18 de junho de 2013

Homenagem ou crime? - a nova moda dos “samples” na música cabo-verdiana


O movimento hip hop crioulo encontra-se constantemente a produzir músicas
originais que tem caído no gosto de muitos, na sua maioria jovens e adolescentes. Entretanto, alguns destes rappers e produtores estão a optar pela técnica de usar um pequeno trecho de uma música, principalmente cabo-verdiana, modifica-la e usa-la em uma nova gravação. Para alguns é uma forma de homenagem, mas feito sem autorização pode ser considerado um crime.


Conhecido na linguagem musical como “samplear”, esta prática é usual desde 1970, principalmente na cultura hip-hop americana, e há muito que as músicas cabo-verdianas são modificadas para melhorar as produções dos jovens rappers crioulos. Feito na maioria das vezes sem o conhecimento do autor, estes “samples” são vistos por uns como uma forma de prestar homenagem a um artista que admiram e querem divulgar, mas também há quem os vê como crime. Por exemplo, a Lei Cabo-verdiana, no artigo 125º que fala sobre a violação de direitos patrimoniais, considera que utilizar sem autorização, no todo ou em parte, uma obra artística é crime de usurpação. E tem reservado uma pena de prisão de até um ano para este que é considerado um crime público. O certo é que pelo que se tem visto e ouvido, os “samples” estão a tornar-se uso corrente. 

Contudo, a maioria dos músicos nem se preocupa em contactar o autor antes de avançar, reconhece o produtor musical e cantor, Jaime Andrade. No seu estúdio situado no Mindelo, já usou “samples” de músicas cabo-verdianas e neste momento prepara-se para lançar um CD com algumas músicas “sampladas”. Em duas faixas garante ter a autorização dos próprios donos e na outra usará uma música popular. Mesmo assim, Jaime Andrade acredita que a questão do “sample” tem-se colocado quando é feito por artistas mais conhecidos ou uma editora com poder financeiro por trás, mas que tratando-se daqueles com pouco poder financeiro já não há muita reclamação. “E em Cabo verde quem “sampla” mais música são os artistas com menos poder económico por isso não estão a ser chateados”, afirma o produtor.


Qualidade define a reacção do autor original

“Se a música ficar boa, o autor fica contente. Se ficar má, ele zanga-se e fala mal do cantor”, brinca Jaime Andrade que, com os seus anos de estrada, afirma que não vale a pena brigar pelos direitos de autor nesta presente conjuntura. “Há anos que ouço falar disso mas ainda não vi nada de concreto. Para isso era preciso uma instituição activa porque o direito do autor não é nada complicado. Basta cada um fazer a sua parte”, afirma o produtor musical que considera o próprio Estado como um dos maiores prevaricadores ao “usar e abusar” das músicas sem pagar nada em troca.

Dependendo das qualidades do “beatmaker” ou produtor musical, um “sample” pode ser modificado de tal forma que não se consegue facilmente reconhecer a sua origem. E como estamos num mercado não regulamentado, os problemas maiores poderão advir da música importada ou de uma ou outra editora nacional com música registada na Europa. 


O problema não é o dinheiro

Guy Ramos Sr.
Uma questão que alguns países já conseguiram ultrapassar, como é o caso da Holanda, onde reside o compositor e produtor musical, Guy Ramos. Autor de mais de 50 músicas tocadas em várias partes do Mundo, o músico revela que por uma vez um cantor pegou apenas algumas estrofes da sua letra e meteu novas ideias para o lançar como sua. “Mas ele não ficou sem ouvir minha reclamação”, afirma Guy Ramos que reconhece não haver forma de receber parte dos seus direitos de autor em Cabo Verde. “O problema nem é o dinheiro mas sim o princípio”, admite o produtor que mostra-se disposto até a doar a quantia para uma instituição de cariz social, desde que a receba. 

Quem admite já ter usado ”samples” de música cabo-verdiana nos seus trabalhos é o produtor musical, Amaral “GolBeats Pro” Fortes, mas não chegou a pedir a autorização
GolBeats Pro
ao autor. “É uma coisa que me preocupa mas às vezes é quase impossível falar com o artista”, afirma o “beatmaker”. A música “Poc li denté é tcheu”, composição de Nhelas Spencer e que foi incluída no álbum “Navega” de Mayra Andrade foi modificada para o CD “Kastel d’Karta”, do grupo da Ribeira Grande de Santo Antão, os “G-RapperZ”. Mesmo não usando muitos “samples” nas suas criações, GolBeats Pro diz que prefere privilegiar música de Cabo Verde do que as estrangeiras. Entretanto, reconhece que admitiria que outro fosse “samplar” a sua música desde que não a usasse para fins lucrativos.


Para alguns artista é um prazer ser “samplado”

Por seu lado, o cantor e compositor Américo Brito avança que desde que o resultado seja bom e que se pague os direitos do autor, não se importa que suas músicas sejam “sampladas”. “É um grande prazer para mim que alguém gosta das minhas composições e queiram usá-las”, diz Américo Brito que vê nisso mais uma promoção do seu trabalho do que algo negativo.
Américo Brito

Reconhecido como parte da cultura hip-hop, esta técnica de pegar pedaços de músicas previamente gravados para alterá-los num sampler (equipamento electrónico) ganha espaço em Cabo Verde, juntamente com a grande produção musical dos jovens. Por agora o presidente da Sociedade Cabo-verdiana de Autores, Daniel Spínola, garante que não houve nenhuma queixa dos sócios do SOCA. “Caso apresentem reclamações é preciso notar-se que esta é uma competência dos tribunais, podendo a SOCA dar alguma assistência técnica”, termina Spínola.

Mas para os amantes da boa música, com “samples” ou sem eles, o importante é que o produto tenha qualidade e dê prazer musical. O resto… bom, o resto é o resto.



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