13 de julho de 2013

Bana: foi-se o corpo cativo mas fica a alma viva


Bana é, reconhecidamente, um dos pilares da nossa formação como pessoa e como crioulo. É através da sua voz que sente-se muito do pulsar daquilo que é ser-se crioulo. Sua música cria uma espécie de pertença à uma caboverdeanidade que não se consegue explicar mas que se pode sentir. Pode-se dizer que é uma impossibilidade existencial dizer-se caboverdeano e não apreciar Bana. Para aqueles que tiveram o privilégio de fazer parte da geração que (ainda) ouviu Bana de forma mais constante nas ondas da rádio a notícia do seu falecimento é deveras triste.

Ninguém é eterno sobre a face da Terra mas Bana mostrou que não era apenas “a voz de touro” mas também um guerreiro que navegou na vida: cerca de 70 anos de carreira, mais de 50 trabalhos discográficos e aos 81 anos dá “carga de quatro” como cantou na morna “Bai ta rolá (Carga de quate)”, de Jotamont. Bana conheceu palcos do Mundo inteiro e viu terra grande para explicar a todos que para o crioulo “cima ta dzid pa tradição, dpos de sab morré ca nada”. Por isso, para um eterno, morrer não é nada.

Uma voz que se confunde com o percurso de Cabo Verde e que soube tão bem contar e cantar a nossa História. Através das ondas da rádio nacional descobriu-se que o enterro de António Aurélio Gonçalves (morna “Sodade de Nhô Roque" – Manel d’Novas) foi um golpe bem duro para grandes e pequenos.

Foi Bana que nos fez rir ao saber que, no meio do desespero e confusão do incêndio na Ilha da Madeira (Mindelo), alguém tinha comido cachorro em vez de cabrito (coladera “C´mê catchôrr” - Manuel d' Novas). Foi ele que nos ensinou que “um vez Soncent era sab, um vez Soncent era ot coza” e que por isso “estapora do diabe, estod li dssegod; sab ne mi, sab na bo”. Através da sua voz soubemos que a Avenida Marginal é que estava na moda e era onde no luar de madruga brincava-se mãe ma pai.

A festa rija no Djar Fogo (coladera “1º de Maio” – Pedro Rodrigues) que mostra a riqueza e grandeza da nossa cultura na sua voz tornou-se mais rija. Foi o embaixador da morna também que nos contou que “Sang di berona ele é sab ele é doce” e alertou que “hoje tude gote pingode é um compositor na nôs terra”. Na sua voz podemos ouvir o conselho de um ancião quando nos diz “ca no estragá nôs paraíso, ess jardim qui no plantá na mei di dor e miséria." A voz de touro sempre quis ver sua terra na harmonia da sua cultura, de Barlavento a Sotavento, porque sabia da nossa sina de pouca sorte onde “si ca tem tchuba, morré di sede; si tchuba bem, morré fogado”

Um dos maiores mistérios do imaginário musical é saber do que fala Bana na música “Mort d’um Tchuk”, coladera de Manel d’Novas, quando nos deixou intrigado ao cantar “um vra pa trás pa verificá, o que um oia ca ta contob”. Ele não revelou e deixou-nos com um “fitchi fatchi na tracolança”, e na mistura do nosso crioulo cantou nosso sentimento em serenata. Fica aqui o pedido do "companheiro da nossa vida" quando bate em retirada: "ca bocês tcha morré folclore di nôs terra".

Faleceu Adriano Gonçalves lá na terra longe, mas Bana, o rei, este permanecerá eterno como aquele que nos cantou como gente e como povo. Infelizmente, o rei será enterrado distante do seu querido torrão, Mindelo, a quem dedicou várias mornas de amor e por quem pedia vida e saúde para ver o seu franco progresso. Será enterrado “na nôs querid Portugal” perto das “ondas sagradas do Tejo” onde poderá dar o “bejo de sodade” e de mágoa para o mar levar à sua terra na ninfa do Tejo, a Barca Sagres. 

Agora é altura de “comprá calça panu bitchu e camisa tabelado” e prestar o tributo final ao rei nesta “hora di bai, hora di dor”. O corpo cativo foi-se porque é escravo mas a alma viva, quem a irá levar?


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