7 de julho de 2011

Velhos, deixem-me cometer meus erros

Coisa boa essa dos velhos nos quererem dar um pouco da sua experiência para evitar que venhamos a cometer os mesmos erros que eles. Mas, será isso uma forma de nos impedir de vivermos a nossa própria vida e cometer nossos próprios erros?

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Gentes de Salamansa [São Vicente]

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Se há tantos erros novos para cometer, para quê repetir um que já deu provas que não serve?

Acredito que só se deve dar ouvidos aos velhos quando estivermos para cometer os mesmos erros que eles já viveram. Mas se for um erro novo, então deixem-me explorar, sofrer e desenganar porque estarei desta forma a viver meu próprio destino.


5 de julho de 2011

5 de Julho: eu não estava lá... mas me contaram

Eu não estava lá, disseram-me que houve chuvas que se confundiram com lágrimas de mulheres e de homens, dos mesmos que lutaram destemidamente de arma ao punho dentre matas e assobio de balas contendo tropas inimigas mas que nesse dia não conseguiram conter um soluço, depois outro e mais até que os pingos vieram para disfarçar, como no tempo em que nas matas camuflavam para surpreender um inimigo que tinha uma ideologia, tinha um perfil. 
 
 
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Eu não estava lá, mas hoje sei que aqueles homens e mulheres, simples, imaginavam um país diferente daquele que temos agora. Hoje o inimigo mudou e ele já não vem mais de fora. Hoje as armas mudaram de mãos e o inimigo perdeu a ideologia para abraçar a violência gratuita, a ganância e o ódio. Vivemos num tempo em que os melhores estrategas militares não sabem como fazer para enfrentar um exército de adolescentes e jovens que deambulam pelas ruas espalhando o medo e a insegurança sobre um povo que outrora lutou destemidamente por um Cabo Verde melhor. Era por isto que tanto lutaram? 

Eu não estava lá… mas me contaram.


4 de julho de 2011

Comentários crioulos engraçados

Passeando pela net consegue-se divertir muito com a capacidade criativa dos nossos crioulos na hora de comentar. São pessoas que odeiam, amam, fazem riola, dão avisos, mas sempre de bom humor. É o crioulo no seu melhor:



Elísio Rocha, P. Novo Corrida de São João 2011: Participei! 03 Julho 2011 
Ao decidir participar na corrida de atletismo de São João 2011, logo deparei com a estranheza de alguns amigos e o preconceito daqueles que, considerando o referido evento como um espaço apenas para mostrar “power” (...)

Carvoeiros  03 Julho 2011 00:14 
Os ratos correm bem 


Há largos anos que venho barafustando, persistentemente, mas debalde, contra a nossa burocracia, herdada de Portugal – que costumo chamar de repolho burocrático português (pelo número de folhas, de papeis) -, que cultivamos (...)


Didi 25 Junho 2011 17:12 
Criticar a alfandega é o mesmo que dar tiros de metrelhadora num couraçado americano. O atirador é que morre com o ricochete. Olhe, Dr. Arsénio, aconselho-o a não importar nada nem a aparecer na porta da alfandega nos próximos anos. Os tipos são mesmo couraçados, nada há a fazer até ao próximo regresso de Cristo. Em vez de fazer de bola de pingue-pongue, da próxima você vai ver boi (oiá bói), o que deve ser uma coisa mesmo má - nunca vi bói, mas deve ser pior que gongón. 


A eleição presidencial que se avizinha tem sido objecto de todas as paixões, com a cisão provocada no seio do partido no poder a galvanizar o debate eleitoral de pré-campanha. Ainda nem estavam formalizadas as candidaturas (...)


Neta gomes 30 Junho 2011 08:58 
Gente vendida e sem caracter, esses comentaristas de meia tigela! Em vez de atacarem o articulista que chama a atenção para essas situações anomalas e essas entorses ao codigo eleitoral, deviam era abrir um inquérito para averiguar onde está a verdade. Mas não, preferem atacar a verdade para camuflar a pouca vergonha que são as eleições no estrangeiro. 




Cuidado 28 Junho 2011 08:39 
david não te preocupas, nos todos sabemos de onde vêm os ataques contra ti. Tem um fulano em Saint-Ouen que devias tomar cuidado com ele. É um autentico engraxador e ele te odeia de morte porque tu nao vais nas suas cantigas 


DESAEV 24 Junho 2011 15:38 
É ISSO MESMO O POVO CABOVERDIANO É BURRO 


DASAEV 24 Junho 2011 16:26 
ESSA EXPRESSÃO DE CHAMAR BURRO AOS CVERDIANOS É DE ALGUM TAMBARINA FRUSTRADO Q ESCREVEU EM MEU NOME.


Qual deles estará certo? O Profeta Inácio Cunha ou os Adventistas Apostatados do 7º Dia? 


Padrepindorinho@hotmail.com 
SURTOU DE VEZ, MEU DEUS!!!! MAS AGORA QUERO SABER TAMBÉM: QUEM É ESSE Sr. INÁCIO CUNHA QUE TEM ENLOUQUECIDO OS NOSSOS JOVENS MAGISTRADOS (VITAL MOEDA, AMANDIO BRITO,etc.)? prisão para o Inácio Cunha, deve ser satanás!!! 

Um Cunhacunha@hotmai.com 
Inácio Cunha For Presidente!!! 


Ao ler o “artigo” publicado no LIBERAL ON LINE intitulado JULIETA TAVARES É ASSESSORA DE IMPRENSA DO PAICV, com data de 16 de Maio de 2011, assinado por Manuel Furtado Pereira, pensei em não responder. (...)


JULIETA, JULIETA 23 Maio 2011 20:40 
Você é competente e autónoma. Beleza você tem de sobra. Voce tem tudo. Por isso és uma grande mulher. Quero ter-te ao meu lado todos os dias ate que a morte nos separe. Continue exactamente como você é. É assim que eu gosto. Me aguarde. Eu quero ser o teu ROMEU, somente teu. 


De Assomada 23 Maio 2011 19:00 
Se a Julieta Tavares estava tão bem, tão bonita como muitos referiram, porque mudaram a foto no traje sexy????????? 


Verdeana 23 Maio 2011 17:46 
Julieta basofa, quem te tirou esta foto maravilhosa? Olha assim vais encontrar o teu Romeo, já, já, querida! Desejo que seja também jornalista, mas competente, bom papiador de português e com boa dicção para te dar umas aulinhas sentód na ragaço, menina bonita! 


JULIETA É UM ANJO 23 Maio 2011 16:06 
Querida, você é um anjo. Não passa cartão a esses analfaburros. Mas tem uma coisa: Você é linda mesmo. Te amo. 


LS 23 Maio 2011 15:31 
ca nhos critica ERRO de PORTUGUÊS da moça esqueceram que ela é JORNALISTA da RTC? que nos brinda com telejornais a nível do época dos dinossauros!!!! 


Juliana Silva 23 Maio 2011 13:24 
Em vez de estarem aqui a atacar a pobre moça - pobre em tudo - deviam era oferecer-lhe uma gramática e fazer uma campanha de recolha de fundos para custear o seu regresso ao EBI.Não sejam invejosos. Isso de desejarem ser burros, não é coisa digna. Deixem a menina com a sua burrice em paz. 


Romeu 23 Maio 2011 13:06 
Então rapazes, já não há respeito neste planeta? Agora é tudo balda? A Julieta foi, é e sempre será minha. Da outra vez suicidei-me por ela, mas desta outro galo vai cantar: eu é que suicido alguém que se atrever a brincar com aquilo que até o Shakespear teve de imortalizar. Okay? 


Romeu 23 Maio 2011 12:58 
Julieta, ao ver-te e ler o teu artigo, reconheci-te logo. Sou eu, rapariga, sou Romeu, suicidado há centenas de anos quando te vi deitada no chão. Nessa altura, estavas com um vestido branco tapado até ao pescoço, mas agora, veja lá, houve um destapamento radical. A falar verdade, mudei também o visual, com os fundilhos da calça até aos joelhos e o meu pai a chamar-me de maltrapilho. Topas? Não mando fotos porque o visual não está grande coisa. Tu estás em forma. 


Praia 23 Maio 2011 12:10 
Julieta kel Atentissimo la é bo mesmo k sta tenta difendi bu cabeça 


DECLARAÇAO PUBLICA de AMOR A JULIETA 23 Maio 2011 11:55 
Querida, o meu coraçao pulsa por ti. Tens um admirador secreto que é homem e pode tratar desse assunto por ti. Pense no que és e nao ligues os invejosos. És muito querida. Eu, pessoalmente, te admiro muito e te digo claramente: estou perdidamente apaixonado por ti. Tu és competente, linda, excelente profissional e mulher exemplar. Por favor, dê-me uma chance para fazer-te feliz.Assina: teu admirador secreto.





Você é autor de algum desses comentários?



3 de julho de 2011

Comentários Anónimos: serão o crime perfeito?

Já uma vez havia lido que somente cerca de 1% dos leitores dos onlines fazem comentários sobre os artigos lidos. A mim o que me surpreende é que muitas vezes, parte desse 1%, faz comentários tão fora do contexto que uma pessoa fica em dúvida se essa pessoa leu o artigo ou não, isso quando não começam a disparatar sobre partidos. Mas os meus comentários preferidos são aqueles das pessoas bem-humoradas que me fazem rir.


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O problema que se coloca é quando os comentários são ofensivos à imagem e ao bom nome da pessoa visada. Você que tem por hábito injuriar as pessoas nos onlines pensando que está protegido por um suposto anonimato (já explico isso), é melhor tomar cuidado porque podes levar com o peso do Código Penal em cima, em especial o Capítulo VII - Crimes Contra a Dignidade das Pessoas:


Quem injuriar outra pessoa imputando-lhe factos ou juízos ofensivos do seu bom nome e crédito, da sua honra, consideração ou dignidade, ou reproduzir essas imputações, será punido com pena de prisão até 18 meses ou com pena de multa de 60 a 150 dias. 
Artigo 166º (Injúria)


E nem vale a pena chorar que estavas falando a verdade porque a lei é complicada:
2 - As referências a outra pessoa efectuadas utilizando expressões ou qualificativos desnecessários e deliberadamente ofensivos ou vexatórios, ainda que sejam produzidos por ocasião de factos verdadeiros e certos, serão punidas com a pena do n°1.



O Código Penal também tem mão pesada sobre os caluniadores na sua Secção II - Crimes Contra a Honra:
1 - Quem, com conhecimento de sua falsidade ou com manifesto desprezo pela verdade, imputar a outra pessoa a prática de um crime ou a participação nele, ou reproduzir ou propalar tal falsidade, será punido com pena de prisão de 6 a 18 meses ou com pena de multa de 80 a 200 dias.
Artigo 165°- (Calúnia)



Mas no caso de não ser possível encontrar a pessoa que fez o comentário, deverá o online ser processado fazendo uma queixa-crime contra incertos? Quem faz a moderação dos comentários? Um jornalista, um jurista ou um jovem estagiário?  


1 - As sociedades e as pessoas colectivas de direito privado são responsáveis pelas infracções criminais cometidas pelos seus órgãos ou representantes, em seu nome e na prossecução de interesses da respectiva colectividade, salvo se o agente tiver actuado contra as ordens ou instruções do representado.
Artigo 9.º - (Responsabilidade das pessoas colectivas)



Mas vamos colocar a hipótese que alguém intenta um processo a um online por difamação. A questão agora é saber em que Comarca deverá ser julgado o caso pois que o comentário poderá ser feito em qualquer ilha ou país, o que coloca algumas dificuldades em aplicar o Título I - Garantias e Aplicação da Lei Penal:


O facto considera-se praticado no lugar em que, total ou parcialmente, e sob qualquer forma de comparticipação, o agente actuou, ou, no caso de omissão, deveria ter actuado, bem como naquele em que se tenha produzido o resultado típico, ou aquele resultado que, não sendo típico, o legislador quer evitar que se verifique.
Artigo 5.º - (Lugar da prática do facto)

Salvo convenção internacional em contrário, a lei penal caboverdeana é aplicável a factos praticados em território de Cabo Verde ou a bordo de navios ou aeronaves de matrícula ou sob pavilhão caboverdeano, independentemente da nacionalidade do agente.
Artigo 3.º - (Aplicação no espaço: princípio geral) 


Comentários Anónimos? Nem por isso...
Agora vamos falar deste “suposto anonimato” que pensas ter ao escreveres o teu comentário. Se achas que é só sentares na frente do computador e mandar bocas porque nunca ninguém vai chegar até ti, o melhor é pensares duas vezes ou então mudares de estratégia. 


Explico: quando fazes um contrato de internet com a CVMultimédia recebes um router (que terás uma vida inteira para pagar se o alugares). Esse router traz consigo um endereço IP que é único e está associado a cada contrato, por conseguinte, a cada pessoa ou entidade que foi “obrigada” a aderir a este serviço caro e lento. Por exemplo, o meu endereço IP é 192.168.1.66, logo, qualquer comentário que eu faça fica com este número guardado junto com ele na base de dados do online. É isso mesmo, eu sei porque já moderei comentários em dois onlines. E não são só comentários, cada click que dás na Internet fica guardado o IP (nos sites de desporto, pornografia e Facebook incluídos) e não existe isso de navegares sob anonimato. Claro que há formas de navegar com o endereço IP mascarado, mas isto já exige outros conhecimentos informáticos.


Pode dar-se o caso de teres a sorte de ter um contrato de Internet com a CVWi-Fi - Internet Sem Fios (no Mindelo). E isso é bom porquê? Porque a CV Wi-Fi usa um sistema diferente e com claras desvantagens para os clientes: em vez de ter um endereço IP associado a cada contrato, todos os usuários partilham o mesmo endereço IP da empresa (eu sei porque já fui cliente mas desisti e essa foi uma das principais razões, juntamente com a lentidão do serviço. Como já tinha explicado, os sites guardam o teu IP e no caso dos sites de download eles não deixam o mesmo IP fazer duas descargas de ficheiro ao mesmo tempo. Logo, se um cliente CV Wi-Fi estiver a fazer um descarga no site naquele momento, eu teria que esperar vários minutos para poder fazer o meu). A vantagem é que quando fazes o comentário, fica gravado o IP da empresa e não o teu individual. 


Claro que sempre podes ir para um ciber-café e mandar umas bocas sem te preocupares.

Agora responda-me: quantas vezes já comentaste de forma anónima?



29 de junho de 2011

“Nada me escapa” - Manuel Figueira

Manuel Figueira
Manuel Figueira, um dos nomes maiores das artes plásticas do arquipélago, somente em Novembro de 2009 fez sua primeira exposição individual organizada em Cabo Verde. Avesso às novas tecnologias (não tem computador nem telemóvel) foi o autor do cabeçalho do Jornal Artiletra, criando as letras a mão. O artista regressou a Cabo Verde em 1975 com a intenção de dar a sua colaboração no desenvolvimento no campo cultural, em especial da cultura popular e hoje é representado pela Perve Galeria em Portugal.

Como foi parar em Lisboa para estudar Belas Artes?
Isso só aconteceu por causa da minha habilidade que se revelou desde muito cedo na escola. Mas porque meu pai não estava muito interessado em que eu estudasse Artes, o Dr. Baltasar Lopes teve que fazer certa pressão sobre ele para que permitisse a minha saída para Lisboa. Isso porque não havia esta tradição de sair para estudar Belas Artes. Prestei prova aqui e parti com vinte um anos. A viagem foi num dos barcos que regularmente passavam por Cabo Verde a caminho de Portugal e Brasil.

Porquê somente em Novembro de 2009 fez a sua primeira exposição individual em Cabo Verde?
Isso aconteceu a convite de Ana Cordeiro do Centro Cultural do Mindelo (CCM) que financiou tudo. Foi feita na Galeria ZeroPoint Art, talvez a primeira galeria privada em Cabo Verde. Se fosse por iniciativa própria, para fazer os contactos com o Alex Silva, dono da galeria, todas as despesas estariam por minha conta e eu não tenho disponibilidade como artista para suportar tantas despesas.

As suas pinturas da década de 60 são quase totalmente influenciadas pela sua vivência em Lisboa?
Tenho Portugal como temática de alguns dos meus trabalhos feitos nos anos sessenta. Alguns são de carácter político, relativamente ao regime político colonial. A partir de determinada altura em Portugal comecei a fazer desenhos de carácter satírico. Mas, antes de partir para Portugal já desenhava a partir da rua, ao natural: pescadores e arredores da cidade. Continuei a fazer desenhos tendo Cabo Verde como temática. Existem trabalhos meus desta época expostos lá na Perve Galeria. O hábito de desenhar ao natural na rua levei-o de cá.

Pintura de Manuel Figueira
Porquê o Capitão Ambrósio foi motivo de tantas pinturas suas?
Depois do 25 de Abril encontrei-me com o Gabriel Mariano, grande poeta, em Lisboa na Casa de Cabo Verde. Nessa altura já conhecia o disco Long Play (LP) Unidade e Luta do PAIGC, onde havia vários poemas ditos por diversos cabo-verdianos. Um dos poemas era o Capitão Ambrósio. Baseado nesses poemas fiz uma série de desenhos-testes relacionados com o momento de luta de libertação de Guiné e Cabo Verde e o Capitão Ambrósio era um deles.
Esses quadros fazem parte da minha faceta revolucionária. Eu fui politizado por um indivíduo chamado Abílio Monteiro Duarte, um cabo-verdiano que trabalhava no Banco Nacional Ultramarino, na Guiné-Bissau. Ele mesmo foi um politizado por Amílcar Cabral. Depois de deixar o seu trabalho no Banco, Abílio veio para o Liceu em São Vicente para fazer um trabalho político no seio dos jovens da ilha. Em finais dos anos cinquenta alguém deve ter indicado meu nome à ele por causa da minha habilidade. O Abílio também era uma pessoa habilidosa e é através dessa habilidade que ele fazia a aproximação dos jovens que gostavam de desenhar. Ele fazia uma lista das temáticas que devíamos abordar quando saíssemos à rua: Ribeira Bote, Monte Sossego, Praia de Bote, Mercado de Peixe. Somente temas de carácter popular. Esta consciência política vem dessas actividades de iniciação nas artes plásticas.
Só para teres uma ideia de como éramos controlados, há tempos, a investigadora Ângela Coutinho disse-me que foi à Torre do Tombo, onde estão todos os documentos históricos de Portugal, e encontrou entre os documentos da polícia secreta portuguesa (PIDE) que ‘em nenhuma circunstância Manuel Figueira pode regressar a Cabo Verde’.
Durante o regime de partido único em Cabo Verde tinha uma polícia política muito parecida com o português que tentava enrascar-nos a vida e fazia picardias que não era brincadeira. Nunca fui preso mas eles nos tinham debaixo do olho e meu filho, Sérgio Figueira, foi preso pela polícia pidesca em São Vicente enquanto eu estava na ilha de Santiago.
Em finais dos anos noventa eu e a minha mulher saímos do Centro Nacional de Artesanato (CNA). Em 1991 o PAIGC cai do poleiro, mas depois veio o MPD e eles vieram fazer coisas parecidas às do PAIGC. Quando, passados dez anos, o MPD caiu então reconquistámos o espaço do Centro de Artesanato e colocamos aquilo em ordem. Propomos que a casa se chamasse Senador Vera Cruz e dona Olívia Feijoó enviou-me de Lisboa uma fotografia do Senador Vera Cruz, que está lá no CNA. Entretanto, depois de conflitos com o PAICV acabamos por sair.

Manuel Figueira no seu atelier
Nas suas viagens de investigação pelas ilhas o que mais o marcou?
Enquanto director do Centro de Artesanato, a ilha que mais visitei foi Santiago, mais propriamente o interior da ilha. A cidade da Praia era pacata, diferente desta turbulência de hoje em dia mas era somente um local de passagem. O meu interesse estava no interior de Santiago pois lá é que habitava uma cultura popular forte. Foi através das visitas à ilha que conheci o sr. Damásio. Ele foi o maior tecelão que já existiu em Cabo Verde. Criador de vários panos que eram usados na sua maioria pelas mulheres na cintura ou no ombro. Eram panos com um orifício mágico, para consumo popular. Nós é que viemos trazer para o conhecimento público, por via erudita, o trabalho que ele desenvolvia. Eu sempre me referia ao sr. Damásio como meu mestre, e não era fingimento porque eu estava encantado com a tecelagem de Cabo Verde. Aprendi todos esses pormenores do sr. Damásio e fiz várias tecelagens. Ele foi com certeza, uma grande descoberta. Por duas vezes ele esteve em São Vicente a convite do Centro de Artesanato e ficava em minha casa porque éramos amigos.

O que é isso de orifício mágico?
Orifício Mágico, segundo me foi explicado pelo sr. Damásio e outras pessoas – porque eu procurava saber todos os pormenores – é aquilo que todos os panos feitos no interior de Santiago têm ao serem costuradas em seis bandas e que há uma parte que não é costurada. Perguntei ao sr. Damásio o porquê e ele respondeu-me “é pa ca morri”, ou seja, tem uma função mágica de proteger a mulher que usa o pano. Quem não sabe não irá notar aquilo. Isto é de tal forma interessante que inspirou-me um poema e um quadro.

Dos alunos formados no Centro Nacional de Artesanato, quem mais se destacou?
O João Fortes era um dos elementos mais habilidosos, principalmente na tapeçaria. Os jovens eram formados no CNA e os que tinham mais qualidade ficavam lá trabalhando. Estipulamos que lá seria um centro de investigação mas também uma escola. Eu tinha experiência que trazia de Portugal como professor de Educação Visual, assim como a minha mulher Luísa Queirós e a Bela Duarte.

Pintura de Manuel Figueira
Porque não volta de novo ao Centro Nacional de Artesanato?
Não colocámos os pés lá outra vez. Nós tínhamos colocado aquilo tudo em ordem para dar continuidade naquilo que tinha sido parado. Eu pessoalmente não coloco os pés lá. O Centro de Artesanato foi criado por mim, minha mulher e Bela Duarte. Já não me interessa ir lá para saber como está o local. Já é demais. Ficamos com pena, mas para voltar lá e falar sobre Cultura em São Vicente ou outros nhé, nhé nhés, já não fica bem. Quem quiser que fale, mas eu já estou um pouco enjoado. Agora deixem-me aqui fazendo o meu trabalho pessoal.    

Quem é esse Nhô Griga que aparece em tantas pinturas suas?
Conheci-o em São Vicente através de uma aluna minha do Liceu. Era um senhor de Santo Antão que morava em Fonte Francês e que fazia tecelagem. Foi a primeira fez que entrei em contacto com um tecelão tradicional de Cabo Verde. Nhô Griga está relacionado com uma determinada visão política de Cabo Verde, mas isso é muito mais tarde porque só venho a conhecer Nhô Griga em 1975. Tudo isso é devido à ideia de independência de Cabo Verde. Essa ideia nunca faltou-me.

Porquê muitos dos seus quadros representam pessoas em situações caricatas?
Não tenho nenhum preconceito moral em relação a essas coisas. Se passo e vejo um indivíduo urinando na rua e como nada me escapa, tomo apontamento ou então faço de memória, pois muitos dos meus trabalhos são feitos de memória. Quando vejo alguém nessa situação, não paro logo observando a pessoa a defecar ou urinar mas guardo no meu arquivo mental. O desenvolvimento dessa temática está relacionada com um certo humor, mas também é uma forma de dizer que algo não está bem na nossa terra. Digamos que não vejo isso de uma forma tão simplista.

Como começa o seu processo de criação de um quadro?
O processo de criação de um quadro está relacionado com tudo. No meu caso não está restrito somente ao campo da visão. Como ponto de partida pode ser uma conversa que escuto na rua ou em casa. Não me limito somente à imagem de figuras de pessoas e animais. Para não esquecer-me trago sempre papel no bolso para tirar meus apontamentos. É a partir de uma conversa, de uma posse de uma pessoa dormindo ou então da observação dos barcos que estão apodrecendo no mar ou de qualquer outra coisa que nascem meus quadros porque eu não nego nenhuma influência. Não coloco limitação às minhas fontes de inspiração.

Como surgiu o convite para criar o cabeçalho do Jornal Artiletra?
Depois de algumas visitas ao meu Atelier, surgiu o convite da Larissa Rodrigues para fazer o cabeçalho do Jornal Artiletra. Como não tenho computador, as letras foram feitas à mão depois de consultar cadernos de caligrafia e catálogos de letras. A partir dali fiz a minha criação do cabeçalho que foi feito para o primeiro número.

Como se define enquanto artista?
Pintura de Manuel Figueira
Sou um artista que tem como faceta bastante forte a observação acerca daquilo que acontece ao ar livre. Tenho uma amiga que diz que eu não deixo nada escapar. Quando estou na rua presto atenção a tudo o que acontece. Isto é uma característica que vem dos primórdios da minha carreira. Tudo o que faço relaciona-se com essa palpitação popular e de rua e não só, evidentemente. Meus trabalhos estão muito ligados ao meio ambiente. Mas a minha observação não se limita às pessoas. Também observo os animais, por exemplo, porque nada me escapa.


Como é feito a compra ou encomenda de seus quadros?
Eu praticamente não faço quadros por encomenda. Não goste que as pessoas me digam para fazer isto ou aquilo. As pessoas visitam e como aqui funciona como uma galeria, se estiverem interessadas podem comprar. Um ponto muito importante, eu não tenho a preocupação de fazer muitas vendas porque eu fui professor de Liceu, depois fui transferido para o CNA e sou reformado como professor e esta reforma permite-me estar à vontade e não ter afronta para vender quadros. De maneira que a minha criação, dito em bom crioulo, é na descontra.

Os quadros já têm todos os preços definidos?
Eu faço um cálculo mais ou menos dos preços dos meus quadros. Porque faço exposição fora do país, tenho uma noção dos preços praticados no estrangeiro. Tenho quadros expostos na Galeria Perve, fiz exposição na Ilha da Madeira e na Holanda, por exemplo. Eu sempre escuto o preço que artistas plásticos como Alex da Silva, o meu irmão Tchalê Figueira ou que a minha mulher Luísa Queirós pedem por seus quadros para poder situar a minha pessoa.

Em Cabo Verde existe um grupo de artistas que podem ser considerados uma elite?
Esta é uma questão melindrosa. Eu tenho feito exposições no exterior, Luísa Queirós, Bela Duarte, meu irmão Tchalê Figueira e Alex da Silva também têm feito. Isto dá para perceber qualquer coisa.

Acha que há uma certa dificuldade dos jovens artistas aproximarem-se dos considerados elite?
Você lhes chama de artistas? Talvez lhes chamava pessoas com certa habilidade. Acho que a palavra artista é um pouco mais cara. Dentro desse campo de artesanato podemos falar de um artesanato para turista ou um artesanato de aeroporto. Depois temos um artesanato mais artístico e de qualidade. Penso que se faz um trabalho mais virado para o turista e o estrangeirado. Quando ele era feito a serviço da comunidade ou para o seu próprio consumo, podia-se encontrar coisas de grande qualidade artística e de valor.

Como vê o panorama actual das artes plásticas em Cabo Verde?
Pintura de Manuel Figueira
Talvez seja preciso fazer uma retrospectiva da situação até chegar ao presente, porque a questão em Cabo Verde é um pouco complicada. Temos um público que não tem capacidade de compra. Um dos habilidosos que conheci na altura que estava no Liceu foi Pedro Gregório, arquitecto que vivia na Praia. Ele não desenvolveu a sua habilidade mais porque era arquitecto mas é um indivíduo a considerar. Mitú é uma das pessoas que se pode considerar de facto como artista.
A nível de São Vicente, tem Alex Silva, tem Bela Duarte, Luísa Queirós, tem eu próprio, não vou fingir que não existo porque trabalho todo dia, tem o meu irmão Tchalê. Daqueles que ensinamos no CNA tem o João Fortes. Mas a caminhada é um bocado difícil porque não temos um público erudito cabo-verdiano para sustentar em termos quantitativo, algo fundamental também. Isso porque o nosso ensino não estimula a arte fazendo com que sejamos completamente secos, áridos em termos de estímulo. É uma calamidade.    

Porquê mudou o seu atelier da Rua de Praia para a zona de Monte Sossego?
Eu e a minha mulher, a Luísa Queirós, partilhávamos o mesmo atelier na Rua de Praia onde eu ainda tenho alguns trabalhos. Eu é que decidi vir para aqui porque mudamos de casa e o atelier já não tinha espaço suficiente e como não queríamos alugar ou vender esta casa resolvi fazê-lo meu novo atelier. Assim eu e a minha mulher podemos ficar mais à vontade e é melhor um certo afastamento em termos criativos.

Como as pessoas podem encontrar seu atelier agora?
Tenho obras no Café Lisboa (Mindelo) e se as pessoas perguntarem ao Alberto, dono do bar, ele pode trazê-los cá ou indicar-lhes o caminho.

Publicada (também) na Revista/Jornal Artiletra N.º 109 - Março/Abril 2011



26 de junho de 2011

Maria Zinha realiza cinema numa cadeira de rodas no Mindelo

Maria Zinha
Maria Zinha Miranda Andrade é uma mindelense de garra. Formada em rádio e televisão, ela sempre teve o bichinho do cinema dentro de si e foi esta uma das razões que a levaram a inscrever-se no curso de pós-graduação em Cinema do M_EIA. Uma experiência que levou ao fim, com 20 valores, apesar de presa a uma cadeira de rodas.




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Na sua cadeira de rodas e durante os meses em que decorreu a formação, Zinha - como é mais conhecida -, precisou de ajuda para chegar à sala de aula. No fim, terminou o curso com distinção. “Sempre gostei de cinema e desde pequena que sou apaixonada pelo sétima arte”, diz Maria Zinha Andrade que fala dos tempos em que pai e o avô a levavam de mãos dadas para assistir as exibições no grande ecrã.

O curso de pós-graduação que formou Maria Zinha decorreu no Mindelo durante quatro meses e foi realizado no Instituto Universitário de Arte Tecnologia e Cultura (M_EIA). Esta pós-graduação não seria motivo de grande interesse se Maria Zinha não estivesse numa cadeira de rodas e não tivesse passado durante todo esse tempo a subir e a descer as longas escadas que dão acesso ao M_EIA, no piso superior onde outrora funcionou o Liceu Jorge Barbosa (Liceu Velho).

“Fiz esta pós-graduação em grande parte por causa da boa vontade dos meus colegas e pessoas do M_EIA”, diz Maria Zinha em reconhecimento da ajuda que recebeu de todos os que se dispuseram para, todos os dias, subirem e descerem as escadas com ela na cadeira de rodas. “Se não fossem eles, eu realmente não teria conseguido. Foi por causa da boa vontade dos meus colegas é que me empenhei mais”.


CUMPLICIDADE MASCULINA

Durante o tempo em que durou o curso, três homens carregavam-na escada acima e depois outros três faziam o percurso inverso, sempre homens, porque, apesar das mulheres também se oferecerem, diz sorrindo a nossa realizadora, que “enquanto houver força masculina, vamos preservar as nossas mulheres”.

Mas o reconhecimento também vem da direcção daqueles que acompanharam esta amante do Cinema durante o curso. É o caso de Celeste Fortes, coordenadora-executiva do curso, que fala de um empenho extraordinário de Maria Zinha, “tanto pelo esforço físico como pela sua entrega diária” nas aulas e nas actividades do curso. “A presença de Maria Zinha trouxe-nos a todos a certeza de que os objectivos e as metas pessoais que desejamos alcançar depende em grande parte da nossa capacidade de entrega e dedicação ao trabalho”, releva Fortes.


PROBLEMAS DE ACESSO

Maria Zinha partiu para o Brasil em 1975 e por lá passou 15 anos. Trabalhou no jornal Folha de São Paulo e na Rede Globo de Televisão e hoje enfrenta grandes dificuldades para integrar-se na área da Comunicação Social (CS) na sua ilha por uma razão muito simples: dificuldade de acessibilidade nos edifícios onde funcionam os media em São Vicente. “A maior dificuldade são as escadas”, aponta com alguma tristeza ao notar que todos os prédios têm escadas e não têm outra forma de acesso. 


DISTINÇÃO

“Ainda estou para descobrir o que fazer com o curso. Estou numa espécie de fase de maturação antes de decidir”, diz Zinha, sorrindo. “O curso foi mais do que aquilo que estava à espera porque uma coisa é gostar de Cinema e outra bem diferente é conhecer a linguagem do Cinema, os planos e a forma de sincronizar uma trilha sonora. Gostei muito!”, remarca Zinha.
Para o trabalho de final de curso, Maria Zinha escreveu o roteiro e realizou um documentário sobre a Igreja de Nossa Senhora da Luz e também sobre toda a movimentação que se vive à volta dela. Diz que recebeu boas críticas mas na autocrítica procurou ser um pouco mais dura. “Penso que ficou bem mas acho que poderia ter ficado melhor porque uma pessoa nunca deve ficar satisfeita com o seu trabalho”.
Sobre os planos futuros, Maria Zinha diz não ter nada na forja, para além de tentar conseguir um trabalho. Quando já me preparava para sair do Instituto, Maria Zinha diz-me feliz que terminou o curso com a nota de 20 valores.


O CURSO

O curso de pós-graduação em Cinema e Audiovisual, o primeiro realizado pelo M_EIA, começou a 21 de Janeiro e terminou a 21 de Maio. Nele participaram 21 alunos: 16 de Cabo Verde, um de Portugal, um do Brasil, dois de Moçambique e um do Senegal. Todos puderam durante o curso conhecer quase todas as áreas do cinema e do audiovisual, desde a dramaturgia e roteiro, passando pela música e animação/story board.

“Foi um curso intenso que ficará na história da educação e do cinema em Cabo Verde”, afirma Celeste Fortes. Isto porque, por um lado, por ter sido o primeiro com um nível elevado de internacionalização, na medida em que com excepção de Leão Lopes, todos os outros 15 professores vieram do Brasil, em resultado de o curso ter sido uma parceria entre o Ministério da Cultura do Brasil, através da Fundação Palmares, e o M_EIA. O curso foi aberto a alunos provenientes de outros países, que compõem a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e com os quais Cabo Verde mantém relações de trocas culturais.


Publicada (também) no jornal A NAÇÃO 

25 de junho de 2011

Jogo de mátis: risos e boa pontaria

Como todo jogo infantil, o jogo de mátis só tem piada se for jogado com um grupo de amiginhos e aos gritos e gargalhadas:
 




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- Isgá, Kaya... – grita Heliane com as mãos na cintura – Isgá, isgá, ome.

- Mi ek picá – diz Heliane enquanto joga sua bolinha de vidro com uma bandeira de merca no seu interior.

- Bo que picá nada porqué fui cú d’baca.

- Ah, dutch... Jam tem primera – Kaya berra feliz depois de finalmente ter conseguido colocar a bolinha de mátis dentro do buraco escavado na terra batida – agora um te bem dob buleia, Andreia.

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- Oiá um canhão de Kaya – grita Andreia inconformada – um canhão du diatch. Bo ê macaca, Kaya.

- Ê lá que bola tava – defende-se Kaya e vai logo jogando.

- MA-CA-CAÁ – soletra Andreia no ouvido da Kaya.

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- El ca dá – grita Heliane no meio da confusão de gargalhadas...

- El dá – berra Kaya com as duas mãos nas ancas.

- El ca dá.

- El dá.

- Bo ê bom rebiquenta, Kaya... tud gente oiá que el ca dá...

- Agora ê mi... – avisa Andreia antes de jogar sua bola preta de mátis improvisada de um totô para amarrar cabelo.

- Se bo bem prei um te matob porque jam tem mátis – desafia Kaya tentando enganar sua amiginha que não vai na conversa.

- Bo lofa? Ainda bo catem nem tercera.

- Bo sabe que mi ê fisga e ess ê nha bola de trinca – diz Kaya apontando sua bola de fibra.

Dentro de pouco tempo, com as canelas e os cabelos cheios de terra, o jogo acaba porque uma bola desapareceu no meio da confusão e agora está cada uma culpando a outra para decidirem quem é a mais macaca. Amizades de infância...



 
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