18 de agosto de 2011

Achômetro Nº 11 - Dénis Graça: Já Bo Kre Mas (Eu é que não quero)

Acho que os Ministérios da Cultura, Educação e Justiça deveriam fazer uma comissão para fiscalizar aqueles que fazem um atentado à criatividade, como é o caso da “letra” da música do Dénis Graça - Já Bo Kre Mas. É inacreditável como é que um cantor passa cerca de cinco minutos só repetindo “Já Bo Kre Mas”… Já Bo Kre Mas… até terminar a música. 

É que é preciso muita força de vontade para um artista sair cansado do trabalho (muitos deles não são músicos profissionais) e ir para o estúdio ensaiar e gravar uma música onde um gajo fica lá com o caderno de rimas na mão a repetir “Já Bo Kre Mas” durante horas, como se estivesse a cantar. 






Denis Graça Feat Gasolina - Ja Bo Cre Mas [2011] por MRPAULOJORGE



Eu já tinha visto o Justin Bibier repetir 54 vezes a palavra “baby” na sua música, mas não pensei que um crioulo fosse capaz de bater esse recorde. Confesso que ainda não contei os já “bo kre mas” por falta de megas para ver o vídeo até o fim, mas como o gajo não diz mais nada, de certeza que ele ultrapassa o Jastin Bibier. Se alguém conseguir chegar ao fim do vídeo-clip, por favor me diga quantas vezes ele foi capaz de se repetir. 

Agora a parte mais curiosa: esse é um dos sucessos do verão 2011 em Cabo Verde. Já Bo Kre Mas?


"Desabafo", não gostei desta peça teatral

Cartaz de "Desabafo"
Pode ser que seja porque tive que esperar mais de quarenta minutos para ver uma peça de cinquenta, mas o certo é que não gostei do que vi. Reconheço que se deve valorizar jovens empenhados na promoção amadora do Teatro, mas é obra quando dois grupos se juntam para co-produzirem algo de tão fraca qualidade como foi “Desabafo” do grupo teatral Craq’Otchod e do Atelier TeatraKacia. Apresentado esta quarta-feira (17) no Centro Cultural do Mindelo, a peça procurou retratar “Vera Lúcia, uma mulher moderna e independente financeiramente que num belo dia acorda sem vontade de ir trabalhar, e quase que num monólogo interactivo com um personagem imaginário, ela relembra o seu primeiro amor”. 

Idalétson "Idá" Delgado
Como conta Idalétson “Idá” Delgado, o jovem dramaturgo e encenador de 22 anos, que juntamente com Ivone Santos escreveu a peça, “ela nasceu de um correio electrónico anónimo que circulava na Internet que falava da revolta e reivindicação da mulher moderna, tendo o grupo encenado este email” e esta foi uma oportunidade de colocar em palco a música, dança e teatro, para criar uma “monólogo com características de um musical.” 





A verdade é que “Desabafo” deveria rever seu conceito de “musical” porque corre o risco de descaracterizar este género de arte. Nem de longe esta peça poderia se auto-intitular como tal só porque a Ivone Santos (Vera Lúcia) canta uma música e o outro actor toca guitarra nalgumas cenas. Para ser considerado um musical teria que ter estas características: 

Um musical tem normalmente por volta de vinte a trinta canções de vários tamanhos (incluindo uma reprise e adaptação para coral) entre as cenas com diálogos. Alguns musicais, entretanto, têm canções entrelaçadas e não tem diálogos falados. 

Existem três componentes para um musical: a música, interpretação teatral e o enredo. O enredo de um musical refere-se a parte falada (não cantada) da peça; entretanto, o "enredo" pode também se referir a parte dramática do espectáculo. Interpretação teatral se relaciona as performances de dança, encenação e canto. A música e a letra juntas formam o escopo do musical; as letras e o enredo são frequentemente impressos como um libreto. 

Outra coisa. Porque é que caracterizam a peça como um monólogo quando existem duas personagens que contracenam, dançam e falam entre si? Isto não está certo quando: 

Em teatro ou oratória, um monólogo é uma longa fala ou discurso pronunciado por uma única pessoa ou enunciador. O nome é composto pelos radicais gregos monos (um) + logos (palavra, ou idéia), por oposição a dia (dois, ou através de) + logos. 

Monólogo é a forma do discurso em que o personagem extravasa de maneira razoavelmente ordenada seus pensamentos e emoções, sem dirigir-se a um ouvinte específico. 

No Monólogo é comum que os atores rebusquem pensamentos profundos psicologicamente, expondo ideias que podem até transparecer que há mais de um actor em cena, mas que no real exijam somente uma pessoa durante a cena. Enfim, monólogo está associado a um conflito psicológico que não necessariamente é individual. 

Pode-se, então, considerar “Desabafo” como um trabalho de interpretação muito sofrível da Ivone Santos (Vera Lúcia) que representa os vários estados de espírito da personagem sem muita emoção e brilho. As paragens para mudança de figurino são excessivas e muito aborrecidas. O segundo actor, Luís Baptista (Cantor), deixa muito a desejar quando larga a guitarra para interpretar sem à-vontade no palco. 

A encenação de “Idá” não foi bem conseguida ao permitir que os actores tivessem uma performance daquelas no palco. 

Em poucas palavras: não gostei. Mesmo sabendo que esta peça será interpretada no FESTLUSO – Festival de Teatro Lusófono, no Brasil. 



FICHA TÉCNICA 

Co-produção: Grupo Teatral Craq’Otchod & Atelier Teatrakácia 

Dramaturgia: Idalétson Delgado & Ivone Santos 

Encenação: Idalétson Delgado 

Elenco: Ivone Santos & Luís Baptista 

Música ao vivo: Luís Baptista 

Direcção Musical: Luís Baptista & Idalétson Delgado 

Técnica de Luz: Abdulay Santos 

Coreógrafo; Rudson 

Figurinos: Colectivo 

Cenografia: Colectivo 

Iluminação: Abdulay Santos 

Sonoplastia: Idalétson Delgado & Luís Baptista 

Duração: 50 mn


16 de agosto de 2011

Achômetro Nº 10 - A divisão da Comunicação Social em São Vicente

Em São Vicente ocorre um facto deveras curioso e desconhecido pela maioria das pessoas que é a divisão da Comunicação Social em duas: a Televisão de Cabo Verde (TCV) e os outros. E quem são os outros? São todas as rádios, jornais impressos e onlines existentes na ilha. 

Quem o fez ou quando essa divisão começou não sei porque quando cá cheguei encontrei-o. Só sei que nenhuma conferência de imprensa acontece enquanto a ‘Comunicação Social’, ou seja, a TCV não resolver dar o ar da sua graça. E não importa o número de jornalistas presentes no horário e dispostos a fazerem a cobertura da matéria porque o protagonista (na sua maioria políticos) não aparece na sala e nem abre a boca para responder às questões enquanto não avistar uma câmara de filmar. 

Ciente desse seu privilégio, a TCV é (quase) sempre a última a chegar apesar de dispor de viatura própria com motorista. Quem pode, pode!


14 de agosto de 2011

Sofia entra para história de Cabo Verde

Sofia Cristina, 18 anos, prepara-se em São Vicente para tornar-se na primeira atleta de Taekwondo (artes marciais), residente no País, a representar Cabo Verde numa competição internacional.

Sofia Cristina
Uma atleta cheia de genica que percorre 20 quilómetros - duas vezes ao dia -, com o objectivo de estar pronta para os Jogos Pan-Africanos de Maputo (Moçambique), onde tem a responsabilidade de substituir Fredson Gomes, vencedor (2003) da única medalha de ouro de Cabo Verde no Pan-Africano.

Para conseguir treinar na placa desportiva da sua Escola, o Liceu “José Augusto Pinto”, Sofia Cristina precisa fazer um longo percurso de dez quilómetros entre a sua casa no Madeiral (zona rural) até ao centro do Mindelo. Duas vezes ao dia. 

“Depois de ver o anúncio na escola de que um atleta com 11 medalhas de ouro em torneios internacionais iria ensinar Taekwondo aos alunos, decidi inscrever-me”, conta Sofia que ficou entusiasmada ao ver todas as potencialidades deste desporto. “Apaixonei-me pela modalidade e comecei a treinar sem nunca imaginar que poderia estar neste patamar agora. Tento evoluir constantemente, evitando cometer os mesmos erros nos vários combates para que meu treinador tenha sempre mais vontade de continuar a trabalhar comigo”.

Mas este esforço já começou a dar seus frutos.O talento e a energia de são reconhecidos por Djoy Pina, seleccionador nacional nas artes marciais,que veio a Cabo Verde observar a evolução dos atletas que já estão há mais de dois meses treinando em São Vicente. “Um dos seus objectivos era observar atletas femininos que é uma das áreas com maior carência na selecção nacional de Taekwondo que tem só homens e que residem no estrangeiro. Ao ver o desempenho de Sofia, Djoy Pina apontou-a como sua primeira escolha”, conta Gilson Rodrigues [click aqui e veja a entrevista], seu treinador e também o primeiro atleta a representar Cabo Verde num Campeonato do Mundo de Taekwondo na Dinamarcaem 2009.

“Fredson Gomes”, acrescenta Rodrigues,“que foi campeão em 2003 e teve agora a oportunidade de defender o seu título em 2011 mas ele sofreu uma fractura na perna esquerda e o seu suplente, Daniel “Dimas” Pina, do Sal, teve uma fractura na perna direita, pelo que era necessário colocar um outro atleta para representar Cabo Verde”. 


TREINAR, TREINAR E… TREINAR MAIS

E assim surgiu a possibilidade da Sofia Cristina integrar a comitiva que irá disputar o Pan-Africano, em Maputo (Moçambique), estando todas as despesas já asseguradas. “Quando
Sofia Cristina a treinar com Gilson
 recebi o convite fiquei surpresa e feliz mas também sei que isso acarreta muita responsabilidade”, diz Sofia, emocionada com a possibilidade de representar Cabo Verde numa grande competição internacional. 

O objectivo do seu treinador Gilson Rodrigues é fazer com que Sofia compita e ganhe experiência para que ela possa transmitir aos outros atletas nacionais e aproveitar para lançar sua carreira desportiva. “Vontade e firmeza não lhe faltam tanto nos treinos como na competição, tendo ganho os três torneios internos que já realizamos”, revela Gilson que acredita que a“preparação física, a técnica e a táctica é possível treinar em tão curto espaço de tempo”.

Rodrigues reconhece que o mais difícil é treinar a parte psicológica porque isso depende de cada um. “Se não estiveres com a cabeça no lugar e com vontade própria não consegues. É por isso que tenho confiança que a Sofia terá um bom desempenho nos Jogos porque ela tem essa garra e essa vontade de ganhar”.


E O QUE IRÁ GANHAR?

Sofia Cristina e Gilson Rodrigues
Gilson acredita que em quatro meses consegue preparar Sofia para participar num evento
 tão forte como o Pan-Africano de Maputo. “É verdade que ela não tem a experiência de muitas atletas que irá defrontar em combate mas temos que começar por algum lado para que possa ganhar experiência. Não estou levando Sofia com ideia de que ela trará uma medalha de ouro, de prata ou de bronze para Cabo Verde. Mas se ela conseguir uma medalha nos Jogos Africanos o mérito será todo dela porque se levo Sofia é porque tenho certeza de que ela irá ganhar. E o que irá ganhar? Experiência de competição internacional”.

E será através dessa experiência ganha que os cerca de 60 alunos que treinam diariamente com Gilson se sentirão motivados para o Taekwondo. Porque uma coisa é Gilson Rodrigues, atleta do Benfica de Lisboa (Portugal), que viveu no exterior dizer-lhes que esteve no Campeonato do Mundo e em outros palcos e outra bem diferente é Sofia, sua colega de escola, que começou a treinar com eles explicar-lhes como e porquê perdeu ou ganhou um combate e quais foram os erros que cometeu contra atletas de outros países. 

“Desta forma eles se sentem muito mais próximos do Taekwondo e mais motivados para treinarem com a meta de também eles um dia representarem Cabo Verde”, revela um Gilson Rodrigues muito motivado.


O QUE SÃO OS JOGOS PAN-AFRICANOS? 

Logo dos Jogos Pan-Africanos
Os Jogos Pan-africanos de 2011 serão realizados em Maputo, capital de Moçambique, entre 3 e 18 de Setembro. A cidade substitui a eleita Lusaka, Zâmbia, que desistiu de organizar os Jogos por falta de recursos financeiros. Moçambique deverá receber pouco mais de 30 mil turistas durante os Jogos, segundo fonte da organização daquele evento desportivo. Cabo Verde tem viagem marcada para 2 de Setembro e o desfile de apresentação da Selecção será logo no dia a seguir em Maputo e o regresso está agendado para 19 de Setembro. 

A última vez que Cabo Verde esteve nos Jogos foi em 2003 e vencemos a nossa única medalha de ouro com Fredson Gomes, no Taekwondo, e na edição de 2007 fomos o único país de África a não participar. Nesta edição Fredson teve a oportunidade de defender a sua medalha mas, infelizmente, lesionou-se e agora Sofia tem a responsabilidade de substituir um atleta que foi campeão Pan-Africano. “Sofia será a primeira atleta na história do Taekwondo de Cabo Verde que terá conhecida a modalidade dentro do país, treina e reside aqui e irá representar o seu país e isto deve ser encarada por ela como uma grande honra”, termina seu treinador, optimista quanto ao desempenho da sua pupila.






Publicada (também) no jornal A NAÇÃO Nº 206




11 de agosto de 2011

"Casa dos Bonecos" ou como maltratamos nossas crianças

CCM (foto de Neu Lopes)
Na “Casa dos Bonecos” apresentado esta quarta (10) no Centro Cultural do Mindelo (CCM), uma criança/boneco (Pinóquio) procura encontra-se e reconstituir sua humanidade perdida depois de sofrer maus tratos nas mãos de adultos. Após ver ser-lhe negada sua infância, o pequeno coração da criança endurece até tornar-se de madeira e nem a protecção oferecida pela casa de acolhimento consegue diminuir a sua dor e esperança. Durante a sua estadia a criança procura por todas as formas fugir da casa e sair à procura da sua família sem nunca resignar-se à sua condição de boneco.



É desta forma que o Grupo de Teatro do Centro Cultural do Mindelo retrata em palco uma desprezível realidade nossa: o abuso e maus tratos das crianças. Porque o teatro e a arte no geral também tem a função de “espelhar e questionar” a nossa realidade, como conta Caplan Neves, que escreveu e encenou esta terceira produção do grupo. Esta é uma tentativa de demonstrar que talvez o Pinóquio não tenha nascido um boneco mas que “foram as vivências de maus tratos dentro do seio familiar” que o fizeram secar seu coração até tornar-se madeira.

Elenco do "Casa dos Bonecos" - foto surupiada ao JB


Com muita pouca gente a assistir ao primeiro dia de espectáculo, os actores apresentaram
Caplan Neves - Encenador
textos de elevada qualidade poética mas que em muitos momentos corria o risco de perder a comunicação por causa da linguagem algo culta demais. Terá faltado alguma simplicidade nos textos da personagem TIA mas que não diminuiu a actuação da Patrícia Silva que mostrou boa performance no palco. Sinal menos para algumas ocasiões em que era incompreensível a fala de algumas personagens por fraca projecção de voz dos actores e pelo posicionamento no fundo do palco para representar a cena. Caplan como encenador deverá ter corrigido nas próximas actuações algumas quebras de ritmo que acontecem durante a peça para que em cada apresentação ela se torne cada vez melhor.

Não há um grande investimento a nível musical para acompanhar a peça mas o trabalho de figurino é uma mais-valia e conseguiu o transporte para a “Casa dos Bonecos” nos 40 minutos que decorrem a encenação. Apesar disto, este é um trabalho de valor de jovens talentosos que vale a pena ver porque estará esta quinta (11) em exibição no CCM pelas 21 horas.

“Os bonecos não crescem. Nascem bonecos, vivem bonecos e bonecos morrem.”
Carolo Collodi

FICHA TÉCNICA

Interpretação

Adilson Spínola
Patrícia Silva
Patrícia Monteiro
Simone Rodrigues
Quelton Santos


Figurinos
Colectivo

Texto e Encenação
Caplan Neves

Desenho de Luz 
Adilson Spínola

Música
Caplan Neves

Som
César Benrós

Luz
Abdulay

Classificação Etária 
M/16

7 de agosto de 2011

Coladeira ou Hip-Hop Crioulo: qual melhor nos retrata?

Reconheço que a realidade caboverdeana já foi melhor retratada musicalmente através da Coladeira, que foi a melhor forma de descrever o viver e conviver do crioulo e seus problemas. Mas hoje esta tarefa foi conquistada pelo Hip-Hop CROULO e, diferente da Coladeira, ele já não escreve letras com duplo sentido para apontar o que está mal. Não, os MC’s conscientes estão colocando o dedo na ferida e remexendo até doer chamando os problemas pelos nomes, sem medo ou qualquer tipo de censura. Acredito que actualmente a melhor forma de se entender a realidade crioula através da música é ouvindo o HIP-HOP produzido pela sua juventude. 

Vamos deixar claro: muitos dos delinquentes que operam em Cabo Verde vestem-se imitando a cultura HIP-HOP. Isto e adicionando a má imagem projectada pelos Meios de Comunicação Social dos MC’s, verdadeira nuns casos mas noutros não, tem criado a impressão que os MC’s são marginais com um microfone na mão. Nada mais errado. 







Realmente existem muitos MC’s que sabem escrever boas letras, cantar e dar espectáculo mas o que lhes falta é dar o exemplo, é viver aquilo que pregam nas suas músicas. Porque um MC consciente não puxa pelos neurónios e pulmões para lutar contra o consumismo e aparece no seu vídeo-clip a mostrar os seus cordões de ouro, carros top de gama e outras expressões de riqueza e esbanjamento. Um MC consciente não pode cantar contra a violência urbana e sair na rua armado, ou apelar para a valorização das nossas crioulas e depois agredir sua companheira. Um MC que se comporta assim não faz mais do que uma sessão de hipocrisia explícita e a todos esses passo-lhes atestado de estupidez social. 








Há que ter atenção porque esta cultura é capaz de provocar num jovem de escutas nos ouvidos a ouvir HIP-HOP Crioulo uma visão e uma vontade quase que mais socialista de Cabo Verde. Isso porque este estilo de música procura ser uma tentativa de luta social que quer alcançar uma sociedade mais justa através de letras de caris intervencionista. Por isso considero uma grande responsabilidade esta tarefa de bombar mensagens sem rodeios que os verdadeiros MC’s espalham sobre um beat bem trabalhado. 







Daqueles que conheço e reconheço um trabalho de intervenção e uma grande contribuição no movimento HIP-HOP Crioulo estão, no Mindelo, Expavi (artista solo) e o grupo Hip-Hop Art e da cidade de Assomada os Rapazes 100 Juiz. Talvez tenha muito mais e espero poder ouvi-los também e se souberes de algum podes indicar-me.




5 de agosto de 2011

PRESIDENCIAIS: A disputa no Facebook

Em Cabo Verde, para ser Presidente da República já não basta subir ao palanque e discursar ou percorrer as achadas distribuindo abraços e beijinhos. Hoje, as candidaturas precisam estar na Internet. É por isso que todos os candidatos apostaram numa campanha virtual na maior rede social, o Facebook, que é também a que reúne mais cabo-verdianos neste novo universo. E nessas coisas de amizade, uns candidatos tem cinco mil “amigos virtuais” e outros têm somente oito. São as preferências… 


A batalha dos candidatos presidenciais para conseguir levar sua mensagem ao eleitorado caboverdeano há muito que saiu do mundo real e chegou ao mundo virtual. Em plena era da Internet, e se os eleitores estão conectados nesta grande teia da comunicação que é a rede social Facebook cabe aos candidatos fazerem de tudo para estarem presentes e fazerem-se notar num meio onde, felizmente ou infelizmente, todos têm a mesma oportunidade de se expressarem. Se o candidato a Presidente da República (PR) quer ter “amigos virtuais” para passar o seu slogan, ele tem que enviar um pedido de amizade e esperar que a pessoa aceite. É a democracia no seu melhor. 

Todos eles já reconheceram que não basta subir no palanque em todas as localidades espalhadas pelas ilhas e diásporas e encher os pulmões para gritarem seus argumentos ao microfone para convencer as pessoas. Tanto já reconheceram isso que todos os candidatos têm suas contas no Facebook e estão sempre actualizando suas páginas, seja com novas fotos ou frases de efeito para agrado dos muitos “amigos virtuais”. 

CAMPEÃO EM FOTOS 

E, por falar em fotos, Manuel Inocêncio Sousa (MIS), entre os candidatos, é o campeão das fotografias colocadas na rede com mais do que 542 fotos publicadas, seguido por Aristides Lima (AL) com 344 e com menos actividade fotográfica está Jorge Carlos Fonseca (JCF), com 92 fotos. Mas de todos, Joaquim Monteiro (JM) é quem parece não gostar muito de “olhar o passarinho” e fazer fotografias por isso só tem quatro fotos publicadas. 

E como quem está inactivo na rede social acaba por desaparecer, as candidaturas não param de colocar fotografias e vídeos de cada entrevista, comício ou acção de porta a porta para que todos os amigos virtuais possam saber das actividades do seu candidato preferido. 

E por falar em “amigos virtuais”, AL conseguiu tantos que há muito que atingiu o limite máximo de cinco mil e já não pode fazer novas amizades na rede social. MIS conseguiu reunir até agora dois mil 761 amigos e JM tem apenas oito na sua lista. JCF decidiu fazer uma página diferente onde não consegue fazer amizades mas onde as pessoas podem dizer se gostam e até agora cinco mil 389 pessoas já afirmaram que gostam da sua página no Facebook. 



APOIOS VIRTUAIS 


Uma das grandes vantagens desta nova forma de fazer campanha é que é possível saber a reacção, quase que de forma instantânea, dos “amigos virtuais” e potenciais apoiantes. São pessoas que reagem a cada notícia, fotos, vídeo ou palavras de ordem, o que permite ao candidato ter uma noção do impacto dos seus actos. Este tipo de feed-back é benéficas pois permitem repensar estratégias – no mundo virtual e real – e saber o que está a cair ou não no agrado do eleitorado. 

Por exemplo, Cláudio Fonseca, um dos milhares de amigos virtuais de AL afirma em sinal de apoio ao seu candidato: “Cabo Verde vive uma possibilidade de eleger um presidente sem o apoio dos grandes partidos. Só a eleição de AL nos põe nas bocas do mundo. Qualquer outra opção significa o mais do mesmo. Temos que aproveitar esta oportunidade para o nosso orgulho como povo!”. 

Mas a actividade é grande também na página de MIS, com Dionísio Gomes a demonstrar toda a sua admiração: “MIS é um homem do povo e perto dele escuta suas preocupações, Cabo Verde precisa de você camarada, força.” 

Também JCF recebe mensagens de encorajamento, como este de Luís Filipe Brandão, “Aqui em Portugal verifiquei este fim-de-semana que a candidatura está activa. Passei sábado à tarde por uma caravana organizada por apoiantes, na Ponte sobre o Tejo. Gostei de ver! Força, Forte abraço, se pudesse também ajudava”. Enquanto isso, somente dois amigos de JM deixaram comentário desejando “força” para esta caminhada. 



CANDIDATOS ON-LINE 


Para além de colocar fotos das suas acções, os candidatos também interagem com seus “amigos virtuais” e nesta disputa alguns candidatos mostram-se muito activos com diversos comentários às mensagens que recebem constantemente. É o caso de JCF que tem apostado numa acção mais personalizada procurando responder a maioria dos comentários que recebe e ainda tem tempo para dar conta do seu dia-a-dia. “Hoje à noite, depois de uma tarde de contactos em Santa Cruz a confirmarem um crescendo da candidatura, um comício na Achadinha. Vibrante, entusiástico, contagiante. Milhares com a candidatura cidadã e inclusiva, com o apoio do MPD, do GIMDS e muita gente sem partido ou eleitora tradicional de outras forças políticas”, disse ele depois de um dia de jornada. 

Já MIS e AL têm uma abordagem mais fotográfica apostando mais nas imagens para mostrar a evolução das suas campanhas enquanto JM, talvez porque entrou mais tarde na no Facebook, tem-se mostrado menos comunicativo e até agora não respondeu a nenhum dos dois comentários que recebeu. O “candidato do povo e para o povo”, como gosta de dizer de si próprio, prefere o contacto directo, através do aperto de mão, com os eleitores que vai encontrando pelo caminho. 


O QUE É O FACEBOOK 

O Facebook é uma rede social. É um site onde cada pessoa pode ter o seu perfil, ou seja, os seus dados pessoais, as suas fotos, videos, links, notas etc. 
Os membros desta rede social, como aliás de todas as outras, interagem entre si, visitando os perfis, fazendo amigos, estabelecendo contactos, deixando comentários, enviando mensagens entre si, numa palavra, comunicam. 

O site foi fundado em 2004 por Mark Zuckerberg. Inicialmente tinha como alvo apenas os estudantes da universidade Harvard, mas progressivamente foi permitindo a inscrição de estudantes de outras escolas até que em 2006, estava disponível para todos. 
O Facebook é usado por vezes por empresas para recrutamento de empregados, mas também existem empresas e mesmo repartições do Estado em alguns países que bloquearam o acesso ao site nas instalações. 
Mais do que um instrumento, o Facebook é um vício a que poucos hoje em dia conseguem resistir.




Publicada (também) no Jornal A NAÇÃO N.º 205 de 04/08/2011








 
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