dom Luiz foi demolida. O que acontecera foi que mais uma companhia, na realidade inglesa, tinha ocupado parte valiosa da baía. Em substituição os proprietários construíram a nova praça, que com razão foi considerada uma criação inglesa.

Quiosque da Praça Nova
A Praça, que depois da Independência foi designada Praça Amílcar Cabral, tem sofrido modificações desde o seu início. Em 1931 iniciou-se a construção do quiosque (concluída em 1932) no local do velho coreto substituído. A esplanada [depois demolida para dar lugar aos sanitários] foi construída na década de cinquenta, em parte reconstruída em 1981.

Antigo Telégrafo
Não era só Nhe Jusê que considerava a localização da “Praça Nova” mais ou menos fora da cidade. Muitos outros partilhavam desta opinião. Além do Jardim Dona Angélica, no lugar do cinema Eden Park, havia somente o Telégrafo no lado sul e uma casa antiga da Millers & Cory. Onde hoje se encontra o Hotel Porto Grande era um terreno alugado à tropa, que pagava 90 escudos de renda por mês. Depois da guerra o terreno foi vendido.

Cinema Eden Park
Só muitos anos depois da construção da Praça é que os terrenos à volta foram aproveitados para construção de edifícios. Nhe Jusê assistiu à construção do cinema Eden Park [hoje abandonada]. Em 1919 o primeiro cinema em São Vicente abriu as portas. Estava localizado onde funcionou a Casa Albino dos Santos Lda. Só dois anos depois o comerciante Isaac Wahnon apresentou à Câmara Municipal o projecto para a construção de um cine-teatro no recinto do Jardim Dona Angélica. Em 1922 houve a inauguração do cinema Eden Park. Infelizmente Nhe Jusê não conseguiu assistir, pois esse dia estava reservado somente à ”alta sociedade” mindelense.

Durante a Segunda Guerra Mundial o então dono, Marques da Silva (pai), mandou elaborar um projecto de um cinema maior e mais moderno, de que resultou o actual cinema, que iniciou as suas actividades em 1945.

Hotel Porto Grande
Outro lugar que Nhe Jusê só frequentava para alguns recados era o Hotel Porto Grande, o maior hotel do Mindelo [na altura], que foi construída nos anos 60 no terreno mais ou menos abandonado depois da Segunda Guerra mundial.





Estória ficcionada a partir de informações históricas do livro:
Linhas Gerais da História do Desenvolvimento Urbano da Cidade do Mindelo
Edições do Fundo de Desenvolvimento Nacional (Praia – Cabo Verde)
Publicação do Ministério da Habitação e Obras Públicas (Lisboa – Dezembro de 1984)
Disponível na Biblioteca Municipal de S. Vicente



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