Este artigo está dividido em partes para ser melhor compreendido. Esta é a parte número QUATRO de cinco partes. Para ver os outros capítulos, seleccione:
O “Novo Espiritualista Africano” é uma filosofia espiritual que procura conhecer as necessidades espirituais e filosóficas da raça negra bem como providenciar o embasamento teológico e mitológico sobre factos históricos e leis universais(7). Com isso apresenta um discurso centrado na negritude e na superioridade da raça negra e na identificação do homem branco como símbolo do mal:
“No Génesis, nos capítulos 6 até o 10, é registada a história de Noé e o dilúvio. De acordo com esta narração, Noé teve três filhos, Ham, Shem e Japeth. Depois do dilúvio, os descendentes de Noé repovoaram a terra. Muitos académicos acreditam que Ham foi o responsável pelo ressurgimento da África, Shem, da Ásia e Japeth da Europa. Japeth teve sete filhos e sete netos. Estes desenvolveram o que na antiguidade era conhecida como “Ilhas Pagãos” – hoje a Europa, Rússia, Sibéria, etc...
Os descendentes de Japeth desenvolveram a que hoje é conhecida como raça caucasiana. As histórias deste povo o revelam como a última expressão do mal. A bíblia fala especificamente de três destes filhos, Magog, Meshech e Tubal, como sendo a personificação de Satanás. Nos tempos bíblicos, quando Deus punia os maldosos, Ele amaldiçoou com a lepra, uma doença que faz a pela mudar de um negro saudável, para um branco morto. Uma vez castigado por esta doença o indivíduo era declarado impuro. Em muitas comunidades africanas, as pessoas que mostravam esta brancura (sintomas) eram postas à morte; pois era acreditado que qualquer um com a pele pálida era o diabo. Através de um minucioso exame da bíblia e da história, nós encontramos que Deus criou o homem a sua própria imagem negra, mas o homem branco se desenvolveu a partir de um aborto da história e de um acidente da natureza. Pois desde a sua concepção, eles têm vivido mais como demónios do que como homens.
Como esse espírito do mal se desenvolveu e se manifestou através da raça caucasiana, é graficamente ilustrado na bíblia, nas histórias de Caim e Abel, em Noé e o dilúvio e no incidente da torre de babel. Nos tempos modernos, a pavorosa doença da lepra é manifestada não só na carne, mas também na mente. No caso dos companheiros negros, a mentalidade branca pode ser curada através do Espírito da Libertação Negra e de uma devotada aderência aos divinos princípios da Lei Negra.”
Rev. Ishakamusa Barashango(8)
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(7)Barashango, Rev. Ishakamusa, Deus, a Bíblia e o destino do Homem Negro – um tesouro de fatos bíblicos, históricos e científicos, Bannneker City (Washingthon D.C.), Setembro 1970, p. I
(8)Idem p. 37
O texto, de carácter religioso, pretende demonstrar que a raça negra é a raça escolhida e descendente directa do próprio Deus, que também é negro:
“Deus, a própria existência, eterno, divina, inteligência, que criou e mantém através de seu grande poder todas as coisas no universo, é negro.”(9)
Porque será importante para essa doutrina caracterizar Deus quanto a cor? Uma das razões poderá ser que, ao se identificar o negro com o ser superior e criador, ele se sente mais valorizado e mais receptível à doutrina:
“Alguns podem dizer que realmente não importa qual é a cor de Deus ou como Ele se parece, ou que eles nunca pensaram nele como tendo uma cor. Então porquê os profetas da bíblia mencionaram isto e porquê as pessoas antigas o pintaram e esculpiram como um negro africano? .”(10)
O autor, na sua ânsia de persuadir, faz uso tanto de fontes sagradas (a Bíblia), como de fontes seculares (pessoas antigas), numa tentativa de demonstrar que as evidências da superioridade negra encontram-se em toda a parte. Ao apresentar fontes tidas como credíveis para sustentar o discurso, o autor pretende levar-nos a acreditar que o próprio discurso é credível. Essa táctica discursiva é usada em ambos os movimentos filosóficos.
Numa posição completamente oposta encontra-se a filosofia da Igreja Mórmom, que apresenta a cor negra não como um sinal de superioridade, mas como um sinal de maldição imposta pelo próprio Deus. É de se notar que os discursos apesar de agressivos e degradantes para a raça negra, procuram sempre o amparo de que essas restrições foram impostas pela divindade e que por isso devem ser acatados como verdades intocáveis. Partindo do pressuposto de que quanto mais confiável for a fonte, consequentemente, mais confiável será o discurso, essa filosofia usa o próprio Deus como testemunha para justificar a sua posição quanto ao homem negro:
"Você vê alguns grupos da família humana são negros, desajeitados, feios, desagradáveis e baixos em seus costumes, selvagens e aparentemente sem a bênção da inteligência que é normalmente dada à humanidade. O primeiro homem que cometeu o odioso crime de matar um de seus irmãos foi amaldiçoado por mais tempo do que qualquer outro filho de Adão. Caim matou seu irmão. Caim poderia ter sido morto e isto teria findado aquela linhagem de seres humanos. Mas não era para ser assim, e o Senhor pôs uma marca nele, que é o nariz chato e a pele negra.."
Brigham Young(11)
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(9)Barashango, Rev. Ishakamusa, op. cit. p. 01
(10)Idem p. 01
(11)Segundo Profeta e Presidente da Igreja Mórmon, Journal of Discourses (Jornal de Discursos), volume 7, páginas 290-291
Atenta-se que o texto é produzido numa época em que o negro procurava libertar-se do jugo branco. Essa opressão de que o negro sofria precisava de uma justificação e quando poderia estar esgotado as justificações antropológicas, sociais, económicas ou outras, ainda restava a religiosa, tão ou mais poderosa do que as outras. Isto porque a História ensina que a religião sempre serviu de pretexto para justificar a exploração do homem sobre o homem. E que melhor forma de o justificar do que apresentar o negro como alvo da ira de Deus, por outras palavras, um ser inferior?
Num contexto social em que a relação humana justificaria uma outra forma de estar, baseado no ensinamento de Cristo de que todos os homens são iguais, os crentes poderiam perguntar-se do porquê da segregação do negro, mas tendo sido uma punição de Deus, tornava-se justificável:
“Quem colocou os negros originalmente na mais escura África? Foi algum homem, ou foi Deus? E quando Ele os colocou ali, Ele os segregou (...) O Senhor segregou o povo tanto quanto ao sangue, como ao lugar de residência.
Pelo menos no caso dos Lamanitas e dos negros nós temos a palavra definitiva do próprio Senhor, de que ele colocou sobre eles uma pele escura como uma maldição – como uma punição e como um sinal aos outros. Ele proibiu que outras raças se casassem com eles sob a ameaça de extensão da maldição (...) E Ele certamente segregou os descendentes de Caim quando Ele amaldiçoou o negro para o Sacerdócio, e os separou dos outros de maneira absoluta. Você poderia até dizer que Ele baixou uma cortina de ferro ali. O negro foi amaldiçoado para o Sacerdócio, e portanto, foi amaldiçoado para as bênçãos do Sacerdócio. Certamente Deus fez segregação ali”.
Mark E. Petersen(12)
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(12)Membro do Quorum dos Doze Apóstolos da Igreja Mórmon, Race Problems – As They Affect the Church (Problemas Raciais – Como Eles Afetam a Igreja), [palestra realizada na Universidade Brigham Young].
A doutrina do “Novo Espiritualista Africano” que procura demonstrar que a cor negra é sinónimo de algo positivo:
“Contrário ao que nos foi ensinado pelo opressor, o preto não é a cor que representa o mal; mas a cor que representa o bem. Pois o mundo foi criado da escuridão [...] Pois é na escuridão e na negritude onde estão a quietude, a paz, a serenidade e a tranquilidade...”(13)
Encontra uma forte oposição na doutrina que professa que o negro é o resultado da desobediência dos anjos perante Deus e como tal representantes do mal:
“Existe uma razão para um homem nascer preto e com outras desvantagens, enquanto outro nasce branco com grandes vantagens. A razão é que, antes de virmos para cá, vivemos em outro estado, onde fomos mais ou menos obedientes às leis lá recebidas.
Os que lá foram fiéis em todas as coisas receberam bênçãos maiores aqui, e os que não o foram, receberam menos (...) Na guerra nos céus, não houve nenhum neutro. Todos tomaram partido, fosse com Cristo ou com Satanás. Todo homem teve seu arbítrio lá, e aqui os homens são recompensados de acordo com suas acções lá, exactamente como receberam recompensas no mundo vindouro pelos feitos quando na carne. A raça negra, evidentemente, está recebendo o galardão que merece”.
Joseph Fielding Smith(14)
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(13)Barashango, Rev. Ishakamusa, op. cit. p.
(14)Décimo Profeta e Presidente da Igreja Mórmon, Doutrinas da Salvação,
volume I, páginas 67, 73
Em oposição directa, não parece ser possível encontrar qualquer ponto de convergências entre essas duas doutrinas. Com o “Novo Espiritualista Africano” a alegar que o branco é a raiz do mal:
“Antes de Deus fazer o homem, Ele criou um planeta rico e abundante [...] O povo era sábio, belo e negro. A pergunta é feita aqui: O que aconteceu? [...] Eventualmente um estranho contratempo ocorreu, criando a raça caucasiana (a quem a bíblia se refere como os pagões). Conforme essa criatura animal começou a sair das cavernas da Europa, ele trouxe com ele formas extremamente diabólicas de luta (...)
Nos tempos antigos, no leste, na África e em outras partes da Europa, a cor branca era usada para representar o diabo, a morte e os espíritos malignos. E a cor preta era usada para representar a santidade e a imagem de Deus. Com a chegada do homem branco estas verdades foram completamente adulteradas e distorcidas.
O homem negro, com a sua misericórdia e seu amor por Deus, buscou civilizar esta desprezível criatura e fazer dele um irmão. Mas este animal das cavernas europeias abusou da hospitalidade do homem negro [...] Então esta besta traiu e enganou o povo africano, levando-o a mais horrível forma de escravidão jamais conhecida”(15)
E a Igreja Mórmom a alegar no seu discurso que superioridade da raça branca é justificável divinamente e que não caberia aos homens mudarem uma decisão do Senhor. Dessa forma é possível justificar a incongruência da doutrina que ensina que todos os homens são iguais perante Deus e a prática que nega os privilégios do Sacerdócio às pessoas de pele negra:
“Não somente Caim foi condenado a sofrer, mas por causa de sua maldade ele se tomou o pai de uma raça inferior. Uma maldição foi lançada sobre ele, e esta maldição tem continuado através de sua linhagem, e continuara assim enquanto tempo existir. Milhões de almas tem vindo a este mundo amaldiçoadas com uma pele negra, e têm sido negadas o privilégio do Sacerdócio e a plenitude das bênçãos do Evangelho. Estes são os descendentes de Caim. Alem disso, eles foram forçados a sentirem sua inferioridade, e têm sido separados do resto da humanidade desde o começo (...) nós também esperamos que bênçãos possam, eventualmente, ser dadas aos nossos irmãos negros, pois eles são nossos irmãos—filhos de Deus—apesar de suas peles negras, símbolos de eterna escuridão”.
Joseph Fielding Smith(16)
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(15)Barashango, Rev. Ishakamusa, op. cit. p. 29
(16)Décimo Profeta e Presidente da Igreja Mórmon, The Way to Perfection,
páginas 101-102
A fazerem uso de um discurso extremamente forte, estas doutrinas tentam demonstrar que o outro é que é sinónimo do mal e que eles são os escolhidos:
“... O diabo que agora é retratado como negro, já foi retratado como branco. Quando o homem negro dominava o planeta, ele pintou as forças do mal como brancas. Quando os brancos vieram ao poder, eles mudaram a cor, mas mais tarde, por volta de 1500, os etíopes ainda pintavam seus deuses e heróis como negros, e seus vilões e demónios como brancos...”(17)
“(...) após o dilúvio, nós aprendemos que a maldição pronunciada sobre Caim foi continuada através da esposa de Cão, pois ele tinha se casado com uma mulher daquela descendência. E por que a semente de Caim foi preservada durante o dilúvio? Porque era necessário que o diabo tivesse um representante na terra assim como Deus”.
John Taylor(18)
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(17)Barashango, Rev. Ishakamusa, op. cit. p. 39
(18)Terceiro Profeta e Presidente da Igreja Mórmon, Journal of Discourses (Jornal de Discursos), volume 22, página 304