5 de outubro de 2009

Cárcere em Mente [Cap. 2]

Capítulo 2: [Jeremias ao jantar]

- Não acredito que todo esse barulho foi por tua causa, Jeremias! Meu querido gato castanho, então eras tu quem vinha lá, seu gato do diabo! Por tua causa não fugi daqui, gato filho da mãe. Nem vale a pena vires ronronar para aqui porque eu não tenho nada para comer quanto mais para te dar. Com essa fome que estou e essa raiva de ti, eu era bem capaz de te comer, meu lindo gatinho. Olha, até parece que me entendeu. Não precisas fugir de mim, Jeremias. Foi-se embora!

Acho que vou aproveitar para descansar um pouco. Já está clareando mesmo, não vou tentar fugir agora a luz do sol. Se com a ajuda do escuro ia ser difícil, imagina só agora. Meus olhos recusam-se a ficarem abertos. É como se houvesse alguém sentado em cima das minhas pálpebras. Que sensação boa, parece que estou a flutuar. Estou mesmo cansada. Mas não iria te comer, meu lindo gatinho castanho… olha, voltou! Mas agora trás uma enorme tristeza nos olhos, como se caminhasse para o matadouro. Essa tristeza que trás nos olhos é tão profunda e angustiante que me recorda o dia em que o Pai me colocou a mão no ombro e disse-me “Ana, Deus chamou a Mãe à Sua presença”. Eu era ainda uma menina quando perdi a minha querida mãe. Não se deveria perder a mãe nunca. Elas não. Toda a minha vida sempre quis sonhar com ela mas nunca consegui. Sempre quisera ter a sua companhia nem que fosse em sonhos mas esse privilégio nunca me fora concedido.

Quanta tristeza tinha nos olhos azuis de Jeremias! Caminhava pesarosamente na minha direcção, nossos olhos se encontraram e nesse momento o tempo parou: - És minha amiga de verdade? - perguntou-me Jeremias numa voz suave e profunda como se a sua voz viesse de muito longe mesmo estando tão perto de mim. - Claro que sou tua amiga de verdade – respondi-lhe angustiada, pois eu tinha-me apercebido da sua intenção. - Pois só os verdadeiros amigos fariam o que estou disposto a fazer por ti -, enquanto dizia isso chegou-se mais perto de mim e deitou-se a minha frente com os seus pêlos castanhos brilhando como nunca antes tinha visto. - Mas, não tens que fazer isso, Jeremias - respondi-lhe angustiada, pois tinha-me apercebido da sua intenção. - Você vai precisar de toda a energia se quiseres sobreviver lá fora. Não tens mais nada para comer e precisas sair daqui , Jeremias falava com uma voz triste mas segura, com os olhos desviados dos meus.

- Mas isso significa perder-te para sempre e eu não quero isto - murmurei com a cara em lágrimas, sim, as lágrimas, a mais dolorosa forma de expressar a tristeza. - Eu quero levar-te comigo para longe daqui. - Tem de ser. Tem de ser… - dizia baixinho o Jeremias. Desde que vim parar a esse buraco que este bichano tem sido a minha única companhia. Baptizei-o de Jeremias, o nome do meu amado de que eu fui forçada a me afastar. Jeremias, aonde estarás agora? Será que ainda me procuras ou será que já desististe? Enquanto falávamos eu ia passando a mão pelo seu dorso, sentindo seus pêlos lisos e o contorno do seu corpo. A fome que eu sentia era dilacerante. Mas comer um gato... Acho que não serei capaz mesmo sabendo que essa dor atroz que sinto devido à fome poderá condicionar-me a fuga.

- Todos nós iremos morrer - disse Jeremias - mas poucos podem decidir como morrer. Sinto-me um privilegiado. Nesse momento em que a minha alma está pronta, vou partir cantando sem medo porque sei que te deixei fortalecida. Queria recusar. Quero recusar! Mas a fome é imensa. Mas e se isso for a única forma de poder estar de novo nos braços de quem me ama? - Assim seja. Adeus e obrigada, meu amigo - por fim disse-lhe. - Adeus - despediu-se Jeremias. E um canto lindo desprendeu-se da sua voz, um canto heróico vindo de uma alma valente. Pois era isso o que ele era, uma alma valente. Na minha vida eu havia conhecido muitos homens valentes mas nenhum deles se igualaria ao Jeremias. Não agora. E o eco da sua voz se perdeu quando meus dentes se cravaram no seu pescoço e senti que o seu corpo perdia a sua valente alma quando pelos cantos da minha boca escorria seu sangue. O gato já não miava mais…


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