Mostrar mensagens com a etiqueta opinião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta opinião. Mostrar todas as mensagens

24 de dezembro de 2016

Clickbait - a nova estratégia dos onlines de Cabo Verde? Espero que não...


Não é bom sinal quando um online com foco na produção/divulgação de notícias decide enveredar pelo caminho do "clickbait" para ganhar mais visualizações.

O "clickbait" é (também) caracterizado pelo acto intencional de criar mistério no título, muitas vezes acompanhado das frases "não vais acreditar" ou "o que aconteceu depois vai-lhe chocar" para despertar a curiosidade e ganhar o click e fazer o contador do 'page views' rodar. 

Claro que o uso desta estratégia sensacionalista não é nada original. Mas, será que as mudanças no panorama do sector mediático nacional irão exigir a adopção do clickbait para alguns sites garantirem suas sobrevivências? 

Há que reconhecer que ganha-se visualização com o click e esta permite melhor negociar com os anunciantes, porém, um dos maiores perigos é a perda de confiança da audiência.


2 de outubro de 2016

Voto em branco: políticos e eleitores em lados opostos?


Vou voltar falar do valor do voto em branco e usar o caso de São Vicente porque foi nesta ilha que os dois partidos derrotados nas Eleições Autárquicas de 2016 interpuseram, em separado, recurso de contencioso eleitoral no Tribunal Constitucional e perderam o caso. E com isso vou tentar entender se os partidos políticos e os eleitores têm concepções diferentes acerca do que fazer com o voto em branco

Vamos por partes para tentar compreende a situação.

Nas Eleições Autárquicas de 20 de Março de 2016, o resultado da votação para a Câmara Municipal de São Vicente (CMSV) ficou assim:

14 de junho de 2015

Criativos de Cabo Verde: parem de minar o caminho aos jovens autores


Para mim é triste ver criativos em Cabo Verde a defenderem a ideia de que os jovens não devem lançar livros. Entristece-me. 

A mensagem que esses criativos passam é de apoio à política de não apoiar a produção literária nacional. Estão a dizer aos políticos "Não vale a pena investir nos novos autores e se tiverem algum dinheiro devem canaliza-lo aos autores consagrados". Triste.

É ir completamente na contramão do que se faz em mercados literários de verdade. Veja-se o exemplo do Brasil. Apesar de terem grandes autores mundiais ainda continuam a apostar em financiar a publicação de novos e jovens autores através também de concursos.

Aliás, quem acompanha meu blogue deve ter notado os vários concursos que partilho aqui. Neste momento apenas publico os novos concursos internacionais neste Portal da Juventude de Cabo Verde. E estes são apenas os concursos em que os autores de Cabo Verde também podem participar.


Excelente. E sabem o que eles dão como justificativa?

“Os concursos literários sempre tiveram papel fundamental na revelação de novos talentos da literatura brasileira. Na década de 1930, o poeta alagoano Lêdo Ivo, morto em 2012, recebeu o primeiro impulso para sua carreira ao vencer uma disputa de contos da “Revista Carioca”, aos 14 anos. Anos mais tarde, Fernando Sabino e Clarice Lispector, ainda jovens e desconhecidos, pela primeira vez seriam reconhecidos pela mesma publicação…”


Meu apelo aos criativos de Cabo Verde: parem de tentar minar o caminho aos novos autores.

Para uma explicação melhor sobre meu ponto de vista nesta área, sugiro a leitura deste artigo em que discordo da ideia defendida pelo escritor caboverdeano Germano Almeida.

3 de dezembro de 2014

Um adeus, um muito obrigado e um até já



Após abraçar novo projecto tornou-se mais difícil actualizar o meu blogue e é por isso que irei parar por aqui e por um tempo indeterminado. Muito agradecido pela atenção que me deram desde 2007 até agora. Até agora ultrapassamos as 731 mil visualizações de páginas e alguns milhares de comentários e outras partilhas.

O vosso amigo aqui, Daivarela, se despede com os dentes cascod

O espaço se mantém aberto para quem quiser consultar os artigos publicados ou reler algo que tenha gostado.
A partir de agora as novidades serão publicadas no novo Portal da Juventude que está no endereço: www.jovemtudo.cv

Vou continuar a escrever e a publicar mas agora será no site JovemTudo. Visita, dê gosto na nossa página no Facebook e acompanha.

O que é o Projecto JovemTudo?

www.jovemtudo.cv

O projecto JovemTudo é plataforma de informação digital cultural e profissional para a divulgação de acções culturais e ofertas profissionais (empregos e estágios) bem como a promoção que informa das acções dos jovens talentosos que abundam tanto em Cabo Verde como na sua diáspora. O objectivo é criar uma plataforma de informação digital que agrega as realizações artísticas da juventude caboverdeana e o ponto focal para serem vistos, ouvidos e lidos pelo grande público da Internet.

Este site de informação digital será um importante acervo para os produtores culturais, gestores de eventos, entidades públicas nacionais com foco na juventude e cultura e o público em geral que terá um papel interventivo e interactivo. Esta página pretende ser o ponto de encontro dos jovens que produzem e consomem produtos culturais mas que não têm espaço nos meios de comunicação social tradicionais.

Este é também um espaço para os jovens licenciados e estudantes de Comunicação Social para criarem seus portfólios virtuais de criarem nome no mercado antes de conseguirem o primeiro emprego. Este é um site colaborativo por isso aberto ao contributo daqueles que assim o entenderem.

Esta plataforma será como uma montra para as produções autónomas dos jovens criativos e funcionará à imagem de uma mostra de talentos. Será um espaço moderado para os comentários que não deixará lugar para comportamentos insultuosos ou ofensivos. Por outro lado, as opiniões e sugestões construtivas serão incentivadas, publicadas e discutidas.

Pode-se perspectivar várias e grandes vantagens com esta plataforma porque seu objectivo é dar a conhecer as criações artísticas de jovens criadores que não encontram espaço.

Conheça o Portal JovemTudo ao clickar aqui

21 de outubro de 2014

É por isso que não me revejo no documentário "Cabo Verde: um ar de paraíso"


Após conseguir assistir ao vídeo, declaro que não me revejo no documentário "Cabo Verde: um ar de paraíso" por razões próprias. Em baixo um extrato do vídeo:



Extrait : Cap Vert - Documentaire #Investigations por franceo



O vídeo pode ser feito download aqui

Quando fui contatado por Patrick Dedole, a produtora francesa me disse que seria um documentário enquadrado numa série dedicada aos arquipélagos de Madagáscar, Nova Caledônia e Cabo Verde para “retratar a realidade social de Cabo Verde” e procurar ser “o mais fiel possível” ao retrato desta sociedade multicultural e cosmopolita. Para minha surpresa vejo que se trata de uma reportagem investigativa para um programa com foco no narcotráfico, máfia, criminalidade, espionagem, poluição e terrorismo e que faz o paralelo apenas com a realidade da Nigéria. Bem diferente daquilo que me garantiram e de que seria divulgado na série "Um ar de paraíso" com o objetivo de mostrar a realidade social, cultural e económica das ilhas paradisíacas.

A apresentadora do programa antes de lançar o vídeo "Cabo Verde: um ar de paraíso" 

Quando lhes enviei as propostas de reportagem aceitaram e fizemos uma agenda. Durante 10 dias estive com o jornalista francês, Charles Baget e estes foram os temas abordados com entrevistas filmadas:

- o impacto do Porto Grande na economia de São Vicente (com entrevista no local com os responsáveis)

- a capacidade de intervenção e patrulhamento da Guarda Costeira nas águas nacionais (em que se incluía entrevista com seu comandante na ilha e visita a todas as embarcações);

- acompanhamos os responsáveis de organizações não governamentais que estiveram reunidos no Mindelo e entrevistamos vários deles para falar sobre os problemas que o país atravessa. No local ainda questionamos o Primeiro-ministro, José Maria Neves, sobre os problemas levantados pelas ONG’s.

- o sonho de uma jovem caboverdeana (acompanhamos uma jovem que é apaixonada pelo futebol e que estava a fazer o curso de árbitra para mostrar um sonho com um rosto humano nas ilhas);

- acompanhamos a Parada Gay de Mindelo e entrevistamos vários homossexuais sobre as dificuldades enfrentadas no país e suas revindicações; 

- estivemos toda a festa de San Jon, na Ribeira de Julião, a filmar os festejos religiosos e profanos e a entrevistar pessoas em meio ao rufar dos tambores para mostrar esta faceta crioula;

- acompanhamos um dos responsáveis da Selecção de Futebol de Cabo Verde (camada de formação) para falar do sonho dos jovens em se tornar profissionais de futebol. Estivemos com ele enquanto assistia ao jogo do Mundial entre Portugal e Gana e no outro dia acompanhamos a final do Campeonato de São Vicente em Juvenis em que se sagrou campeão.

- a vida nocturna de Mindelo (entrevistamos responsáveis de espaços e acompanhamos na madrugada uma jovem que pratica striptease e faz a vida na night para financiar os estudos superiores. Estivemos com ela na sua universidade a mostrar (também) sua força de vontade para estar de manhã cedo a estudar após uma noite sem dormir);

- acompanhamos um jovem artista que toca instrumentos de corda. Estivemos com ele na sua actuação na Casa da Morna e no outro dia passamos uma tarde inteira na casa dele onde tem um estúdio musical caseiro e no qual se fez acompanhar por um conhecido cantor da ilha para se falar sobre a música feita em Cabo Verde;

- estivemos com os pescadores para sentir o pulsar da Rua da Praia e acompanhamos um frequentador do local que nos falou sobre esta forma de estar dos pescadores e do grogue do bar “Boca de Tubarão”

- entrevistamos um responsável de uma organização de defesa do ambiente que criticou os problemas ambientais e a pesca ilegal (no memento da entrevista estávamos no cais e estava-se a descarregar o atum e as barbatanas de tubarão);

- a parte sobre os ex-membros das gangs tinha sido feita na prespectiva de mostrar o trabalho de Frei Silvino ao ajudar os jovens a encontrar um novo rumo de vida. Claro que se iria falar da experiência dos gangs e da intervenção policial. Entretanto, apesar de quase dois meses de tentativas, a Policia Nacional não colaborou e por isso ficou apenas com a versão dos jovens que estiveram em conflito com a lei. 


O jornalista francês não conseguiu entrevistar os responsáveis da Policia e nem filmou qualquer actividade dos “Ninjas”. Apesar disso, todo o vídeo é construído com imagens dos “Ninjas” captadas para o documentário “Pacificadores”. Este então decide fazer uma espécie de investigação actual com imagens antigas.

Supostamente meu nome deveria aparecer na ficha técnica (agora já não sei até que ponto isto é mau). Sem querer parecer desleal devo reafirmar que não me revejo neste trabalho audiovisual. Fui contratado para apontar os temas a serem abordados em São Vicente num documentário e em nenhum momento me foi dito que se tratava de uma “investigação jornalística” com estas características. Claro que desde o início sabia que não teria qualquer controlo sobre a edição ou o rumo do vídeo mas não era isto que estava a espera. Minhas dúvidas agora são:

1) quando o jornalista veio a Cabo Verde não sabia qual o programa que estava a produzir por isso filmou coisas desnecessárias e que não tinham nenhum interesse para a produção?;

2) o jornalista filmou coisas interessantes e que serviriam para o vídeo mas fez alguma asneira na filmagem ou perdeu os vídeos (e suas respectivas cópias)?;

3) o jornalista tinha uma agenda própria desde o princípio?


Contudo, o vídeo em si não fala mais do que aquilo que nós sabemos acerca dos problemas da delinquência juvenil e da falta de qualidade e quantidade da água. 

O vídeo esteve disponível durante um tempo através da conta de Djay Gomes mas foi retirado do Youtube por solicitação da produtora por razões de direitos de autor.



4 de outubro de 2014

Querem vender bebidas alcoólicas às crianças no Mindelo?


Todos sabemos que há uma grande distância entre quem cria as leis, quem as aplica e fiscaliza e quem quer vantagens económicas em relação ao seu descumprimento. Este é o caso que tem acontecido em São Vicente em relação à publicidade de bebidas alcoólicas perto de estabelecimentos de ensino. 

As pessoas que fizeram o Código de Publicidade (Decreto Legislativo Nº 46/2007, de 10 dezembro de 2007) tinham a intenção de preservar os menores de serem expostos à publicidade do álcool. Isto é comprovado claramente no Artigo 22º que fala sobre a publicidade em estabelecimentos de ensino ou destinada a menores:

É proibida a publicidade a bebidas alcoólicas, ao tabaco ou a qualquer tipo de material pornográfico em estabelecimentos de ensino e sua área circundante, bem como em quaisquer publicações, programas ou actividades especialmente destinados a menores.

Mas parece que quem anda a colocar publicidade de álcool ao redor de escolas primárias não leu nenhum dos estudos que mostram um aumento do consumo precoce do álcool e de outras drogas em Cabo Verde. Depois de ver esta imagem abaixo fico sem saber como é que se pode falar na prevenção do consumo de bebidas alcoólicas para menores em idade escolar:

Esta publicidade está junto à Escola Primária da Ribeirinha, no Mindelo, numa clara infracção 
(foto da Ailine F.)

Agora, as entidades que licenciaram foram a Assembleia Municipal com a aprovação da Câmara Municipal de São Vicente, de acordo com o artigo 27º do mesmo Código:

1. A afixação de mensagens publicitárias está sujeita a licenciamento municipal.
2. Compete às assembleias municipais, para salvaguarda do equilíbrio urbano e ambiental nas respectivas áreas de jurisdição, definir os critérios de licenciamento aplicáveis à afixação de mensagens publicitárias.


Neste caso em que se verifica a publicidade junto de estabelecimentos de ensino, quem deve fiscalizar é a Agência de Regulação Económica, a Policia ou até mesmo a Autarquia se reconhecer que errou. Basta ler o Artigo 63º que fala sobre a fiscalização:

Sem prejuízo da competência das autoridades policiais e administrativas, compete especialmente ao órgão regulador do sector a fiscalização do cumprimento do disposto no presente diploma, devendo-lhe ser remetidos os autos de notícia levantados ou as denúncias recebidas.


Entretanto, caso a empresa de cerveja tenha colocado a publicidade sem o consentimento das autoridades competentes, esta é uma boa altura para fazerem um dinheirinho se conseguirem a coima que vai de 700 000$ a 2 000 000$ por o infractor ser pessoa colectiva. Sempre era bom para uma Câmara Municipal que está cheia de dívidas…


1 de outubro de 2014

"As Mãos de Eurídice" de Manuel Estevão ou o monólogo não é pra qualquer um


Eu vi um espectáculo intenso e cheio de carga dramática. "As Mãos de Eurídice" conseguiu cativar a sala, interagindo com o público através de contactos de emoções entre o actor e um público participativo. Manuel Estevão ocupou o centro da cena a criar imagens, sensações, personagens e linguagens para comprovar que monólogos são desafios para grandes actores.


O cenário da peça é simples (aquilo que se pode chamar de escolha de esquemas de produção de baixo custos) mas a atenção queria-se na construção da trama: a explicação das razões, das escolhas e das consequências. Manuel Estevão, actor que tem renovado seu cartão de qualidade a cada peça, conseguiu neste monólogo uma construção de possibilidades que de certeza fez com que pessoas se identificassem ou identificassem alguém com o seu Gervásio, a sua Dulce ou mesmo com a sua Eurídices. E o teatro tem esta capacidade de fazer as pessoas reflectiram sobre seus princípios, muitas vezes de forma provocadora. Acredito que o conseguiu nesta terça-feira, 30, no Centro Cultural Português da Praia, tendo em conta a ovação em pé que Estevão recebeu emocionado. 

Num país em que claramente é notável as dificuldades para a produção cultural, a opção pelo monólogo também tem esta característica de lutar contra a falta de espaço adequado para grupos, da falta de incentivo, da falta de disponibilidade de agentes teatrais que desafia o conceito de actor/encenador, etc. Mas o monólogo, claro, não é para todos.


29 de setembro de 2014

Minha opinião sobre o álbum "Kodigo d'Barras" do grupo G-RapperZ


Capa do álbum "Kodigo d'Barras"
Hoje quero falar sobre o novo álbum “Kodigo de Barras” do grupo G-RapperZ, lançado no dia 26 de Setembro. Confesso que quando ouvi pela primeira vez o CD dos rapazes de Povoason de Santo Antão fiquei com a ideia de que não tinham conseguido alcançar a expectativa que tinha ao esperar as músicas. Mas como queria escrever sobre o CD tive que o ouvir várias vezes. Foi a melhor escolha porque este álbum parece aumentar de qualidade cada vez que o repito. 

Isto porque “Kodigo d’Barras” se distingue dos restantes dentro do panorama musical actual do Hip-Hop Crioulo. Ponho a tónica no actual porque apesar de reconhecer todo o valor desta produção musical, ainda acredito que este álbum traz apenas um cheirinho da mudança nos arranjos musicais que se aproxima e que se exige no Hip-Hop Crioulo. 

Estou a falar da evolução que vai acontecer com a introdução de instrumentos acústicos e que tradicionalmente acompanham os outros géneros “mais conceituados” em Cabo Verde. É verdade que se ouve a guitarra acústica de Anísio Rodrigues na música “Sem voz” com os Mc's: Hoddah (FU2) & DB (convidado) e refrão de Vick, mas esta não é uma escolha predominante no álbum. Destaque também pela actuação das vozes infantis do Grupo Coral Infantil d'Puva que trouxe uma toada diferente e muito boa na música "Geração".

Para baixar o álbum "Kodigo d'Barras" click aqui

Este álbum tem a característica de procurar alfinetar os espíritos de forma a fazê-los direcionar o pensamento para coisas que não tinham disposição para tal (ou então as desconheciam). Ninguém pode retirar aos G-RapperZ o mérito e a ousadia de terem dado voz a um pensamento próprio, autêntico, sem a preocupação de se enquadrar nesta sociedade que consideram retorcida. Para quem estava a esperar músicas que não renegam aos pensamentos próprios, este “Kodigo d’Barras” cumpre as expectativas.

Aqui abaixo estão as músicas para ouvir:




Por se tratar de um CD cheio de boas de participações nota-se uma diversidade de pontos de vista nas 17 faixas que a compõe. Esta variedade obriga a que se cante várias filosofias e perspetivas mas cada um pensado por si próprio e de certa forma estão de acordo uns com os outros.

Mesmo não pretendendo entrar pela via da comparação é preciso dizer que Jó Muhammad destaca-se neste trabalho musical. Isto não é propriamente uma surpresa se levarmos em conta a sua evolução e a atitude que impõe na voz quando está de microfone na mão.

Entretanto, continuo a defender que não há necessidade de dizer-se nomes obscenos na música de intervenção como acontece mais forte na música “Prese n lod d’fora”. Curiosamente, é um dos temas de destaque que (novamente) terá uma divulgação limitada. É também verdade que neste álbum o grupo foi mais contido do que no CD anterior mas mesmo assim não quero policiar as músicas que tocam na minha playlist porque está uma criança ao meu lado. Admito que em certas circunstâncias também “mando uns nomes” mas não quero ninguém a “mandar nomes” na minha coluna de som. Para mim isto não significa intervenção per si. Se no álbum demonstram tomar Amílcar Cabral como um modelo então devem se lembrar que este Herói foi um grande intervencionista e nos seus escritos que nos legou não faz uso de palavras obscenas, nem mesmo nos textos sobre a luta armada em que tinha todo o direito de chamar o inimigo de obscenidades. 

O trabalho de produção musical de Amaral “GolBeats” Fortes contínua muito bom e isto não é nenhuma surpresa (Ele apenas é lofa como adversário de Xadrez, kkkkk). Novamente sua musicalidade a dar o toque de profissionalismo para fazer com que letras fortes se casem com beats de grande musicalidade. Poderia pedir-lhe para incorporar mais instrumentos acústicos mas sei que se trata de um grande investimento e que os poucos que estão a conseguir: ou têm financiamento ou são multi-instumentistas com possibilidade de tocar todos os instrumentos necessários. 

Novamente os G-RapperZ mostraram que a qualidade musical não tem que, necessariamente, morar nos dois mais importantes centros urbanos. Para quem aprecia este género, então “código d’Barras” não pode faltar na tua discoteca pessoal.

Para ter todas letras das músicas deste álbum click aqui

Para fazer o download através de torrent click aqui

21 de setembro de 2014

Condicionamento cultural crioulo (ou a velha estória badio e sampadjudo)


Numa das minhas viagens à cidade da Praia tive aquela inevitável discussão sobre “sampadjudo” (neste caso entendido como pessoas na ilha de São Vicente) e “badio” (pessoas na ilha de Santiago). Um jovem me dizia que as gentes de São Vicente não gostam disto mas por outro lado gostam daquilo. A meio da conversa pergunto-lhe se já esteve em São Vicente e me diz que não. “Mas todos sabem disso”, sentenciou.

Sei que este comportamento não é somente dele. Existem pessoas em São Vicente com pré-conceitos e estereótipos do “badio” sem nunca ter estado na ilha de Santiago. Nesta situação fica difícil ver o mundo através das lentes do “outro”. Entretanto, como é que o badio constrói a imagem do sampadjudo e vice-versa? Que contactos são esses para a construção da realidade? A elaboração será feita através do convívio directo com uns poucos amigos próximos e a observação distante e fugaz de outros tantos? 

O nosso conceito cultural também pode ser criado ou reforçado através de anedotas ditas “inocentes” que retratam o outro de forma negativa. Na infância e adolescência, quando ainda mal saímos da nossa zona de conforto, é que se começa a criar a realidade exterior através da transmissão de crenças e valores pela oralidade e informalidade. Há alguns anos, aquilo que o sampadjudo conhecia do badio (e vice-versa) era obtido através do discurso oral de quem tinha convivido com o “outro” e feito seu julgamento conforme sua experiência (boa ou má) e que depois iria criar a realidade daquele que não teve a oportunidade de observar in loco para tirar suas próprias conclusões. Até pode ser que ao amadurecermos possamos procurar subsídios em outras fontes para enriquecer a nossa visão. Contudo, a verdade é que nos primeiros anos da descoberta a formação do outro desse nosso longinquamente perto se faz através da oralidade e dos meios de comunicação social, em especial, da televisão.

O problema que se coloca é que conhecer a realidade do outro através dos mídias é tomar a parte pelo todo. E isto se aplica, principalmente, nas notícias de carácter negativo. Um artigo de um crime de faca na ilha de Santiago tem a tendência de gerar comentários de que o badio é violento e gosta de agredir com faca. É nestes casos que se toma a parte pelo todo e generaliza-se de forma a construir uma imagem individualizante de um conjunto de pessoas. Por outro lado, uma informação de que se realiza uma festa ou festival na ilha de São Vicente tende a gerar comentários de que nesta ilha só se preocupa com paródia e não com o trabalho (novamente se toma a parte pelo todo). Mas porquê fazemos isso? Ao que parece o processo individualizante tende a ser mais fácil ao nível cognitivo e comunicativo. Isto, apesar da individualização ser feita no plural. 

As nossas cidades são feitas de micro-culturas que têm os fundamentos nas famílias, nos círculos de amigos das zonas, no urbano e no rural, na ilha, na região, Cabo Verde e depois África/Europa. Cada um desses círculos tem uma influência cultural na forma como construímos a nossa realidade social e a percepção do outro. Cada um dá seu input que é analisado e assimilado conforme as circunstâncias e as conveniências. Sabemos que o Homem é um ser social que ao receber as influências da sociedade torna-se ele próprio uma micro-sociedade. Esta estará carregada de crenças, valores, costumes, pré-conceitos, todos eles elementos da própria sociedade. E se este comporta todos esses elementos da sociedade, significa que ele próprio é uma micro-sociedade. Os pré-conceitos da nossa sociedade serão, então, um somatório de pré-conceitos dos milhares de micro-sociedades que somos nós, habitantes de Cabo Verde.

Desta forma, pode-se depreender que para se diminuir os pré-conceitos e estereótipos do outro na nossa sociedade é necessário confrontar a nossa própria micro-sociedade. Avaliar o que conhecemos do outro e de onde vieram essas informações e o porquê as aceitamos como verdadeiras. O somatório da melhoria das nossas percepções e atitudes irá se revelar como uma melhoria da própria sociedade em Cabo Verde.


2 de setembro de 2014

Novo equipamento da Selecção de Cabo Verde ou quando se esquece a criatividade


A Selecção Nacional de Futebol de Cabo Verde apresentou o novo equipamento que deverá ser usado nos próximos jogos de qualificação ao CAN'2015 e eu quero contar uma pequena estória.

Uma vez nós tínhamos uma equipa de futebol lá na minha zona e precisávamos de um equipamento. Fizemos um peditório nas mercearias locais e nas pessoas conhecidas para juntar o dinheiro necessário. Não conseguimos todo o montante por isso tivemos que apelar aos responsáveis da loja “Casa Benfica” para que nos ajudasse como patrocinador. Conseguimos um equipamento. Era feio mas como foi quase uma oferta não reclamamos. 

Este é o novo equipamento dos "Tubarões Azuis"

Porquê estou a recordar este episódio da minha infância? Porque o novo equipamento da Selecção Nacional de Futebol de Cabo Verde é muito parecido com o equipamento que nossa 'equipinha' da zona conseguiu. Nós não pagamos muita coisa pelo equipamento por isso não reclamamos também, mas isso era nós.

Falo nada, só observo...

Apesar de este novo equipamento da Selecção Nacional de Futebol de Cabo Verde ser destinado apenas aos dois próximos jogos, acredito que faltou muita criatividade à pessoa que o idealizou. Este design revela-se como uma perda de oportunidade de criar algo esteticamente atraente e que podia ser apontado como uma obra de valor com capacidade de fazer o adepto ter o desejo de o adquirir. O equipamento não pode ser pensado e criado como uma peça para um jogo. É preciso ter-se o conceito de Merchandising para se planear e promover o produto “Tubarões Azuis” e torna-lo vendável. Duvido que se consiga com este produto aqui apresentado.


A camisola parece que já estava em stock e apenas colocaram o logotipo da FCF



Sou um grande adepto da nossa Selecção mas garanto que não compro esta camisola. Ponto.


2 de agosto de 2014

Desafios ao comércio electrónico em Cabo Verde


O negócio na Internet não é tão novo assim para os caboverdeanos mas a entrada de players nacionais neste sector já é mais recente. Alguns iniciaram com páginas no Facebook mas outros avançaram com websites de lojas virtuais completas. Em algumas são possíveis as transações através de cartões de crédito e débito, transferência bancária, Rede Vinti4, e o novo sistema Pagali. Entretanto, existem alguns factores que podem condicionar o crescimento do comércio virtual nacional.


As Câmaras Municipais

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, existe cerca de 142 mil alojamentos familiares em Cabo Verde. Contudo, a maioria não tem número de porta ou endereço facilmente localizável. Isto porque as Câmaras Municipais não criaram as condições necessárias em termos de designação toponímica (com referência às ruas, placa identificadora e números de porta) para se proceder à entrega directa nesses alojamentos familiares do produto adquirido.

Os Correios de Cabo Verde

Quanto ao serviço dos Correios de Cabo Verde, esta instituição contava com 36 agências em 2012, cuja rede assegura uma cobertura a nível de todos os concelhos do país. Entretanto, os preços aplicados nos CTT não são apetecíveis para se ter um negócio de envio de encomenda. Ainda mais se se tratar de envios regulares, volumosos ou pesados. Sem se esquecer que este problema também se coloca no caso de o cliente decidir retornar o produto.

Mas não se pode esquecer que em certas zonas beneficia de uma rede maior e mais densa do que a rede bancária, direccionada especificamente para a população não bancarizada, e que pode ser usada para receber as encomendas do mercado online. Estas agências poderiam ser usadas no sistema de pagamento apenas após receber a compra, através de dinheiro em espécie.

Em termos de distribuição geográfica, as agências dos Correios concentram-se na ilha de Santiago, que responde por 36,4% das agências, seguida da ilha de Santo Antão, com 19,4% e da ilha do Fogo, com 11,1%. As demais ilhas, no conjunto, representam 33,3% do total das agências.


Legislação

Apesar de ter sido publicado algumas leis para viabilizar e dinamizar o comércio electrónico, ainda é preciso melhorar o quadro legislativo e regulamentar para um propício desenvolvimento do comércio online. Dentre estas normas estão o Decreto-lei nº49/2003 (regula os procedimentos e princípios básicos na implementação do Comércio Electrónico), o Decreto-Lei nº 33/2007 (controla o uso da assinatura electrónica, o reconhecimento da sua eficácia jurídica, a actividade de certificação, bem como a contratação electrónica); Lei 133/V/2001 (estabelece o regime geral de protecção de dados pessoais); Portaria Conjunta nº 42/2007, (cria e regulamenta o funcionamento do Portal da Internet como canal Web de prestação dos serviços da Casa do Cidadão); Decreto-Lei nº 43/2007 (regula a prática de actos de registo, o seu arquivo e a emissão dos respectivos meios de prova em suporte electrónico, a transmissão por via electrónica).

Ao se aumentar a segurança teremos uma maior confiança dos clientes e consumidores, que farão sua primeira compra, principalmente num público que agora entra no mercado electrónico como o de Cabo Verde.


Cartões internacionais

A emissão de cartões de crédito pelas instituições de crédito no país, a partir de 2005, com a disponibilização do serviço da rede Visa aos residentes, constitui um marco importante para o sistema de pagamento nacional. De acordo com o Relatório do Sistema de Pagamentos Cabo-Verdiano / 2012, os nacionais efectuaram 55.506 operações com cartão Visa no país e que totalizaram 465 milhões de escudos. 

O número de cartões Visa produzidos diminuiu, pelo segundo ano consecutivo, tendo atingido no final de 2012 um total de 6.316 cartões, mas verifica-se uma evolução bastante positiva nas operações efectuadas. Sabendo que a maioria dos pagamentos é feito com estes cartões, torna-se necessário a sua massificação e utilização.


Cartões Vinti4

Os cartões de débito Vinti4 foram introduzidos nos finais de 1999 causando um forte impacto no sistema bancário nacional. Junta-se ainda o facto de o seu uso estar isento da cobrança de taxas aos seus detentores na realização das operações. No final de 2012, estavam emitidos e reconhecidos na rede Vinti4 cerca de 163.324 cartões de pagamento. Mesmo sendo os mais usados em Cabo Verde não é possível fazer operações no comércio online com eles. 


Pagali

PagaLi é uma plataforma totalmente voltada para os sistemas de pagamento electrónicos online que está a entrar no mercado neste ano.

Este sistema criou um novo conceito de pagamento electrónicos on‐line que permite a qualquer empresa ou profissional liberal aderente (Parceiro) utilizar a plataforma para disponibilizar as suas facturas para pagamento de serviços na Rede Vinti4. Ainda não se espalhou.



Utilizadores

A falta de dados em Cabo Verde já não é novidade mas o “Medindo o desenvolvimento da Sociedade de Informação e acessibilidade dos preços de Banda Larga” de 2013, da União Internacional das Telecomunicações (UIT) mostra que a taxa de penetração de internet nos jovens de 15 a 24 anos está estimada em 65 porcento e o país é o 4º na África em termos de utilização.

Por outro lado, se notarmos que os recentes dados do INE mostram a taxa de desemprego na faixa etária dos 15 aos 19 e dos 20 aos 24 anos a voltar a aumentar, pode-se pensar que este público-alvo está a usar a internet mas pode não ter dinheiro para consumir no mercado online.

Telemóveis

O mercado interno, com uma taxa de penetração de 97% em 2013, ainda é dominado pelos telemóveis em vez dos smartphones, o que dificulta em muito a compra online. São cerca de 500 mil telemóveis que precisariam de serem actualizados (bom, as contas precisam agora levar em conta os 20 mil smartphones oferecidos aos funcionários públicos).


As ilhas

A descontinuidade territorial e a pequenez dos municípios são desafios que se deve ter em conta.


Mesmo com estes – e outros - desafios é preciso não deixar escapar a oportunidade de vender para o público interno e fora das ilhas e conseguir uma margem neste mercado super-competitivo e lucrativo.



9 de julho de 2014

"Em Defesa das Causas Perdidas" revela talentos no teatro de Mindelo


Assisti esta terça-feira à peça teatral "Em Defesa das Causas Perdidas" e considero que foi um bom momento de teatro.

Elenco na finalização de "Em Defesa das Causas Perdidas" - Foto de Diogo Bento

É daqueles momentos que se sai do espaço de cultura como o Centro Cultural do Mindelo com a sensação de um futuro garantido nas artes cénicas de Cabo Verde. Pelas expressões dramáticas, pela incorporação das personagens, pelo ritmo e a capacidade de transporte para a realidade da ilusão do teatro pode-se garantir que há talentos nestes jovens ousados. Muito bom. 

Suzy Andrade a dançar e interpretar
foi uma boa surpres
a - Foto de Diogo Bento
Duas notas para os actores: uma surpresa agradável ver a Suzy Andrade a interpretar. Quando fui assistir tinha na mente aquela menina frágil mas qual não foi meu espanto ao ver uma actriz forte a dominar o palco. Deu para ver que no palco é outra estória e até parece bonita com todas aquelas luzes e maquiagem, kkkkkk; 

A outra nota é para meu amigo Ricardo "Ricky" Fidalga, hoje um dos mais cotados jovens actores mas que me pareceu não ter conseguido se desligar do seu personagem de stand-up. Divertido e busod por natureza, Ricky tem uma ligação muito forte com a comédia e a interpretação que conheço desde sua infância quando lhe dava uns carolos, kkkkkk. Entretanto, não digo que ele estivesse a fazer comédia mas sim que interpretava com a personagem do stand-up com falas dramáticas. Ou talvez seja eu que estou tão acostumado com ele nos papéis mais divertidos. Por isso, meu amigo, é melhor assumires mais papéis dramáticos para que não fiques irremediavelmente ligado à comédia e possas vir a ter problemas em convencer o público nas interpretações mais dramáticas, como acontece com “nha Lolita”. Porque o talento está lá.

Entretanto, considero que havia gente a mais em cima do palco mesmo sabendo que todos eles fazem parte do Projecto KCena 2014. Ainda havia excesso de som secundário que deveria ter sido suavizado. Por falar em som, a projecção da voz deve ser trabalhada para melhorar o envolvimento com a estória.

"Em Defesa das Causas Perdidas" trouxe questões bem fortes para a nossa sociedade. Mesmo que tenha “La Mancha” como cenário, o dedo acusatório faz todo o sentido na sociedade caboverdeana. Políticos corruptos, empresários sem escrúpulos, militares sedentos de guerra, insegurança, fome, indiferença para com os mais vulneráveis, etc e muito mais. Isto é em La Mancha? Estes jovens talentosos mostraram (no mesmo local onde há dias se discutia os 39 anos de Independência) que o rei vai nu e terão abraçado a necessidade de se lutar por causas perdidas, tal qual Dom Quixote.

O encenador brasileiro, Márcio Meirelles, disse que queria deixar alguma semente que germine novos frutos na cidade do Mindelo. Acredito que conseguiu.

NOTA À PARTE: porquê as pessoas levam crianças para assistirem peças de teatro?


23 de junho de 2014

Para não se ter medo da Policia em Cabo Verde


De forma preocupante vai-se notando as reiteradas queixas de cidadãos em relação a, alegadas, brutalidade policial. Há dias foi o jovem que faz apresentações para crianças com a personagem , Xclumbumba. Mas o mais recente é o caso de Hernani Delgado e é sobre isto que quero falar.

Quando vi o vídeo onde este acusa a Policia de lhe bater de forma irregular e que excedem os poderes públicos que lhes estão investidos para reporem a ordem pública fiquei triste e preocupado. Triste porque tinha apenas uns dias que tínhamos encontrado por acaso e ele estava cheio de projectos e ideias que queria conversar comigo e não acreditava que de uma hora para outra tivesse se tornado um delinquente que precisasse de vários policiais e bastonadas para o acalmar. Preocupado porque um cidadão que é detido na via pública e levado para um local onde estão agentes formados para garantir a segurança e termina com um braço fraturado, queixo quebrado e várias marcas negras no corpo. 

Pelo que se entende do vídeo, o jovem assistia na via pública a uma detenção e criticou a actuação da Policia. Pode-se dizer que Hernani cometeu dois erros:

Primeiro: acreditou que o seu direito de livre expressão, manifestação e de pensamento era inviolável, como garantido pelo artigo 28º da Constituição da República de Cabo Verde;

Segundo: acreditou que criticar aqueles agentes, naquele momento, seria uma forma de criticar a instituição, Policia.

Contudo, a fazer fé nas declarações do vídeo, o jovem pode ter sido detido sob a acusação de desacato à autoridade porque os agentes se sentiram ofendidos e faltados ao respeito no cumprimento dos seus deveres. Mesmo com o direito de expressão há que ter atenção ao artigo 355º do Código Penal de Cabo Verde para os casos de o cidadão “se opuser à realização de acto relativo ao exercício das funções da Policia, ou constranger à prática de acto contrário aos seus deveres” porque este pode ser punido com pena de prisão de 1 a 5 anos.

Mesmo que tenha sido detido por desacato à autoridade, duvido que a pena neste caso seja bastonadas e um braço fracturado. Pelo que se sabe, o papel da Policia não é a de decidir a qualidade ou quantidade das penas e nem aplica-las. 

Por outro lado, já é sua missão “manter e restabelecer a segurança dos cidadãos e da propriedade pública ou privada, prevenindo ou reprimindo os actos ilícitos contra eles cometidos”, como explicita o artigo 2º da Lei Orgânica da Policia Nacional, publicada em 2007. E da Policia se espera que mantenha a segurança até mesmo dos cidadãos detidos por ela e prevenir que actos ilícitos sejam cometidos contra quem está sob sua custódia. 

Por isso que não é admissível que um jovem que seja detido por criticar a actuação policial saia da Esquadra todo quebrado. Conforme o artigo 5º, da Lei Orgânica da Policia Nacional, compete a PN “proteger as pessoas e seus bens”. Aqui não diz que as pessoas que desacatarem a autoridade ou ofenderem seus agentes não merecem ser protegidas.

Para evitar situações em que o agente, na qualidade de autoridade pública, cometa abuso grosseiro dos poderes inerentes ao exercício de funções públicas, as Medidas Cautelares de Polícia estipulam que “A PN utiliza, no âmbito das suas atribuições, as medidas cautelares de polícia legalmente previstas e aplicáveis nas condições e termos da Constituição e da lei, não podendo impor restrições ou fazer uso dos meios de coerção para além do estritamente necessário.

À Policia compete entregar os cidadãos aos tribunais para que estes decidam as medidas a serem aplicadas. Ao cidadão cabe o dever de deixar as forças policias exercerem suas funções públicas e o direito a reclamar ou propor melhorias por escrito às suas chefias.

Entretanto, se clicares aqui podes ver uma colecção de mais de 100 vídeos de pessoas a acusarem a Policia Nacional de abuso, violência, agressão, espancamento e outros actos negativos.

Finalizando, se não é possível controlar os cidadãos para não desacatarem a autoridade ou cometerem ilegalidades e irregularidades, já é possível formar-se cada vez mais melhores agentes policiais e suas chefias.

Cabo Verde agradece.


11 de maio de 2014

Apanhados de um Cabo Verde em 2030



Fui convidado pelo Centro de Politicas Estratégicas (departamento do Gabinete do Primeiro Ministro de Cabo Verde encarregue pela planificação do país a longo prazo) a reflectir sobre "Que Cabo Verde queremos em 2030."


Tratou-se de um exercício de visualizar o potencial futuro e recriar em 500 palavras aquele futuro em papel, de forma a inspirar os caboverdeanos também a fazer as suas próprias reflexões. 

O artigo está publicado no site do II Fórum Nacional de Transformação – Cabo Verde 2030 (14-16 de Maio 2014), em http://goo.gl/4P5Hvj e republicado aqui:


Apanhados de um Cabo Verde em 2030

Em 2030 Cabo Verde pode se dar conta que o sistema de Previdência Social estará com graves dificuldades para equilibrar os gastos em relação às entradas. Com o aumento da qualidade e esperança de vida dos idosos mais pessoas estarão a usufruir deste serviço e haverá uma maior pressão económica e fiscal sobre o sistema. Entretanto, as taxas de desemprego apresentadas na camada juvenil implicam que milhares não estão a descontar e isto obrigará o Estado a suportar uma população que termina a fase activa sem dinheiro para a velhice. Por isso considero que são necessárias reformas, mesmo que impopulares. 

A Saúde parece estar a implementar planos com visão tecnológica, mas males como o cancro e doenças não transmissíveis mostram uma tendência perigosa de crescimento sobre a população.

O país irá se dar conta que o centralismo trouxe um problema para Praia: a incapacidade da capital oferecer conforto, segurança e qualidade de vida à sua superpopulação atraída pelos benefícios de estar perto do centro do poder. Aquilo que antes era entendido como uma verdade inquestionável (implementar tudo o que fosse possível na Praia) irá se revelar um problema para o próprio município. Quando se iniciar a descentralização vamos nos dar conta que os quadros já estabelecidos em Santiago serão os primeiros a se oporem ao regresso às suas ilhas menos desenvolvidas. É necessário descentralizar (mas não regionalizar) e aproveitar as novas tecnologias e com isso se criar uma intranet nacional.

Na eterna batalha entre o equilíbrio da busca pela liberdade e a necessidade de segurança, os cabo-verdianos aceitarão abrir mão de certas liberdades para se sentirem mais seguros. As forças de repressão do Estado ganharão mais poder para agir, principalmente, sobre o tecido urbano periférico que estará numa luta, não de classes, mas de zonas. O tecto máximo das penas aplicadas será maior que 25 anos e haverá, pelo menos, mais uma prisão de grande porte. O país terá desmantelado a força de Infantaria do Exército e relocado o orçamento para a Marinha e Aeronáutica para prestarem um melhor serviço no patrulhamento das águas territoriais e missões de salvamento. O ponto quatro do artigo 11º da Constituição da República terá caído e a primeira base militar estrangeira será instalada no nosso território.

Cabo Verde sentirá as consequências da pesca predatória do tubarão e dos acordos de pescas e seus efeitos sobre o ecossistema marinho. Com os investimentos em barragens, agro-pecuária e energias renováveis o país conseguirá fornecer a maioria das necessidades básicas do mercado interno.

A Juventude mostrará cada vez mais distanciamento da política e os níveis de abstenção que estão a subir irão acompanhar a tendência actual. Na Cultura teremos estabelecido a protecção do direito de autor e com isso a arte se tornará rentável para mais criadores.

Por fim, já seremos campeões do Campeonato Africano das Nações e com boas prestações na Copa do Mundo mas o crioulo continuará com dificuldades em demonstrar patriotismo por falta de um plano de valorização do que é nosso.

Entretanto, este exercício de fazer um apanhado de várias áreas é feito sempre tendo em mente que as influências exteriores têm um peso enorme sobre Cabo Verde. O certo é que vale a pena acreditar e fazer bem a nossa parte.


28 de fevereiro de 2014

O jogo "Fritch Fratch" salta da nossa infância para versão 3D através de jovens crioulos


Fiz o download do “Fritch Fratch”, um dos primeiros jogos da produtora caboverdeana de vídeo-jogos, Bonako, e minha pontuação é boa. Paguei cerca de 0.99 dólares (cerca de 80 escudos) para descarregá-lo do iTunes Store e jogar no telemóvel.

O gráfico do "Fritch Fratch" é inspirado em África
O jogo é fácil de entender por isso não precisa de muitas instruções para se iniciar. O objectivo é colocar as peças em sequência, usando movimentos calculados, e não deixar o adversário fazê-lo antes. Também é possível rodar o ecrã e ter uma perspetiva 3D do tabuleiro e das peças, o que ajuda na estratégia do jogo.

Pode-se jogar contra o computador ou um adversário humano. Não existem níveis de dificuldades a serem completados e a Inteligência Artificial é básica pelo que podes esperar pouca resistência. Por se tratar de um jogo de tabuleiro com poucas opções de movimentos, o “Fritch Fratch” não é difícil de vencer. 

É possível rodar o tabuleiro e jogar "Fritch Fratch" em 3D

Ainda não existe a opção de jogar contra um amigo online ou a integração do jogo com as redes sociais, em especial o Facebook. Talvez na próxima versão será possível desafiar os amigos online para um “Ficht Fatch” (como se diz em São Vicente) e fazer campeonatos divertidos. 

A música que remete aos sons africanos combina com o jogo que é uma herança do continente negro. 


Vale a pena ter o jogo no telemóvel por ser uma digitalização de um jogo que na nossa infância jogávamos nas folhas de caderno ou desenhando o tabuleiro com giz no chão para competir com os amigos. E, já agora, por ser desenvolvido pela primeira produtora de vídeo-jogos made in Cabo Verde.

Para fazer o download do "Fritch Fratch" click aqui

Para conhecer o site da produtora click aqui


 
Design by Wordpress Theme | Bloggerized by Free Blogger Templates | coupon codes