Foi na terça-feira (2 de fevereiro) e revelou-se um momento muito intenso de partilha com meus colegas novos autores e também com o público que nos honrou com sua presença, recomendações, observações e também críticas construtivas.
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| Painel do Novos Escritores de Cabo Verde: (da esquerda) Carmelinda Gonçalves; Chissana Magalhães; Dai Varela; Dâmaso Vaz; Débora Sanches; Ana Paula Tavares [Moderadora]; Eileen Barbosa, Natacha Magalhães; Silvino Lopes Évora |
Coloco aqui parte da minha intervenção no VI Encontro dos Escritores de Língua Portuguesa em Cabo Verde, promovido pela UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa - em colaboração com a Câmara Municipal da Praia, e que decorre na cidade da Praia - Cabo Verde.
Como afirmei no encontro dedicado aos Novos Escritores, vejo a questão da produção literária nacional em três níveis: os autores, as editoras e o Estado. Temos poucas publicações e muitos autores ou putativos autores. Este facto leva há que não exista nenhuma editora especializada no género infanto-juvenil, o que vai contra a corrente porque basta estar-se actualizado com os dados internacionais para saber que quem impulsiona fortemente as vendas do livro imprenso é o público jovem.
Estatuto do Livro Infanto-Juvenil
Porque acredito que proteger esta área tão frágil significa apostar no enriquecimento literário, artístico e intelectual do povo de Cabo Verde, proponho que seja criado o Estatuto do Livro Infanto-Juvenil, um instrumento que não só lhe reconheça o valor artístico, mas que crie as condições da sua expansão. Com este Estatuto o livro Infanto-Juvenil nacional não deverá pagar taxas alfandegarias para sua importação, e o valor de envio por Correios dentro de Cabo Verde terá um preço reduzido e suportado pelo Estado. A comunicação social dá uma atenção relativa a esta produção literária, mas com esse Estatuto seria possível fazer-se publicidade dos livros a um preço reduzido. Pode-se também deduzir do imposto as despesas efetivamente despendidas com a publicação das obras deste género.
Outras Propostas
Como sabem, o papel de formar, informar e distrair as crianças-leitoras não pode nem deve ser assumido apenas pelos autores. Os pais, e professores, e o Estado (na forma das suas instituições) também têm um papel importante neste processo.
Contudo, para mim, o problema está mais a montante, ou seja, no Estado, e por isso trago algumas propostas aqui:
Cabe ao Estado criar as oportunidades de desenvolvimento do gosto da leitura, principalmente ao disponibilizar ou facilitar o acesso às obras nacionais. A escola, desde o pré-escolar, é o local propício para assegurar a atenção da criança-leitora, mesmo que seja usando a literatura no seu aspecto utilitário, informativo ou pedagógico.
Cabo Verde dispõe de 526 estabelecimentos de educação ou ensino pré-escolar, 420 unidades de Ensino Básico e 50 do Ensino Secundário; Porque é que não se consegue alcançar este público com os livros infantis? Talvez porque o Ministério da Educação não tem um plano de leitura para incentivar o descobrir dos autores nacionais. Não há projectos de leitura e, consequentemente, não há disponibilização de livros e contacto com os autores e ilustradores.
É preciso desenvolver-se técnicas de incentivo ao hábito de leitura através de programas de pequena escala e itinerantes. Falo, por exemplo, de semanalmente montar a mesma tenda de leitura em diferentes escolas.
É preciso envolver-se as comunidades na criação de minibibliotecas infantis que serão com certeza acarinhadas pelos autores nacionais.
No nosso país, em 2015, estimavam-se cerca de 525 mil pessoas residentes. Destes, o número de jovens (pessoas entre os zero a 14 anos de idade) era de 155 mil pessoas. Com um público-alvo deste tamanho, porque é que editamos tiragens de 500 exemplares e temos dificuldades em vender livros?
Também proponho que o Ministério da Educação deve incentivar o professor a aperfeiçoar a sua formação na literatura nacional. O professor deve conhecer antes de procurar alargar o leque de leitura do aluno.
Os professores podem despertar a interacção dos alunos através de visitas às bibliotecas. Mesmo que a criança-leitora não pretenda escrever um livro, para ela se tornar um profissional de excelência é preciso ler muitos livros.
A escola pode promover o jornal de parede, mas que tenha espaço para a literatura.
Temos 22 municípios em Cabo Verde e um Ministério da Cultura. Quantos concursos de literatura temos anualmente? Políticos da minha terra, façam concursos de literatura, mesmo que tenham prémios simbólicos.
O Ministério do Ensino Superior e Inovação pode incentivar a pesquisa da literatura infanto-juvenil nacional no ensino superior e destacar os melhores trabalhos.
Um dos maiores problemas para os novos autores ou autores independentes é a distribuição. É preciso encontrar-se novas formas de circulação das obras. Para isso o Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro pode criar canais de facilitação de distribuição nos postos de venda em todas as ilhas. Em termos internacionais, o Ministério das Relações Exteriores pode criar canais para fazer chegar os livros nas Embaixadas e Consulados espalhados pelo Mundo e divulgar nossa produção.
Depois irei disponibilizar todo o texto para quem se interessa pelo tema, mas como pretendo usá-lo como base para um projecto maior vou trabalhá-lo melhor. Abraço e boas leituras...
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