9 de setembro de 2011

João Branco: Mindelact renova-se pela sua própria existência

João Branco
O coordenador geral do Mindelact - Festival Internacional de Teatro, João Branco, revela os segredos do sucesso de um dos maiores eventos teatrais da África e que já vai na sua 17ª edição. A capacidade de se recriar, digna da natureza do teatro, permitiu que o Mindelact torna-se numa escola dos agentes teatrais e do público que hoje é muito mais exigente. João Branco deixa em aberto a possibilidade do festival estender-se para outras ilhas e termina: “o Mindelact continuará de pedra e cal se eu sair”.


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O Festival Mindelact já vai na sua 17ª edição. O que esta nos traz de especial?

Em primeiro lugar e em especial é o facto de termos mais um Mindelact. Porque cada ano que se consegue manter um festival com estas características é uma grande vitória para nós. Esta é a única grande actividade cultural com dimensão internacional no país que não é organizada por uma empresa ou pelo Estado, mas sim por pessoas que estão simplesmente ligadas a uma associação. Para nós o destaque é continuarmos a resistir e a realizar o Mindelact de forma contínua e sem interrupções desde 1995 até esta data. Destaco também para as cinco co-produções em que o festival produz os espectáculos que estreiam no evento e o Ciclo Internacional de Contadores de Estórias.

Porquê esta extensão do Mindelact para a cidade da Praia?

Acreditamos que há um investimento muito grande para trazer determinadas companhias e que é preciso aproveitar a presença destas pessoas em Cabo Verde para se apresentarem noutros pontos do país. Conseguimos esta extensão porque o Centro Cultural Português/Instituto Camões decidiu abraçar este projecto de receber os espectáculos na capital e dar a oportunidade às pessoas que vivem na Praia de apreciarem teatro. Por outro lado, hoje em dia é desejável que se aproveite ao máximo a deslocação das companhias teatrais porque é muito complicado fazê-los chegarem ao país com todas as despesas próprias e disponibilidade de agenda e no fim ficarem somente por uma ilha.

Esta extensão foi uma aposta ganha?

Obviamente que sim ou não a teríamos repetido este ano.

Pretendem alargar o Mindelact para outras ilhas?

Tudo depende daquilo que chamamos de gestão de oportunidades: se um Município, instituição ou uma empresa mostrar disponibilidade em suportar os custos da realização dos espectáculos localmente, nós não temos problemas nenhuns com isso. Mas a iniciativa tem que partir desses locais e não do Mindelact.

O Mindelact é um festival elitista?

Não, porque um dos elementos fundamentais na escolha dos grupos e das peças a serem apresentadas é haver teatro para todos os gostos. Na programação deste ano encontra-se desde uma tragédia clássica, até uma comédia gestual ou um espectáculo que mistura todas as chamadas “artes do palco”, passando por um monólogo. Enfim, a nossa preocupação é que o público tenha uma espécie de caleidoscópio daquilo que se está a fazer um pouco por todo mundo. Quem estima o teatro vai certamente gostar de todos os espectáculos, porque no fundo só há o bom e o mau teatro. Nada mais.

Nesta edição temos um Centro Cultural do Mindelo de cara lavada…

Realmente a sala está muito mais agradável e acolhedora, mas também com alguns problemas técnicos. Por exemplo, a teia técnica que suporta as luzes sobre o palco foi modificada e isto dificulta mais o trabalho da iluminação das cenas. Recomendamos que ela seja revista numa próxima oportunidade porque não é a ideal para a execução de um bom desenho de luz para o teatro e para a dança.

Sentiram um maior engajamento do Ministério da Cultura no Mindelact agora com Mário Lúcio a tutelar a pasta?

Sem dúvida. Este governante já tinha dito uma vez – antes de ser ministro – que o Mindelact deveria ser considerado pelo Estado de Cabo Verde como património da nação pela sua importância e pelo que tem dado ao país, principalmente no domínio das artes cénicas. Este é o festival que coloca o teatro em Cabo Verde e de Cabo Verde no mapa-múndi e por isso acredito que Mário Lúcio está absolutamente engajado para - dentro daquilo que são as políticas públicas que têm que ser aplicadas no terreno - dar a devida atenção ao festival. Não conseguimos tê-lo aqui na abertura por motivos de agenda mas ele certamente só não virá cá fazer-nos uma visita se não puder. Aliás, em outras edições, ele já participou directamente no festival como dramaturgo e como nosso convidado, mas importa frisar que não esperamos qualquer tratamento privilegiado por conta disso.

Em Cabo Verde as associações nascem e morrem com muita frequência. Qual o segredo da longevidade do Mindelact?

O segredo é existir enquanto associação, ou seja, todos os nossos corpos sociais são eleitos e funcionam e as contas são apresentadas e avaliadas publicamente em sede de assembleia-geral. Esta forma de funcionar que deveria ser a natural, mas que é quase uma excepção, cria uma imagem que reflecte uma realidade de seriedade e comprometimento e este é um dos factores para mantermo-nos durante tanto tempo e conseguirmos várias parcerias.

E como surge este espírito de voluntariado das pessoas que trabalham no Mindelact?

A maior parte das pessoas que trabalham no Mindelact são aquelas que fazem ou que já fizeram teatro. Uma das principais razões para as pessoas se voluntariarem está relacionada com a grande festa das artes cénicas que este festival representa. São motivadas ainda porque desta forma podem ter livre acesso a todos os espectáculos e contacto directo com os artistas. Devo salientar que hoje vestir a camisola do Mindelact é um motivo de orgulho para quem o faz porque sabe o que isso trouxe para o teatro cabo-verdiano. Para muitos isto serve também para abrir-lhes portas e contactos e adquirir referenciais que de outra forma não teriam porque, acima de tudo, Mindelact é uma grande escola.

 
Porquê essa aposta na formação durante o festival?

Queremos potenciar ao máximo a presença das pessoas que aqui se apresentam. É um desafio aos agentes teatrais que tem um outro tipo de preparação e escola de poderem partilhar esta componente da formação que é muito importante para o desenvolvimento do nosso teatro. E a partilha para nós é fundamental por isso as oficinas foram pensadas como um outro canal para esta troca de experiências.


Ao fim de dezassete anos o Mindelact não corre o risco de tornar-se repetitivo?

Não, porque todos os anos temos essa preocupação de ter um espírito de inovação constante. O Mindelact renova-se pela sua própria existência porque essa é a natureza do teatro.

O Mindelact conseguiu criar um público mais exigente?

Certamente. Quando digo que ele é uma aprendizagem é porque é sobretudo uma escola do público. Os grupos locais nunca mais se podem apresentar em palco trabalhando mal ou pouco porque irão sofrer na pele as consequências disso através da crítica ou da ausência da assistência nas suas apresentações. Podemos constatar que o nível de exigência do público no Mindelo é incomparavelmente maior do que era antes de existir o festival. Isto é inquestionável.

Vai manter-se na coordenação geral do Mindelact? 
Até ao final deste festival, sim. Depois logo se vê. Já prometi a mim mesmo muitas vezes que não o faria mais por causa do sacrifício que é organizar este festival, mas obviamente a paixão acabou sempre por falar mais alto. Mas não sou só eu, há muita gente que trabalha comigo e que está nisso desde a sua fundação pelo que o Mindelact continuará de pedra e cal se eu sair.


Publicada (também) no Jornal A NAÇÃO N.º 210


8 de setembro de 2011

Paródia de São Vicente


ATENÇÃO: esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é pura... realidade.

NOTA: este texto é uma paródia com o objectivo de ter humor...


História

Mindelo é uma das cidades (que se acha) historicamente mais importante de Cabo Verde porque em 1907 na passagem do príncipe real D. Luiz Filipe por estas ilhas deu-lhe uma real volta nas tripas e ele teve que vir de urgência para esta cidade a fim de fazer suas necessidades porque desde aquele tempo “Saocent ê sab pâ cagâ” (Em português arcaico traduz-se “São Vicent é bom para cagar”). Logo, se entende o porquê da escolha do príncipe. Enquanto isso, e porque (dizem) badio gosta de trabalhar mais do que as pessoas de São Vicente, lá aproveitaram para publicar na Praia um número único, especial, do Jornal de Cabo Verde para assinalar essa passagem.

Um crioulo muito preocupado com a situação da ilha
Mindelo também é muito conhecido por ficar entre concelhos menos importantes, como é o caso de Porto Novo (Santo Antão) e Tarrafal (São Nicolau), o que a faz parecer mais importante do que ela é na realidade. Ao contrário da ladainha dos mindelenses, a história da cidade é bem diferente da contada. A maior fonte de riqueza não provinha do Porto Grande, mas sim das (centenas de) prostitutas que a frequentavam. A prostituição era uma profissão assumida e legal onde todas as profissionais do sexo tinham que ser inspeccionadas pelas autoridades da ilha e só poderiam trabalhar mediante apresentação de uma licença.

Prostituição era também fonte de inspiração para grandes escritores da época como é o caso de Baltasar Lopes da Silva que se inspirou nas piranhas de ponta de cais para escrever “A Caderneta”, uma obra de ficção lançada em 1987 contendo 19 páginas. Algumas dessas prostitutas tornaram-se famosas na sociedade crioula.



Tradição

Existe uma estranha e misteriosa tradição das meninas de Mindelo que procuram marido de ficarem horas rodando a Praça Nova (Praça Amílcar Cabral) durante a noite e principalmente nos fins-de-semana. Ficam por semanas, meses ou anos dependendo da qualidade dos seus atributos (polpa e mama) a fazer o tradicional grogue num ir e vir interminável em volta da praça. Este costume que é passado de geração em geração está correndo sérios riscos de perder-se no tempo por causa dos gangs (grupos de desocupados violentos) que ameaçam deixar muita mulher para “titia”. Algumas solteiras já falam em se manifestarem.


Economia

Antigamente os gatos engordavam na gemada mas hoje os pobres felinos foram feitos cabritos à moda da Praia e por isso muitos jovens empresários só querem saber de fixarem-se na capital, a cidade da Praia.

A economia de São Vicente é muito baseada no tinha. A ilha tinha o maior complexo de frio do país onde armazenava peixes e outros congelados mas este pegou fogo e nunca mais foi reconstruído. Tinha fábricas de sapato e vestuário que fecharam e hoje os operários estão no desemprego. Tinha a intenção de receber grande número de embarcações no seu Porto Grande que já foi muito frequentado mas que hoje recebe poucos navios anualmente. Tinha o desejo de incrementar o turismo com vários vôos no Aeroporto de São Pedro mas na verdade recebe escassos voos internacionais por semana.

A única agricultura que o mindelense conhece é a de colher os enlatados das prateleiras das lojas. A ilha não vive do turismo porque os poucos brancos que se poderiam confundir com turistas europeus ou americanos em férias são uns crioulos mulatos que não gostam de apanhar sol. O comércio é insignificante porque falta uma parte essencial de uma transacção comercial: dinheiro.

Até agora tem sido um mistério da Humanidade descobrir como é que São Vicente consegue sobreviver.


Exportações

São Vicente é famosa por exportar gajos de caçubody para as outras ilhas e furacões para os Estados Unidos da América.

População

A população de São Vicente é composta por 40% de pessoas oriundas de Santo Antão e por 40% de pessoas de São Nicolau, que são as duas ilhas vizinhas. As restantes são os filhos destas pessoas que por causa desta peculiar mistura são conhecidos como “mascrinhas”. A Câmara Municipal e sua Assembleia Municipal, bem como todos os órgãos de poder local são governados na sua maioria por pessoas destas duas ilhas vizinhas mas enquanto isso os “mascrinhas” acham-se os mais espertos dos caboverdeanos.


Local de Diversão

Temos uma avenida, a Avenida Marginal (ou Calçadão das Banhas) que se tornou a última moda da cidade. É possível encontrar todas as pessoas gordas com umas gorduras para queimar nesta avenida depois do expediente fazendo fofoca exercício.

Mindelo ainda tem a maior concentração de bares e lojinhas (para vender grogue) do país. A distribuição é feita assim: uma casa, um bar…

Olha o tuba...! na Laginha.
A praia da Laginha é a mais amada e frequentada pelas gentes de Mindelo apesar de poucas pessoas das outras ilhas conseguirem encontrar beleza nela. O certo é que quem quiser que aproveite enquanto pode porque o ritmo de agressões que ela sofre e o roubo de espaço que irá sofrer deixará pouca margem para dar umas braçadas num futuro bem próximo.

A praia da Laginha é conhecida por ter muitos tubarões, mas não te preocupes que esses são daqueles que ficam na areia e só mordem as polpas das crioulas novinhas.

Nas zonas periféricas não há limite para música de mau gosto e todos os DJ’s experimentam suas músicas com as colunas de som ao máximo e colocadas na rua para todo mundo ouvir. E isso inclui acordar-te numa manhã de domingo as oito horas ao som de “Já Bo Kré Mas” de Dénis Graça.

A toda a hora tem um carro circulando com altifalantes enormes aos berros anunciando uma propaganda qualquer acompanhado da música do momento para o caso de quereres dançar nos passeios das ruas. E, como o centro da cidade leva cerca de cinco minutos para percorrer tens tempo suficiente para dar uns pés de dança. Em tempo de eleição então é pior.


Política

O último que acreditou nos políticos em São Vicente.
Todo o sãovicentino tem um parente na política ou conhece a família de algum político por isso as discussões governativas são literalmente guerras de comadres. Ter uma visão política diferente é sinónimo de ser do partido A ou B e os debates acabam quase sempre em briga.

O slogan de campanha preferido dos mindelenses é “Praia é capital, mas São Vicente é principal”, usado somente para competir com os santiaguenses.

 
Transportes

Autocarros com cadeiras apertadas, chinelas havaianas falsificadas e táxis que cobram frete dependendo do humor são os meios de transporte para conhecer a cidade do Mindelo em dez minutos. Se estiveres com pressa podes armar confusão que o 132 é chamado e o Serviço de Piquete da Polícia Nacional pode levar-te mais rápido. De sirene e tudo.


Curiosidades

Mindelo é considerado a Meca dos gays em Cabo Verde e todo o homossexual que se quer assumir vem primeiro aqui para ser aprovado pelos seus pares. Estatísticas demonstram que a zona de Fonte Filipe (arredores de Morada) produz 95% dos gays da ilha.

É no Carnaval de São Vicente que fica difícil distinguir quem realmente é gay de quem está somente fantasiado de mulher porque quase todo o ser do sexo masculino resolve vestir-se de mulher e passear de forma esquisita no meio das pessoas.

A Praça Amílcar Cabral, a principal da cidade, tem esse nome em honra ao maior herói nacional que lutou contra o regime colonial português mas curiosamente a praça só tem dois bustos e são de dois portugueses.

Todos gostam de passear nesta praça achando-se gente importante.

As pessoas de São Vicente demonstram grandes amizades e alegrias para com os visitantes na rua mas é melhor não esperar convite para conhecer sua casa. O motivo é segredo!


Cultura
As gentes de São Vicente acham-se os únicos donos da genuína cultura caboverdeana e todo mundo pensa que é artista.

Com os cortes de energia da ELECTRA...
A última invenção da ilha são os Mandingas que saem a dançar para anunciarem o Carnaval. O problema é que alguns desses mandingas gostam das coisas dos outros e por isso quando aparecem na zona os proprietários dos minimercados fecham logo as portas e esperam que termine a confusão.

O Carnaval de São Vicente é muito famoso e comparado com o do Brasil, onde os grupos percorrem o nosso sambódrome duas vezes. A primeira cheia de energia e beleza para o júri classificar e a segunda já ninguém tá nem aí para o público que foi ver a festa. Pelo menos no Mindelo o Carnaval começa só com quatro horas de atraso, bem diferente do Entrudo de São Nicolau que começa com um dia de atraso.


Educação

São Vicente é considerada a ilha universitária por causa dos seus vários estabelecimentos universitários, incluindo uma universidade que tem quatro salas e tem uma casa de banho unisex que é também o armário do guarda.

Os cursos são frequentados na sua maioria por jovens oriundos de Santo Antão, São Nicolau, Sal e Boa Vista. Os “mascrinhas” são a minoria nas universidades da sua ilha mas acham-se sempre os mais espertos de todos.


Culinária

Pratos típicos: pão com chá, bolacha com chá e bife de caneca (bolacha com chá e pão).


Heróis

Capitão Ambrósio – um assaltante (que nem capitão era) de armazéns que a 7 de Junho de 1934 liderou vários assaltos aos armazéns da Alfândega e de outras tantas casas comerciais e que apesar da Policia estar no seu encalço conseguiu rodar o Sambódrome de Morada com uma bandeira negra, como se fosse uma rainha de bateria das escolas de samba do Brasil. Daí a ficar imoratlizado num poema do poeta Gabriel Mariano de nome “Capitão Ambrósio” foi um passo.


Mi ê dod n'Saocent!!!
  



5 de setembro de 2011

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1 de setembro de 2011

Inocêncio: O que correu mal em São Vicente?

Todos os candidatos às Presidenciais de 2011 têm ligação com São Vicente, mas Manuel Inocêncio Sousa (MIS) tem mais por ser “nascido e criado”, como gostam de dizer os ,mindelenses de sete costados. Mesmo assim, perdeu feio. Alguma coisa correu mal…
Manuel Inocêncio Sousa


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Além dos atributos acima apontados, MIS tinha ainda um outro trunfo, o de ter representado São Vicente como deputado da Nação desde 1991, fora o facto de nos últimos 10 anos ter sido sempre o braço direito de José Maria Neves. O certo é que diferentemente de Aristides Lima que na primeira volta esmagou a concorrência na Boa Vista, MIS não conseguiu igualar a proeza e foi derrotado no seu próprio chão natal mesmo depois de lembrar a todos que é “menine de sãocent”.

Jorge Carlos Fonseca (JCF) é, como todos sabemos, o novo Presidente da República de Cabo Verde. Lutou muito nesta campanha, especialmente em São Vicente onde na primeira volta não conseguiu ganhar a MIS. Mas bastaram-lhe duas semanas para reverter o quadro, convencendo os “sãovicentinos” que ele “representava a estabilidade” e por isso merecia seu voto. Um trabalho bem feito que veio provar que a máquina do MpD “está bem, obrigado” na ilha e que por isso venham os novos embates.

A HISTÓRIA DO LOBO MAU

Depois de identificar Aristides Lima como o alvo a abater para passar à segunda volta, MIS teve pouco tempo para desmontar uma bela história contada por JCF e seus apoiantes. Nesta narrativa, MIS aparecia como um “pau-mandado” de José Maria Neves e que ele como Presidente seria somente uma extensão do Governo, liderado por um “ditador” que queria impor seu candidato contra a maioria e colocar todos os ovos no mesmo cesto.

Como bónus, MIS ainda representava o papel do ministro das Infra-estruturas que, alegadamente, pouco ou nada fez por sua ilha, concentrando os recursos na ilha de Santiago, eterna rival dos mindelenses. Desta forma, quinze dias viriam revelar-se insuficientes para desmontar a história com bons atractivos para um eleitorado eternamente descontente com o poder central, por isso muito influenciável a esse tipo de argumento. De tal modo que, em duas semanas MIS passou de filho querido a filho ingrato.

INDICAÇÃO DE VOTO A CONTRAGOSTO

Neste xadrez é bem provável que os apoiantes de MIS tenham pensado que os 21,6%
MIS não conseguiu ganhar na sua ilha
(porcento) mobilizados por Aristides Lima em São Vicente iriam, automaticamente, voltar-se para o candidato apoiado pelo PAICV, à semelhança de Filesberto Vieira, Júlio Correia e Sidónio Monteiro, que, muito a contragosto, diga-se, sem qualquer ponta de entusiasmo, lá cumpriram a obrigação de indicar o voto no seu “camarada” Inocêncio. Se sim, muito mal fizeram, pois JCF deu a volta ao texto, conquistando na segunda volta o voto de 13509 eleitores (54,72%) contra os 11178 (45,28%) de MIS em São Vicente.

Muitos elementos da equipa de Inocêncio na ilha alegam que não podem ainda fazer uma leitura “a quente” do que se passou mas alguns apontam a “ingratidão” do povo de São Vicente e fazem comparação com a Boa Vista. “Aristides Lima foi acarinhado pela sua ilha e conseguiu uma extraordinária vitória de 74,2% na primeira volta. Enquanto isso, nós em São Vicente que nos achamos intelectualmente e culturalmente superiores temos dificuldades em votar numa pessoa da nossa ilha”, lamenta um dos elementos da equipa de campanha de MIS.


FACTOR UCID

Outro pormenor que terá pesado na derrota de MIS é o facto do presidente da UCID, António Monteiro, ter declarado apoio a JCF depois que o seu candidato AL ter ficado na primeira volta. A UCID, que tinha conseguido cerca de dez mil votos nas últimas Legislativas (de 6 de Janeiro), desde o inicio da campanha tinha declarado que o apoio a MIS estava fora de questão. Deu liberdade de voto aos seus militantes mas Monteiro foi logo avisando que iria votar JCF. Terá tido pouco ou muita influência?

Como foi dito por uma das nossas fontes, ainda a leitura está “a quente” para se ter uma resposta. Mas a verdade é que São Vicente mudou o sentido de voto em duas semanas e nem o domingo chuvoso que ajudou na abstenção de 45,6% pode explicar a rejeição a MIS. Resta esperar pela “análise serena” e que esta talvez mostre onde a estratégia de MIS errou na sua ilha natal em favor do seu adversário.


CERTEZA

Uma coisa é certa: tão cedo os mindelenses não vão ver um outro filho seu, “nascido e criado”, à beira de se instalar no Palácio do Platô.

Podem, se quiser, contentar-se com o seu outro filho, Jorge Carlos Fonseca, cujas raízes estão mais fincadas em Santiago. Para o gáudio dos mindelenses, pode ser que isso lhes sirva de consolo.

Ou, talvez, achem que isso é o que menos importa na hora de escolher o Presidente da República, já que “nós tud é criol”.



Publicada (também) no Jornal A NAÇÃO N.º 208




31 de agosto de 2011

Achômetro N. 13 - Não faça diferença sr. Presidente

Jorge Carlos Fonseca

Quero expressar a minha indignação neste pequeno artigo perante a informação de que o novo Presidente, Jorge Carlos Fonseca, quer trazer o presidente do clube português, Vitória de Setúbal para a tomada de posse que acontece dia 9 de Setembro na Assembleia Nacional.

Devo dizer que não tenho nada contra o presidente deste clube ou contra o Setúbal, mas não acho justo que o meu Presidente use MEU dinheiro para trazer ou bancar uma representação de um clube que nunca tive qualquer informação de que tenha feito algo pelo desporto caboverdeano.

O único motivo que o meu Chefe de Estado alega para custear esta viagem é porque ele é adepto do Vitória de Setúbal e sempre teve “lealdade” para com a agremiação de Setúbal de que é apoiante e pelo qual “nutre mais carinho do que pelo Benfica”, o segundo favorito em Portugal. Que importância tem isto para o povo das ilhas que lhe elegeram com 97643 votos para os representarem?

Conheço entidades e/ou personalidades que fazem um trabalho heróico em prol do desporto caboverdeano e que a deslocação até Praia ficaria menos cara mas que não receberão convite nenhum. E mais, se aparecerem como rusgas de sete e meia serão logo corridos da festa.

Fica aqui a minha pergunta: achas que o convite para o presidente do CS Mindelense, campeão de Cabo Verde em futebol, já foi enviado?


30 de agosto de 2011

'Cabeça Negra' - uma mistura de Itália com Cabo Verde na música

Jerussa Barros
Com seu primeiro álbum, “Cabeça Negra”, Jerussa procura a fusão entre os sons crioulos e italianos para criar uma música com identidade própria que ela própria tem dificuldades em definir
.
Na sua passagem por Cabo Verde,
conversei com Jerusa Barros , onde falou do seu CD e dos novos projectos onde se incluem a gravação de uma versão italiana de “Lua”, juntamente com Princezito.

Cabo-verdiana a viver na Itália, recentemente esteve no País em concerto e promoção do seu primeiro álbum, “Cabeça Negra”, onde mistura ritmos crioulos e italianos com um gostinho de jazz.

Fazendo uso da sua formação em canto, Jerussa procura incorporar o jazz na música cabo-verdiana tendo começado em 2001 com o projecto “Cabeça Negra”, com cinco músicas originais. Depois de três meses de arranjos e gravação, o CD foi lançado em 2009, na Itália.

“São várias misturas de músicas crioulas cantadas em italiano”, conta Jerussa, que sente dificuldades em definir o seu trabalho. “É um projecto que tem identidade própria, com as suas várias misturas”, acaba por consentir uma tentativa de descrição.






DA ILHA DO SAL

Jerussa partiu da ilha do Sal com cinco anos para Itália, onde aprendeu música e, foi, através dela, que diz ter aprendido a falar crioulo. “Sempre cantei jazz, blues, gospel, mas senti necessidade de voltar às raízes e, por isso, comecei a interpretar músicas tradicionais de Cabo Verde. Iniciei por temas já cantados por cantores que admiro, Cesária Évora, Ildo Lobo ou Lura, mas depois decidi partir num antigo projecto de escrever minha própria música”, revela Jerusa.

Desta forma, nasceu o “Cabeça Negra”, grupo que produziria o álbum do mesmo nome, sendo todos os músicos de origem italiana, excepção feita a Jerussa, que justifica: “Os músicos italianos têm uma boa abertura para a música crioula. Por outro lado, não consegui encontrar artistas cabo-verdianos na Itália que encarassem a música como um trabalho e não como passatempo”.

As seis faixas que compõem o álbum são quase todas de Jerussa, excepto a faixa número seis, criação de Mário Lúcio. A sua tradução ficou a cargo de Alberto Zeppieri, que tem feito um grande trabalho na Itália na promoção da música e dos artistas crioulos. Para além de Jerussa, Zeppieri também já trabalhou com Lura e Solange Cesarovna.


REACÇÕES DÍSPARES

“Neste momento, estou preparando uma proposta de colaboração com Princezito onde iremos cantar sua música, ‘Lua’, em italiano”, avança a cantora, que fala também da sua vontade de fazer duetos com Boy G Mendes, Sara Tavares ou Tito Paris.

Na Itália, Jerussa está em contacto permanente com a música, pois, trabalha no projecto “Casa da Música” onde ensina as crianças a criarem através desse tipo de arte. Acredita que as músicas são o reflexo do que ela mesma é: uma mistura de Itália e Cabo Verde.

“As reacções vão desde as pessoas que pensam que esta não é música cabo-verdiana às que afirmam que são sons crioulos com alguma coisa misturada”, afirma Jerussa, para quem, “o mais importante é que gostem”.

“Cabeça Negra” e Jerussa são, pois, dois nomes a reter e que o A NAÇÃO lança em primeira mão.


Publicada (também) no Jornal A NAÇÃO N.º 208


28 de agosto de 2011

Cruz Vermelha abre guerra a Pombas Brancas

A Cruz Vermelha de Cabo Verde (CVCV) apresentou uma queixa contra a Lotaria Pombas Brancas (LBP) na Inspecção Geral dos Jogos (IGJ). Aquela organização humanitária alega que detém o monopólio de sorteios e, por isso, a LPB não pode realizar o concurso de apartamentos que tem vindo a fazer e anunciar na Comunicação Social. Abordada, a LBP afiança desconhecer a existência de qualquer denúncia contra si. Será?

A polémica está instalada. É a própria IGJ, através do seu inspector-geral-adjunto, Carlos Sena, a admitir que “as coisas” poderão não ter sido “bem tratadas” por parte da LPB ao lançar o concurso de apartamentos em São Vicente. “A lei é muito específica no seu Decreto-lei 73/2005 que estipula quem pode fazer o quê, onde incide e seus modelos de controlo de jogos em Cabo Verde”, afirma.

Sena revela também que a IGJ precisa estar na posse de mais dados acerca das normas e dos procedimentos do sorteio como o que a LPB está a anunciar antes de dar o seu parecer para que “o Ministério da Administração Interna possa tomar uma decisão em relação a este caso em concreto”.

O certo é que a CVCV alega ter exclusividade para exploração de lotaria e se o Estado concedeu a exclusividade para uma entidade explorar uma actividade não pode surgir de repente outra a explorar esta actividade. “Automaticamente a CVCV fez a denúncia por entender que seus objectos de concessão estão em causa”, revela Carlos Sena, que é jurista de formação.

Essa mesma fonte adiantou ao A NAÇÃO que a IGJ está em conversação com a LPB para que antes do final do concurso ora contestado conseguir “valer a verdade do sorteio” porque existe um certo valor monetário envolvido na operação, fora a expectativa de quem já adquiriu os bilhetes. “O Estado tem que intervir para evitar chatices maiores e garantir alguma lisura nisto tudo para que ninguém fica prejudicado”, afirma.

ILEGALIDADES?

Contactada pelo A NAÇÃO, os responsáveis da CVCV na Praia confirmam a apresentação da sua queixa “desde o lançamento da LPB” sem contudo entrar em mais pormenores alegando que só se pronunciarão quando houver um parecer da IGJ sobre a matéria.

A CVCV entende que, “independentemente” da sua queixa ou não, deveria ser a própria IGJ a verificar a legalidade do concurso da Lotaria Pombas Brancas. “É para isso que a IGJ foi criada”, salienta a mesma fonte.

A IGJ foi criada há um ano para apoiar tecnicamente o Governo em matéria de jogo, inspeccionar todas as actividades de exploração e práticas de jogos de fortuna ou azar, e fiscalizar a contabilidade e escrita comercial das empresas concessionárias.

Nisso cabe ainda ao IGJ analisar o processo e dar seu parecer antes de o enviar para o Ministério da Administração Interna que dará ou não a autorização, depois de ouvido o Ministério do Turismo, Indústria e Energia (MTIE).

BRECHA NA LEI

O facto é que “a LPB fez o pedido de autorização na Direcção da Região Norte do MTIE (DRN-MTIE) para importação dos bilhetes de sorteio e este lhes foi concedido e por isso avançaram com o concurso”, avança fonte no DRN-MTIE.
1º prémio LPB - vivenda de 1 Milhão de euros

Outro motivo que os promotores indicam para sustentar a legalidade da Lotaria é que “nada obsta” nos serviços de Finanças de Cabo Verde e da Câmara Municipal de São Vicente, conforme se pode ler na página da LPB na internet. “O que ocorre” explica a fonte do DRN-MTIE “é que essas entidades não têm competência para autorizar o concurso por isso não se opuseram, mas ao mesmo tempo não o aprovaram”.

Contactados pelo A NAÇÃO os promotores da Lotaria Pombas Brancas alegam desconhecer a existência desta suposta queixa e acrescentam que têm garantias da Cruz Vermelha em São Vicente de que “não foi apresentada nenhuma queixa” contra eles pelo que estão a apurar os factos antes de prestar qualquer declaração sobre esta questão.

CURIOSIDADE

De lembrar que os dois primeiros sorteios foram feitos na presença de um graduado da
2º prémio LPB - apartamento 200 mil euros
Policia Nacional, que está sob a tutela do Ministério da Administração Interna e também do Notário do Cartório Notarial da Região de Primeira Classe de São Vicente, João de Deus da Silva, que está sob tutela do Ministério da Justiça. Este último já certificou, para os devidos e legais efeitos, as duas primeiras extracções intermédias da LPB.

Curiosamente, um dos elementos do júri nas duas extracções é apresentado no certificado emitido pelo Notário como “voluntária da Cruz Vermelha”. Apesar da tentativa de contactar o Notário, tal não foi possível antes do fecho desta edição.


PRÉMIOS

A LPB já extraiu dois prémios intermediários e seus vencedores já receberam os seus cinco mil euros. A primeira aconteceu no dia 30 de Junho e foi ganha por Ariel Benitez e a segunda foi vencida por Israel Gomes Lima, a 30 de Julho, todos em São Vicente. Para
3º prémio LPB - 50 mil euros
ofinal deste mês de Agosto está prevista o sorteio final que será uma vivenda avaliada em um milhão de euros como primeiro prémio. O segundo classificado levará um apartamento de duzentos mil euros e o terceiro, cinquenta mil euros em dinheiro.

O processo de extracção é baseado no programa construído para o efeito pelo engenheiro Martinho Rodrigues, como se pode ler na página da internet da LPB. Os números dos bilhetes exclusivamente vendidosaté ao meio dia do dia anterior ao sorteio são introduzidos na base de dados do computador e o número sorteado é extraído.


A LOTARIA POMBAS BRANCAS

A Lotaria Pombas Brancas – segundo seus promotores - surgiu na necessidade de captar o interesse de pessoas por todo mundo para a página de internet que faz a descrição das maravilhas de Cabo Verde. “Quero capturar o interesse das pessoas para visitar o meu
Luigi Battaglia - promotor da LPB
site”, conta Luigi Battaglia, promotor da Lotaria, “pondo como primeiro prémio a vivenda mais linda, enriquecida com móveis de elevado standard”.

Não contente, decide acrescentar outros riquíssimos prémios para abrir ainda mais o apetite e, “previ com o mesmo bilhete, extracções intermédias à principal, colocando dois prémios de 5.000 euros cuja primeira extracção se realizou no passado dia 30 de Junho e a segunda no dia 30 de Julho”. O projecto pretende utilizar todos os meios de comunicação para granjear consenso e participação para “promover Cabo Verde no mundo através desta lotaria” e como forma de anunciar a inauguração da primeira fase do projecto Pombas Brancas, que é um complexo turístico e habitacional construído no Mindelo.

Por ser um evento diferente, a lotaria tem despertado muita curiosidade e alguma desconfiança mas o promotor garante que ela “é legal e autorizada pelas Finanças de Cabo Verde e pela Câmara Municipal de São Vicente”. As extracções contam com a supervisão do Notário da ilha, de um voluntário da Cruz Vermelha e de um funcionário público. O primeiro prémio da extracção final está estimado em cerca de um milhão de euros, o segundo é um apartamento mobilado de duzentos mil euros e o terceiro prémio é uma soma de cinquenta euros, e para concorrer é só preciso comprar um bilhete no valor de 1500 escudos. Luigi Battaglia diz-se contente por ter criado a “fábrica dos sonhos”.

“Esta é a maior satisfação da minha vida”, conta Luigi que acredita que isto é muito maior de tudo aquilo que realizou até hoje, “pois o meu trabalho anterior apesar de ter dado muitas satisfações, deu-as só a mim. Enquanto este projecto apesar de mirar o sucesso do país, permite no imediato fazer sonhar muita gente. Sinto estar a fazer alguma coisa em prol do próximo”.

O que é o Serviço Central de Inspecção e Controlo da Actividade de Jogos (IGJ)?


O Serviço Central de inspecção e controlo da actividade de Jogos (IGJ) é uma entidade dotada de autonomia funcional, administrativa e financeira e directamente dependente do MTIE. Criada pelo Decreto-lei n.º 30/2010 de 23 de Agosto, a IGJ desenvolve a sua actividade em todo o território nacional e abrange as concessionárias da exploração de jogos de fortuna ou azar. Pelo que, qualquer entidade que desenvolva a exploração de modalidades afins dos jogos de fortuna ou azar, nomeadamente, rifas, tômbolas, sorteios, concursos publicitários, etc., tem que ter autorização da IGJ para funcionar.

O seu Inspector-geral, José Augusto Cardoso, recentemente esteve em São Vicente para a apresentação do serviço de inspecção de jogos e também a lei que regula o exercício da prática dos jogos de azar e de fortuna no país. 
Publicada (também) no Jornal A NAÇÃO N.º 208 [feito com a preciosa colaboração da minha colega Carla Gonçalves/Redacção na Praia]

 
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