8 de junho de 2011

Superioridade Racial: Contexto Histórico

Este artigo está dividido em partes para ser melhor compreendido. Esta é a parte número TRÊS de cinco partes. Para ver os outros capítulos, seleccione:



Black Power Salute

Com a sociedade americana a atravessar uma forte tensão racial, os negros procuravam formas de se afirmar tanto ao nível social como cultural e religioso, mas encontravam uma grande oposição que provinha não só do homem branco mas também do próprio homem negro. Sendo assim, era necessário cativar o negro, restaurá-lo o orgulho e “convencê-lo” de que era realmente superior, diferentemente daquilo que lhe tinha sido inculcado durante séculos de dominação branca. Afirmar que o preto era igual ao branco não bastava. De forma a angariar mais adeptos, a filosofia do “Novo Espiritualista Africano” tinha de apresentar o negro como uma raça superior.

“Nos Estados Unidos, a crescente mobilização da juventude pobre branca, arrastada à força para a carnificina imperialista, convergia, alimentava-se e alimentava a ruptura já iniciada, nos anos anteriores, com a organização e radicalização da luta pelos direitos civis, por importantes setores da comunidade negra estadunidense, que desvelaram diante dos olhos do mundo a hipocrisia da pretensa democracia social e política estadunidense, sob a vigência plena do capitalismo.(5)

Porque as pessoas mostravam uma tendência para se afastarem das coisas espirituais, o teor do discurso teria de ser forte para que a mensagem pudesse levar o receptor a mudar de comportamento. 

“O ano de 1968 seria o de menor vocações sacerdotais no século 20. Sem interesse e necessidade de olhar, por frustração e desespero, para as coisas do céu e do além, o homem e a mulher, transcendidos pelas possibilidades que viam abrir-se diante de si, voltavam-se desbordando de confiança para o mundo material e espiritual terreno do aqui e do agora.”(6)

O livro, de onde é retirado o discurso, só veria a luz do dia em 1970, oito anos antes da mudança de discurso da Igreja de Mórmom que apresentava o negro como uma raça amaldiçoada por Deus e, portanto, inferior. Por essa razão a intertextualidade é feita com base no confronto dessas duas filosofias distintas.

  
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(5)Maestri, Mário, O Sentido Histórico de 1968, (Junho de 2008), disponível na Internet via http://www.espacoacademico.com.br/085/85maestri.htm Acedido em 1 de Junho de 2009
(6)Idem


Superioridade racial: Justificativas Discursivas


Este artigo está dividido em partes para ser melhor compreendido. Esta é a parte número QUATRO de cinco partes. Para ver os outros capítulos, seleccione:



O “Novo Espiritualista Africano” é uma filosofia espiritual que procura conhecer as necessidades espirituais e filosóficas da raça negra bem como providenciar o embasamento teológico e mitológico sobre factos históricos e leis universais(7). Com isso apresenta um discurso centrado na negritude e na superioridade da raça negra e na identificação do homem branco como símbolo do mal:

“No Génesis, nos capítulos 6 até o 10, é registada a história de Noé e o dilúvio. De acordo com esta narração, Noé teve três filhos, Ham, Shem e Japeth. Depois do dilúvio, os descendentes de Noé repovoaram a terra. Muitos académicos acreditam que Ham foi o responsável pelo ressurgimento da África, Shem, da Ásia e Japeth da Europa. Japeth teve sete filhos e sete netos. Estes desenvolveram o que na antiguidade era conhecida como “Ilhas Pagãos” – hoje a Europa, Rússia, Sibéria, etc...
Os descendentes de Japeth desenvolveram a que hoje é conhecida como raça caucasiana. As histórias deste povo o revelam como a última expressão do mal. A bíblia fala especificamente de três destes filhos, Magog, Meshech e Tubal, como sendo a personificação de Satanás. Nos tempos bíblicos, quando Deus punia os maldosos, Ele amaldiçoou com a lepra, uma doença que faz a pela mudar de um negro saudável, para um branco morto. Uma vez castigado por esta doença o indivíduo era declarado impuro. Em muitas comunidades africanas, as pessoas que mostravam esta brancura (sintomas) eram postas à morte; pois era acreditado que qualquer um com a pele pálida era o diabo. Através de um minucioso exame da bíblia e da história, nós encontramos que Deus criou o homem a sua própria imagem negra, mas o homem branco se desenvolveu a partir de um aborto da história e de um acidente da natureza. Pois desde a sua concepção, eles têm vivido mais como demónios do que como homens.
Como esse espírito do mal se desenvolveu e se manifestou através da raça caucasiana, é graficamente ilustrado na bíblia, nas histórias de Caim e Abel, em Noé e o dilúvio e no incidente da torre de babel. Nos tempos modernos, a pavorosa doença da lepra é manifestada não só na carne, mas também na mente. No caso dos companheiros negros, a mentalidade branca pode ser curada através do Espírito da Libertação Negra e de uma devotada aderência aos divinos princípios da Lei Negra.”
Rev. Ishakamusa Barashango(8)


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(7)Barashango, Rev. Ishakamusa, Deus, a Bíblia e o destino do Homem Negro – um tesouro de fatos bíblicos, históricos e científicos, Bannneker City (Washingthon D.C.), Setembro 1970, p. I
(8)Idem p. 37


O texto, de carácter religioso, pretende demonstrar que a raça negra é a raça escolhida e descendente directa do próprio Deus, que também é negro:
“Deus, a própria existência, eterno, divina, inteligência, que criou e mantém através de seu grande poder todas as coisas no universo, é negro.”(9)
Porque será importante para essa doutrina caracterizar Deus quanto a cor? Uma das razões poderá ser que, ao se identificar o negro com o ser superior e criador, ele se sente mais valorizado e mais receptível à doutrina:
“Alguns podem dizer que realmente não importa qual é a cor de Deus ou como Ele se parece, ou que eles nunca pensaram nele como tendo uma cor. Então porquê os profetas da bíblia mencionaram isto e porquê as pessoas antigas o pintaram e esculpiram como um negro africano? .”(10)
O autor, na sua ânsia de persuadir, faz uso tanto de fontes sagradas (a Bíblia), como de fontes seculares (pessoas antigas), numa tentativa de demonstrar que as evidências da superioridade negra encontram-se em toda a parte. Ao apresentar fontes tidas como credíveis para sustentar o discurso, o autor pretende levar-nos a acreditar que o próprio discurso é credível. Essa táctica discursiva é usada em ambos os movimentos filosóficos.
Numa posição completamente oposta encontra-se a filosofia da Igreja Mórmom, que apresenta a cor negra não como um sinal de superioridade, mas como um sinal de maldição imposta pelo próprio Deus. É de se notar que os discursos apesar de agressivos e degradantes para a raça negra, procuram sempre o amparo de que essas restrições foram impostas pela divindade e que por isso devem ser acatados como verdades intocáveis. Partindo do pressuposto de que quanto mais confiável for a fonte, consequentemente, mais confiável será o discurso, essa filosofia usa o próprio Deus como testemunha para justificar a sua posição quanto ao homem negro:
"Você vê alguns grupos da família humana são negros, desajeitados, feios, desagradáveis e baixos em seus costumes, selvagens e aparentemente sem a bênção da inteligência que é normalmente dada à humanidade. O primeiro homem que cometeu o odioso crime de matar um de seus irmãos foi amaldiçoado por mais tempo do que qualquer outro filho de Adão. Caim matou seu irmão. Caim poderia ter sido morto e isto teria findado aquela linhagem de seres humanos. Mas não era para ser assim, e o Senhor pôs uma marca nele, que é o nariz chato e a pele negra.."
Brigham Young(11)

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(9)Barashango, Rev. Ishakamusa, op. cit. p. 01
(10)Idem p. 01
(11)Segundo Profeta e Presidente da Igreja Mórmon, Journal of Discourses (Jornal de Discursos), volume 7, páginas 290-291





Atenta-se que o texto é produzido numa época em que o negro procurava libertar-se do jugo branco. Essa opressão de que o negro sofria precisava de uma justificação e quando poderia estar esgotado as justificações antropológicas, sociais, económicas ou outras, ainda restava a religiosa, tão ou mais poderosa do que as outras. Isto porque a História ensina que a religião sempre serviu de pretexto para justificar a exploração do homem sobre o homem. E que melhor forma de o justificar do que apresentar o negro como alvo da ira de Deus, por outras palavras, um ser inferior?
Num contexto social em que a relação humana justificaria uma outra forma de estar, baseado no ensinamento de Cristo de que todos os homens são iguais, os crentes poderiam perguntar-se do porquê da segregação do negro, mas tendo sido uma punição de Deus, tornava-se justificável:
Quem colocou os negros originalmente na mais escura África? Foi algum homem, ou foi Deus? E quando Ele os colocou ali, Ele os segregou (...) O Senhor segregou o povo tanto quanto ao sangue, como ao lugar de residência.
Pelo menos no caso dos Lamanitas e dos negros nós temos a palavra definitiva do próprio Senhor, de que ele colocou sobre eles uma pele escura como uma maldição – como uma punição e como um sinal aos outros. Ele proibiu que outras raças se casassem com eles sob a ameaça de extensão da maldição (...)  E Ele certamente segregou os descendentes de Caim quando Ele amaldiçoou o negro para o Sacerdócio, e os separou dos outros de maneira absoluta. Você poderia até dizer que Ele baixou uma cortina de ferro ali. O negro foi amaldiçoado para o Sacerdócio, e portanto, foi amaldiçoado para as bênçãos do Sacerdócio. Certamente Deus fez segregação ali”.
Mark E. Petersen(12)


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(12)Membro do Quorum dos Doze Apóstolos da Igreja Mórmon, Race Problems – As They Affect the Church (Problemas Raciais – Como Eles Afetam a Igreja), [palestra realizada na Universidade Brigham Young].


A doutrina do “Novo Espiritualista Africano” que procura demonstrar que a cor negra é sinónimo de algo positivo:


“Contrário ao que nos foi ensinado pelo opressor, o preto não é a cor que representa o mal; mas a cor que representa o bem. Pois o mundo foi criado da escuridão [...] Pois é na escuridão e na negritude onde estão a quietude, a paz, a serenidade e a tranquilidade...”(13)

Encontra uma forte oposição na doutrina que professa que o negro é o resultado da desobediência dos anjos perante Deus e como tal representantes do mal:

“Existe uma razão para um homem nascer preto e com outras desvantagens, enquanto outro nasce branco com grandes vantagens. A razão é que, antes de virmos para cá, vivemos em outro estado, onde fomos mais ou menos obedientes às leis lá recebidas.
Os que lá foram fiéis em todas as coisas receberam bênçãos maiores aqui, e os que não o foram, receberam menos (...) Na guerra nos céus, não houve nenhum neutro. Todos tomaram partido, fosse com Cristo ou com Satanás. Todo homem teve seu arbítrio lá, e aqui os homens são recompensados de acordo com suas acções lá, exactamente como receberam recompensas no mundo vindouro pelos feitos quando na carne. A raça negra, evidentemente, está recebendo o galardão que merece”.
Joseph Fielding Smith(14)

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(13)Barashango, Rev. Ishakamusa, op. cit. p.
(14)Décimo Profeta e Presidente da Igreja Mórmon, Doutrinas da Salvação,
volume I, páginas 67, 73


Em oposição directa, não parece ser possível encontrar qualquer ponto de convergências entre essas duas doutrinas. Com o “Novo Espiritualista Africano” a alegar que o branco é a raiz do mal:

“Antes de Deus fazer o homem, Ele criou um planeta rico e abundante [...] O povo era sábio, belo e negro. A pergunta é feita aqui: O que aconteceu? [...] Eventualmente um estranho contratempo ocorreu, criando a raça caucasiana (a quem a bíblia se refere como os pagões). Conforme essa criatura animal começou a sair das cavernas da Europa, ele trouxe com ele formas extremamente diabólicas de luta (...)
Nos tempos antigos, no leste, na África e em outras partes da Europa, a cor branca era usada para representar o diabo, a morte e os espíritos malignos. E a cor preta era usada para representar a santidade e a imagem de Deus. Com a chegada do homem branco estas verdades foram completamente adulteradas e distorcidas.
O homem negro, com a sua misericórdia e seu amor por Deus, buscou civilizar esta desprezível criatura e fazer dele um irmão. Mas este animal das cavernas europeias abusou da hospitalidade do homem negro [...] Então esta besta traiu e enganou o povo africano, levando-o a mais horrível forma de escravidão jamais conhecida”(15) 


 E a Igreja Mórmom a alegar no seu discurso que superioridade da raça branca é justificável divinamente e que não caberia aos homens mudarem uma decisão do Senhor. Dessa forma é possível justificar a incongruência da doutrina que ensina que todos os homens são iguais perante Deus e a prática que nega os privilégios do Sacerdócio às pessoas de pele negra:

“Não somente Caim foi condenado a sofrer, mas por causa de sua maldade ele se tomou o pai de uma raça inferior. Uma maldição foi lançada sobre ele, e esta maldição tem continuado através de sua linhagem, e continuara assim enquanto tempo existir. Milhões de almas tem vindo a este mundo amaldiçoadas com uma pele negra, e têm sido negadas o privilégio do Sacerdócio e a plenitude das bênçãos do Evangelho. Estes são os descendentes de Caim. Alem disso, eles foram forçados a sentirem sua inferioridade, e têm sido separados do resto da humanidade desde o começo (...) nós também esperamos que bênçãos possam, eventualmente, ser dadas aos nossos irmãos negros, pois eles são nossos irmãos—filhos de Deus—apesar de suas peles negras, símbolos de eterna escuridão”.
Joseph Fielding Smith(16)


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(15)Barashango, Rev. Ishakamusa, op. cit. p. 29
(16)Décimo Profeta e Presidente da Igreja Mórmon, The Way to Perfection,
páginas 101-102




A fazerem uso de um discurso extremamente forte, estas doutrinas tentam demonstrar que o outro é que é sinónimo do mal e que eles são os escolhidos:

“... O diabo que agora é retratado como negro, já foi retratado como branco. Quando o homem negro dominava o planeta, ele pintou as forças do mal como brancas. Quando os brancos vieram ao poder, eles mudaram a cor, mas mais tarde, por volta de 1500, os etíopes ainda pintavam seus deuses e heróis como negros, e seus vilões e demónios como brancos...”(17)

“(...)  após o dilúvio, nós aprendemos que a maldição pronunciada sobre Caim foi continuada através da esposa de Cão, pois ele tinha se casado com uma mulher daquela descendência. E por que a semente de Caim foi preservada durante o dilúvio? Porque era necessário que o diabo tivesse um representante na terra assim como Deus”.
John Taylor(18)


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(17)Barashango, Rev. Ishakamusa, op. cit. p. 39
(18)Terceiro Profeta e Presidente da Igreja Mórmon, Journal of Discourses (Jornal de Discursos), volume 22, página 304


Superioridade Racial: Considerações Finais

Este artigo está dividido em partes para ser melhor compreendido. Esta é a parte número CINCO de cinco partes. Para ver os outros capítulos, seleccione:



Os discursos, na sua maioria, não só tentam demonstrar que a sua ideologia é que é a válida, mas também que a condição do oposto é a errada, numa tentativa de obrigar os indivíduos das respectivas raças a tomarem posições, a não se manterem neutros.
         É essa tentativa de demonstrar que a sua raça é que é a superior é que faz transparecer toda a hegemonia do (no) discurso. Sendo aqui considera a hegemonia como “um foco de luta constante sobre aspectos de maior volubilidade entre classes (e blocos), a fim de construir, manter ou, mesmo, a fim de romper alianças e relações de dominação e subordinação que assumem configurações económicas, políticas e ideológicas”(19), o discurso é usado como uma arma poderosa para que o negro rompa as relações de subordinação e para que o branco mantenha as de dominação.
Esse braço de ferro doutrinário parece não deixar espaço para uma convivência harmoniosa entre essas crenças. O teor desses discursos demonstra que se trata de conceitos sectários, visando um tipo específico de adeptos e excluindo definitivamente os que não se adequam com essas características. Infelizmente, a História tem demonstrado que esses comportamentos têm conduzido a péssimos resultados.


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(19)Pedrosa, Cleide Emília Faye, op. cit. p. 24


  • Bibliografia de Referência
Barashango, Rev. Ishakamusa, Deus, a Bíblia e o destino do Homem Negro – um tesouro de fatos bíblicos, históricos e científicos, Bannneker City (Washingthon D.C.), Setembro, 1970
Martinez, Prof. João Flávio, O Mormonismo e a Raça Negra, disponível na Internet via http://www.cacp.org.br/mormonismo/ Capturado em 20 de Setembro de 2005
Lima, José Pinto de, Pragmática Linguística, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Editorial Caminho, 2006
Maestri, Mário, O Sentido Histórico de 1968, (Junho de 2008), disponível na Internet via http://www.espacoacademico.com.br/085/85maestri.htm Acedido em 1 de Junho de 2009
Pedrosa, Cleide Emília Faye, Análise Crítica do Discurso, uma proposta para a análise crítica da linguagem, Trabalho Académico, UFS, Brasil, 19 –


  • Bibliografia Consultada
Carvalho, José G. Herculano de, Teoria da Linguagem – natureza do fenómeno linguístico e a análise das línguas, Volume I, Atlântida Editora, Coimbra, 1979
Coutinho, Maria Antónia, Texto(s) e Competência Textual, Fundação Calouste Gulbenkian – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Lisboa, 2003 
Costa, J. Almeida e Melo A. Sampaio e, Dicionário da Língua Portuguesa, 5ª Ed., Dicionários “Editora”, Porto Editora, Lda., Porto, 19 –
Pedro, Emilia Ribeiro, Análise Crítica do Discurso – uma perspectiva sociopolítica e funcional, Editorial Caminho, SA, Lisboa, 1997

7 de junho de 2011

A revolução da linguagem: Apreciação Crítica

NOTA: Este artigo faz parte de uma Apreciação Crítica dividida por capítulos. Para ver os outros capítulos, seleccione: 

O livro A revolução da linguagem, de David Crystal é uma obra bem conseguida que transmite informações científicas de forma agradável e criativa. Com uma linguagem acessível, o autor consegue expor as suas teorias de maneira compreensível ao longo de todo o texto.

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Apesar do livro ter como título A revolução da linguagem, o autor foca-se em particular na língua inglesa, estudando os factores que lhe deram primazia e, também, as suas condicionantes. Crystal identifica diversos domínios que tornaram o inglês preeminente, desde a política (com o inglês a ser usado de forma oficial ou como língua de trabalho na maioria das organizações internacionais), passando pelo cinema e música popular, bem como a educação e comunicações sem esquecer a própria Internet.

De leitura fácil, o livro procura despertar na consciência dos leitores a necessidade de se preocupar em proteger as línguas e, como essa é uma tarefa de todos, o autor visa atingir um público vasto, não selectivo, onde traz um forte apelo: “Consciencializar as pessoas do sentido de ‘alerta vermelho’ da questão em escala global é, provavelmente, a iniciativa linguística mais crítica a ser tomada no novo milénio.” (CRYSTAL, 2005, p. 73).

O autor remete as referências das citações para o fim do livro, o que pode tornar a verificação bibliográfica algo difícil, mas todos os capítulos estão bem estruturados e concluídos sempre de forma sintetizada.

Durante a leitura não é fácil evitar-se transpor essas experiências para a realidade da língua Cabo-verdiana e levantar-se certas questões: estará ela ameaçada de extinção? Se sim, em que estágio nos encontramos? Que políticas de revitalização adoptar? E, como divulgar a nossa língua através da Internet se os teclados não estão configurados para reconhecer todos os nossos caracteres?

Em suma, A revolução da linguagem, de David Crystal é uma obra de referência com conceitos novos e interessantes e é finalizado com recomendações pertinentes. Recomenda-se.

 Bibliografia
CRYSTAL, David, A revolução da linguagem, trad. de Ricardo Quintana, Jorge Zahar Editor, Ltda., Rio de Janeiro, 2005

JORGE ZAHAR EDITOR, Catálogos de Autores, David Crystal, Disponível em: . Acesso em: 22 de Junho de 2009

A revolução da linguagem: Depois da revolução

NOTA: Este artigo faz parte de uma Apreciação Crítica dividida, por capítulos. Para ver os outros capítulos, seleccione:



Após apontar os factores que estão na origem dessa revolução na linguagem (o surgimento do inglês como língua mundial, as ameaças às línguas e a Internet), o autor incentiva as pessoas a se apropriarem dos benefícios que dela advém, pois “…como sempre ocorre nas revoluções, compete aos indivíduos tirar proveito delas.” (CRYSTAL, 2005, p. 104). 


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Actualmente, na nossa aldeia global, é-se requerido às pessoas que se tornem multilingues, não significando com isso que se domine por completo as línguas, mas que haja “…uma mistura dinâmica de diferentes níveis de competência, que estão sempre se modificando conforme mudamos de circunstâncias…” (CRYSTAL, 2005, p. 106). 
Nessa condição de multilinguismo não será necessário traduzir-se tudo de uma língua para outra, porque conforme Crystal (2005, p. 108), “O multilinguismo não se desenvolveu para nos capacitar a traduzir tudo para outras línguas, mas a fim de satisfazer as necessidades comunicativas pragmáticas de pessoas e comunidades individuais”. Deve-se, portanto, avançar com a tradução somente quando necessária e exequível.

Através de uma política linguística inclusiva, valorizando as línguas de igual forma e de um contacto desde cedo com as línguas é que se pode lidar com esses novos conceitos que emergiram com a revolução linguística. Para Crystal (2005, p. 113) “…o único conceito que se relaciona bem com o mundo multilíngue é o do portfólio de línguas […] É isso que precisa ser operacionalizado no currículo das escolas e nos demais lugares”.

É preciso que as pessoas tenham consciência da existência e da dimensão do problema das ameaças às línguas. Mas como conseguir isso? A resposta, segundo o autor, está nas artes, pois “…se queremos encontrar um meio de passar a mensagem sobre línguas ameaçadas para todos de forma mais directa e simpática, deveríamos usar as artes ao máximo.” (CRYSTAL, 2005, p. 121). Através das artes é possível ao problema alcançar maior visibilidade, tanto nos meios de comunicação como na escola e principalmente nas casas.

A revolução da linguagem: O papel da Internet

NOTA: Este artigo faz parte de uma Apreciação Crítica dividida, por capítulos. Para ver os outros capítulos, seleccione: 

Segundo Crystal (2005, p. 75), “A aquisição da Internet pelo público foi o terceiro elemento que contribuiu para o carácter linguístico revolucionário da década de 1990”. Ela trouxe novas formas de interacção humana, condicionadas pela capacidade linguística produtiva (através do teclado) e pela capacidade linguística de recepção (através da tela). Apesar de agora ser possível uma interacção simultânea em várias conversas, essa tecnologia peca pela falta de retorno simultâneo de uma conversa face a face. 

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O autor introduz um novo conceito, o netspeak, que “…é mais compreendida como uma linguagem escrita que foi empurrada em direcção à fala do que uma linguagem falada que foi escrita.” (CRYSTAL, 2005, p. 89). O netspeak é uma nova forma de se comunicar que mudou a personalidade formal das línguas e trouxe novas oportunidades às linguas que a usam. 

O caractér revolucionário da Internet deve-se também ao facto de oferecer um espaço para todas as línguas, sem excepção. Este espaço faz com que uma língua tenha uma presença real mesmo que ela seja minoritária, sendo somente condicionada pela dificuldade de se representar as letras de uma língua com exactidão no teclado. Para o autor, essa proliferação de línguas na Internet é de se louvar pois que "o futuro do multilinguismo na web parece promissor.” (CRYSTAL, 2005, p. 101).


A revolução da linguagem: O futuro das línguas

NOTA: Este artigo faz parte de uma Apreciação Crítica dividida, por capítulos. Para ver os outros capítulos, seleccione:



As línguas tendem a coexistir em permanente contacto. Essa concomitância trás vitalidade e, trás também, o empréstimo de palavras. Esse empréstimo é algo bom, segundo Crystal (2005, p. 58), “…valorizo cada empréstimo que tenho em meu reportório linguístico…” e os que se opõem a tal prática não conseguirão vincar a sua opinião pois, “…que a língua humana não pode ser controlada” (CRYSTAL, 2005, p. 56).

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Para o autor existem dois tipos de empréstimos de palavras: para aquelas que nunca foram expressas antes numa língua e para aquelas que já tinham sido expressas de forma aceitável na língua nativa. Essa oposição incide particularmente sobre esse segundo tipo de empréstimo, pois receia-se que essa nova palavra venha a substituir a anterior, receio esse infundado na opinião de Crystal (2005, p. 56), pois “…a nova palavra não tem de substituir a antiga, mas pode suplementá-la”.

O autor traz-nos um dado preocupante em relação às ameaças que recaem sobre as línguas: “…em média, uma língua morre a cada duas semanas” (CRYSTAL, 2005, p. 58) e identifica o inglês como agente decisivo no desaparecimento de línguas em várias partes do mundo. E quando é que uma língua morre? Segundo Crystal (2005, p. 60) “…morre quando a penúltima pessoa que a fala desaparece, pois então a última não tem mais ninguém com quem conversar”.

A assimilação cultural é outro factor de ameaça às línguas. Quando uma cultura assimila outra, existem três grandes estágios: primeiro, há uma grande pressão sobre a população para que use a língua dominante; segundo, há um período de bilinguismo emergente, em que as pessoas expressam-se com fluência na língua dominante mas ainda fazem uso da antiga; por fim, os jovens adquirem maior domínio da língua nova e não encontram necessidade de usar a antiga.

Para combater essas ameaças o autor lança como grande desafio do século XXI a documentação das línguas (gravar, analisar e escrever), pois é imprescindível tanto a nível educacional como para a preservação da diversidade intelectual e cultural.

 
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