1 de novembro de 2014

"Cabo Verde tem entrado com frequência na SPORTTV" - Sérgio Sousa, editor da estação de TV


Sérgio Sousa é o editor do canal televisivo Sport TV Portugal e tem a seu cargo a edição e apresentação dos principais serviços informativos da estação. Com cerca de 20 anos de carreira jornalística (15 deles com carteira profissional), Sérgio esteve na cidade da Praia (Cabo Verde) a dirigir um workshop sobre jornalismo desportivo para televisão no âmbito da segunda Conferência Nacional do Desporto (CND. Para além da formação (28 e 29 de Outubro), aproveitei para falar com ele sobre questões jornalismo desportivo e o seu ensino nas universidades.

Sérgio Sousa garante que as peças do jornalismo desportivo cabo-verdiano
teriam qualidade para serem emitidas na SportTV Portugal


DAIVARELA: Em primeiro lugar gostaria de lhe agradecer por esta entrevista ao blogue, tendo em conta que é uma pessoa que já está acostumada a grandes estações de televisão e transmissões de eventos mundiais.

SÉRGIO SOUSA: Sem problema. É com prazer.


Quem é o Sérgio Sousa?

A nível pessoal? Sabes que eu não gosto muito de falar sobre mim. A minha imagem pública é a mais importante. Acima de tudo sou uma pessoa que gosta do profissionalismo, de ser e estar com pessoas descontraídas e sobretudo gosto de estar com pessoas fieis. Acima de tudo há três coisas que considero importante: confiança, seriedade e profissionalismo e a boa disposição. 


Quais são os maiores desafios ao jornalismo desportivo neste momento?

Acima de tudo é a questão do jornalismo desportivo ser tratado como um jornalismo menor. As outras editorias, tais como sociedade, política e economia normalmente são mais valorizadas, especificamente na televisão, do que o jornalismo desportivo. Acha-se, e mal, que é um jornalismo menor porque diz mais respeito a coisas descontraídas, porque tem a ver com jogos e não especificamente com problemas de fundo de um determinado país ou continente ou do Mundo. Há essa tendência e isto porque o jornalismo desportivo mistura duas coisas importantes: a informação e o entretenimento. Contudo, permito-nos, acima de tudo, ter um palco privilegiado para podermos fazer um conjunto de coisas que as outras editorias não podem. Dou sempre este exemplo: o jornalista desportivo tem que fazer a cobertura de um julgamento, tem que ter noções de Medicina por causa das questões relacionadas com o dooping, tem que ter de Economia por causa dos fundos e afins e tem que estar preparado para um conjunto de áreas diferentes. Ou seja, o papel do jornalista desportivo é absolutamente fundamental.


Para ser jornalista desportivo – e tendo em conta esta noção de uma editoria menor – basta ter uma boa voz e aparência?

Não. Acima de tudo é preciso muita preparação. Em termos televisivos é importante teres uma boa aparência e trabalhares a tua voz mas é sobretudo importante estar preparado para qualquer eventualidade. Eu tenho falado no workshop em Cabo Verde: preparação e mais preparação. Não temos de saber de táctica como José Mourinho mas temos que saber interpretar a táctica que ele põe em campo. É muito trabalho de estudo prévio para se inteirar das características de uma determinadas modalidade, por exemplo. Isto é tão importante como ter uma boa imagem, voz e relação com a câmara, que também são trabalhadas.


Temos um histórico em Cabo Verde de não haver muitos jornalistas com formação de nível superior ou mesmo com especialidade nessa área. Para o jornalista desportivo: talento ou formação?

Eu não tive formação de jornalismo desportivo na universidade, por exemplo. Acredito que engloba um pouco das duas. Para já, uma abordagem empírica ao tema de forma que as pessoas vão aprendendo a medida que vão fazendo as coisas. A minha formação foi em Comunicação Social com especialidade em Jornalismo mas foi genérico. O jornalismo desportivo é vocação. Tens que gostar muito daquilo para se poder exercer. Como disse antes, o jornalista desportivo pode cobrir outras áreas mas quando um jornalista de outra área quer fazer desporto sente alguma dificuldade. Isto porque não estão habituados e não dominam o tema com frequência. 


Daquilo que já viu, temos muito que evoluir para ter uma reportagem nossa na SportTV Portugal?

O sucesso dos “Tubarões Azuis” entra e entrou na SportTV Portugal. Faz sentido porque também chegamos cá. Por exemplo, no programa “Forum SportTV” recebo muitas participações de Cabo Verde. Mando muitas vezes abraço para Cabo Verde para as pessoas que nos estão a ver aqui porque sei que é importante esta ligação. Ou seja, Cabo Verde tem entrado com frequência na SportTV.


Mas as nossas peças jornalisticas têm a qualidade técnica?

Ao nível do desporto há peças que podem entrar, feitas sobretudo por pessoas que estão aqui. Pelo que percebi há apenas um jornalista na Televisão de Cabo Verde (TCV) dedicado apenas ao desporto, que é o Victor Hugo fortes. De forma empírica conseguiu assimilar um conjunto de técnicas que lhe permitem fazer um resumo de um jogo em condições de entrar, por exemplo no Jornal da SportTV. Não tenho a menor dúvida. De resto, há que evoluir na tal transição das pessoas que colaboram na Rádio e que depois aplicam seus ensinamentos na Televisão. Um texto muito de rádio na televisão não funciona muito bem. Mas as coisas estão a evoluir e seria completamente possível.


Foram dois dias de trocas de experiências com jornalistas ligados ao desporto de Cabo Verde


Há necessidade de ser-se especializado no jornalismo desportivo?

Tem que ser especializada para poder estar por dentro dos assuntos específicos ligados ao desporto.


E é uma boa carreira?

Depende do ponto de vista. Para quem gosta e tem vocação, claro que sim. Naturalmente priva-nos e muita coisa: tempo com a família e das pessoas de quem gostamos. Priva-nos dos fins-de-semana que é quando há desporto em abundância. Priva-nos de muitas noites da Liga dos Campeões e Campeonatos Europeus e afins. Mas quem corre por gosto não cansa.


Tem acompanhado estas mudanças que os New Mídias têm introduzido no jornalismo. As novas tecnologias de comunicação conseguiram transformar o jornalismo desportivo?

Claro que sim. Sobretudo no imediatismo. Aquilo que antes vinha nos jornais no dia seguinte agora tem que vir imediatamente após os acontecimentos.


O ensino superior está a dar os primeiros passos em Cabo Verde, em especial na Comunicação Social e Jornalismo. É possível ensinar Jornalismo Desportivo?

É possível e deve-se ensinar e é precisamente por isso que vim para Cabo Verde. Porque aprendendo com a realidade – e há autores que falam disso – devemos adquirir um conjunto de técnicas e truques para poder transmitir isso às pessoas que estão a começar. São coisas essenciais na feitura de um resumo de um evento, na narração de um jogo, na antítese entre narração e comentário, na própria linguagem televisiva que de forma genérica pode e deve ser aplicado ao jornalismo desportivo. Ou seja, há aqui um conjunto de princípios que são importantes para que cada um possa criar seu estilo próprio e evitar cometer os erros que os outros fizeram quando começaram suas actividades.


Esteve a observar um pouco daquilo que se produz em Cabo Verde no jornalismo desportivo. Notou que temos mais necessidade em desenvolver a parte técnica, a linguagem televisiva ou outro aspecto?

Eu vi – e acho que é o melhor exemplo que lhe posso dar – uma grande dificuldade, sobretudo porque há partilha de meios entre a rádio e a televisão [na Rádio e Televisão de Cabo Verde], então a maior dificuldade é saber separar as águas. Tivemos exercícios no workshop que diziam respeito a forma de fazer o resumo televiso. O que assistimos é que há um texto que é lida de forma radiofónica e depois as imagens do jogo são colocadas a seguir, quando deveria ser exactamente o contrário. Há aqui um espírito da rádio muito intenso que normalmente não resulta na televisão. E há um conjunto de erros que de facto são cometidos – e eu não os vou descrever agora porque durante a formação falamos sobre isso – e que devem ser corrigidos. Acredito que é uma questão de mentalidade e de actualização daquilo que é fazer informação e jornalismo desportivo em televisão. Isto é mais importante do que os meios técnicos. Esses são importantes, bem como espaço e tempo para que o jornalista possa usufruir da melhor forma a sua actividade. Mas vejo que aqui há um conjunto de matérias bastante evoluídos, há um sistema que até é bastante interessante. Essencialmente, nesta altura é uma questão de mentalizar as pessoas para os tempos modernos e para uma série de desafios que aí vem. Mas é também uma questão de formação específica dos jornalistas nesta área do desporto.


Mas é possível esta mudança nas pessoas que já tem todo um percurso a fazer de uma forma com vícios ou isto só será possível com a nova geração de jornalistas desportivos?

Espero que seja possível alterar alguns dos vícios. Sei que não é fácil quando se está há muitos anos a fazer as coisas de uma determinada maneira. Mas isto depende da vontade e do espírito de cada um. Se eu que já tenho tantos anos de profissão quero fazer as coisa de de outra forma, posso fazê-la. Mas se sou uma pessoa acomodada e não aceito que outra pessoa me diga para fazer de outra maneira, nunca vou conseguir.

A nova geração é importante. Ainda mais tendo acções de formação como esta e aprendendo nas universidades e com uma cultura de trabalho específico do jornalismo desportivo na televisão e com novas ideias será mais fácil para as novas ideias serem implementas. Para quem já é de outra geração será uma questão de formação pessoal: ou se é capaz de ultrapassar essa barreira e querer aprender algo mais e aceitar que é possível fazer as coisas de forma diferente. Ou então, quem não quiser evoluir neste sentido irá ficar estagnado.

Evolução é necessária no jornalismo desportivo, recomenda Sérgio Sousa


Temos esta questão da parcialidade no desporto. O jornalista deve deixar claro por qual clube ele torce ou deve manter em segredo?

Isto é uma opção de cada um. No meu caso acho que não o deve fazer por um motivo muito simples: pode ser apanhado em directo numa circunstância que lhe fuja ao controlo e no desporto há um pouco de fundamentalismo. Sobretudo no futebol. Não por mim porque não teria problemas mas sobretudo por quem está do outro lado; o público não perdoa. E quando tratamos de coisas fundamentalistas que mexem com emoções e com paixão, as coisas podem ser levadas ao extremo. Ao estarmos associados a um clube podem-nos dizer que o trabalho foi todo direcionado nesse aspecto. Falando do caso português, disseram que sou do Benfica, do Porto e do Sporting. Resta saber quem poderia acertar.


Em Cabo Verde não temos um periódico impresso que seja dedicado ao desporto. Tendo em conta a experiência de Portugal, que dificuldades espera quem se lançar neste empreendimento?

Não sei se é fácil implementar um periódico. Vocês têm a questão difícil da insularidade. O que vejo é que a informação demora muito a chegar. Não há meios para se estar constantemente nas diferentes ilhas. Este é sobretudo um problema de difícil solução. Entretanto, considero que qualquer país tem espaço para um jornal diário dedicado ao desporto. Agora, temos exemplos de países como Inglaterra que não tem diários desportivos. No outro extremo, um país com 10 milhões de habitantes como Portugal tem três diários desportivos. Há que encontrar aqui o meio-termo mas tudo depende dos meios que se possa colocar à disposição deste jornal. Se puder estar presente nas ilhas todas para poder fazer um bom trabalho, vale a pena apostar. 


Nas universidades, os estudantes devem dar maior atenção às teorias ou é a prática que fará a diferença?

É a prática que fará toda a diferença. As noções teóricas – tenho insistido durante o workshop – podem nos ajudar em termos práticos. 


Como é que se ensina a crónica desportiva?

É muito difícil. Deixo isto mais para os especialistas dos jornais porque a crónica no impresso é completamente diferente da crónica na televisão. Isto vai um pouco além do âmbito do jornalismo. Um comentador ou cronista é alguém que emite a sua opinião e neste caso não estamos a entrar bem no domínio do jornalismo. Crónica é opinião e por isso há que se saber separar muito bem as águas entre o jornalista (que deve ser isento) e o cronista que dá a sua opinião.


Com as novas tecnologias temos pessoas a investir em blogues e sites dedicados ao desporto…

Vejo isto. Há muita gente a vir falar comigo e a dizer que estão a criar um blogue de desporto e acho isto óptimo.


Mas isto acarreta algum perigo para os meios de comunicação social tradicional?

Creio que não. Por exemplo, a televisão terá sempre seus directos que o grande público exige que sejam feitos na televisão. A principal discussão é entre os novos Mídias e o jornal impresso. Verifica-se até esta altura que não há substituto. Estes blogues poderão complementar com seu carácter de imediatismo.


DAIVARELA: Muito obrigado pela sua disponibilidade

SÉRGIO Sousa: Eu é que agradeço.


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