31 de outubro de 2010

Como Analisar um Discurso (parte 2)

Depois de seleccionar o discurso pretendido, a próxima etapa é a de analisá-lo criticamente. Como já foi dito, o discurso não precisa ser um longo texto e ele pode ser seccionado e a análise ser feita somente sobre uma parte. Não se esqueça de deixar isso claro no texto.

Gostou do blog? Então click aqui e siga as novidades de daivarela no Facebook.

Por exemplo, irei usar um pequeno discurso:
Ao negar o desenvolvimento histórico do povo dominado, necessariamente nega também o seu desenvolvimento cultural. Compreende-se também porque é que a dominação imperialista, como qualquer outra dominação estrangeira, para toda sua segurança, exige a opressão cultural e a tentativa de liquidação directa ou indirecta dos elementos essenciais da cultura do povo dominado.
Amílcar Cabral, A arma da teoria. Unidade e luta I, Lisboa: Seara Nova, 1976

Para começar pode-se, resumidamente, falar da biografia e/ou bibliografia do autor do discurso e também da época em que o discurso foi escrito ou proferido. É importante situar o leitor no momento do discurso, pois muitos factores (sociais, políticos, culturais, etc.) inferem no fundo e na forma do discurso.

Contexto Histórico
EX: Este discurso que aparece no livro A arma da teoria. Unidade e luta I de Amílcar Cabral, foi escrito em meados da década de setenta, logo após a independência de Cabo Verde. Cabral, agrónomo de formação é o herói nacional e um dos grandes impulsionadores da luta, tanto armada como cultural do povo africano, procurava devolver ao seu povo o orgulho na sua cultura.
Cabo Verde, que esteve sob domínio colonial português até a sua independência em 5 de Junho de 1975, sofreu também culturalmente pois muitas das suas formas de expressão cultural – como o Batuko e a Tabanka – eram proibidas.

Durante a análise crítica deve-se procurar responder a certas perguntas:
O Sujeito
A quem se dirige o discurso? O autor fá-lo de uma forma explícita? O discurso é dirigido a um indivíduo, uma comunidade fechada ou à uma nação?

A Identidade
A identidade tem a ver com a origem social, género, classe, atitudes, crenças de um falante, e é expressa a partir das formas linguísticas e dos significados que esse falante selecciona.

EX: O discurso de Cabral é dirigido não somente ao seu povo que sofreu o domínio colonial, mas também ao próprio povo colonizador. Se Cabral queria que seu povo tomasse consciência da sua cultural extremamente rica, também ele queria que o colonizador tivesse noção dessa cultura, pois ele já havia afirmado que a sua luta não era contra o povo português, mas contra o regime.

Intertextualidade e InterdiscursividadeAs categorias intertextualidade e a interdiscursividade analisam as relações de um texto ou um discurso, considerando outros que lhe são recorrentes. Os textos “respondem” a textos anteriores e, também, antecipam textos posteriores. É a propriedade que os textos têm de estar repletos de fragmentos de outros textos.

Análise Textual
Análise denominada de “descrição”. É a dimensão que cuida da análise linguística. A análise textual deve ser feita conjuntamente com as outras dimensões.

Determinar, através das estratégias de linguagem do discurso, as relações sociais (respeito, inimizades, racismo, amor, etc.) entre os participantes.
Coesão: Mostrar de que forma as orações e os períodos estão interligados no texto.
Verificar se tipos de processo [acção, evento...] e participantes estão favorecidos no texto, que escolhas de voz são feitas (activa ou passiva) e quão significante é a nominalização dos processos. Por exemplo, há motivação para escolher a voz passiva. Seu uso permite a omissão do agente por ser irrelevante, por ser evidente por si mesmo ou por ser desconhecido, mas, também, a omissão pode ter razões políticas ou ideológicas, a fim de ofuscar o agente, a causalidade e a responsabilidade.
Enfatizar as palavras-chave que apresentam significado cultural, as palavras com significado variável e mutável, o significado potencial de uma palavra, enfim, como elas funcionam como um modo de hegemonia e um foco de luta.
Caracterizar as metáforas utilizadas em contraste com metáforas usadas para sentidos semelhantes em outro lugar, verificar que factores (cultural, ideológico, histórico etc.) determinam a escolha dessa metáfora. Verificar também o efeito das metáforas sobre o pensamento e a prática.

EX: O discurso de Cabral não é feito na intenção de construção de um ‘eu’, mas sim da construção de uma identidade nacional. Com uma linguagem polida, o discurso reclama da dominação estrangeira usando uma estrutura frásica bem elaborada e com recurso à voz passiva, minimizando o poder do colonizador numa clara evidência de que o poder de se auto elevar pertencia ao próprio povo africano. Cabral usa um discurso directo sem recurso à metáforas que poderiam provocar algumas dúvidas de interpretação.

Destacaremos algumas concepções de hegemonia aceitas por Fairclough (2001: 122):
a) É tanto liderança como exercício do poder em vários domínios de uma sociedade (económico, político, cultural e ideológico).
b) É, também, a manifestação do poder de uma das classes economicamente definidas como fundamentais em aliança com outras forças sociais sobre a sociedade como um todo, porém nunca alcançando, senão parcial e temporariamente, um ‘equilíbrio instável’.
c) É, ainda, a construção de alianças e integração através de concessões (mais do que a dominação de classes subalternas).
d) É, finalmente, um foco de luta constante sobre aspectos de maior volubilidade entre classes (e blocos), a fim de construir, manter ou, mesmo, a fim de romper alianças e relações de dominação e subordinação que assumem configurações económicas, políticas e ideológicas.
Ideologia, a partir dessa visão de hegemonia, é “uma concepção do mundo que está implicitamente manifesta na arte, no direito, na actividade económica e nas manifestações da vida individual e colectiva” (GRAMSCI apud FAIRCLOUGH, 2001: 123).

EX: Cabral tem como ideologia que o povo africano já tinha atingido um grande desenvolvimento durante o seu processo histórico e de que tentativa do colonizador de dominar culturalmente o seu povo era, também, uma tentativa de negar o contributo de África para o desenvolvimento mundial.

A Análise
Não há um consenso sobre onde iniciar a análise de um texto, se ao nível dos componentes linguísticos, isto é, o texto em si, e das práticas discursivas envolvidas, ou se ao nível das práticas socioculturais associadas ao uso do texto, sendo possível iniciar com qualquer um desses níveis.


O importante é produzir conhecimento.

Texto elaborado a partir do trabalho:
ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO, UMA PROPOSTA PARA A ANÁLISE CRÍTICA DA LINGUAGEM - Cleide Emília Faye Pedrosa (UFS)





1 comentários:

Albinda disse...

Fazes-me rir! Analisar o discurso politico convocando apenas dois marxistas Carbral e Gramsci que falharam redondamente, é nao compreender nada à evluçao do mundo. 
Oh man estamos na civilizaçao tecnologica e é precisapmente o "imperalismo" condenado por Cabral e Gramsci que mais criou e inventou nesta area.

Imagina as novas tecnologias culturais com as ideias anti-imperialistas culturais desses dois comunistas é viver em plena Idade Média.

Tu nao tiveste bons professores de politica, de politica cultural e apesar de estares na areas das niovas tecnologias e midias  tu ainda nao percebes a filosofia das tecnologias. Estamos a viver numa nova civilizaçao tecnologica criada pelao Ocidente imperialista condenada por Cabral, mas que paradoxalmente até que deitou abaixo s fronteiras ajudando assim os proprios inimigos do Ocidente pois a Internet e novas tecnologias estao dentro da globalizaçao que engloba todo o mundo, mesmo os paises fechados em termos de liberdades como a China comunista, Russia autoritaria, Cuba comunista, enfim todo o globo mesmo com censuras acabarao pouco a pouco ou às escondidas de tirar partido desta invençao que comunistas e marxistas como Cabral e Gramsci nunca criariam nem nunca idealizariam, por questoes mesmo ideologicas.

Os marxistas sao mentes fechadas e nunca poderao pensar tecnologias como a Net e as biotecnologias e neurociencias e neurofilosfia ou neuroeconomia. Estes conceitos e disciplinas so podem ser criadas em espaços livres e abertos generosos que sao capazes de transmiti-las mesmo a paises fechados e autoritarios.

E' pena que um jovem de menos de 25 anos praticante de novas tecnologias e vivendo no século XXI continue a pensar que CABRAL tinha um pensamento que possa ser adaptado à sociedade caboverdiana. Sinto muito que jovens de hoje ainda estejam colados a comunistas e marxistas duma maneira geral como Gramsci e Cabral, e serem incapazes mesmo em termos de analise objectiva avançar outros autores de outras areas politico idelogicas como Aron, Tocqueville, Huntington Ou Fukuyama.Mesmo que fosse para comparar!

Al Binda

Enviar um comentário

 
Design by Wordpress Theme | Bloggerized by Free Blogger Templates | coupon codes