5 de janeiro de 2013

Cruzes! Então é assim que está o desemprego em São Vicente?

Calú terminou a universidade este ano com a consciência de que São Vicente atravessa uma grave crise de desemprego. Sai na quinta-feira para procurar seu primeiro emprego num instituto do Estado dirigido pelo primo do seu tio.

- Então você não tem experiência profissional e saiu agora dos bancos da escola e quer trabalhar connosco só porque somos família? – pergunta o director do serviço.

- Sim… - diz Calú, meio desconfiado.

- Está bem. Tens carro?

- Tinha um carrinho de mão que usava para vender verduras na Rua de Matigim.

- Pois agora terás um BMW topo de gama com depósito cheio de combustível pago através de vales na conta do Estado e um jipe de cabine dupla para levar teu filho na escola e tua mulher para o Plurim d’Pexe.

Calú arregalou os olhos e pensou que já não era preciso mais regalias neste trabalho mas o director queria saber quanto ganhava antes.

- As vendas não iam bem e às vezes os fiscais da Câmara apareciam por lá tomavam nossos balaios mas conseguia pagar a universidade e fazer umas dívidas na loja da minha vizinha.

- Pois agora vais ganhar 600 contos por mês. E isto após descontos.

- Após descontos? – Calú nem queria acreditar.

- Viajas muito? – perguntou o primo do seu tio.

- O mais longe que já viajei foi quando vim do Porto Novo para São Vicente.

- Então prepara-te porque agora vais viajar muito porque estarás em missão de serviço a cada 45 dias e com direito a passaporte diplomático. Tens que fazer contactos na Europa, Portugal, Brasil, China e América.

- E quando começo a trabalhar? – quis saber ansioso.

- Se tudo correr bem já na segunda-feira poderás apresentar-te no teu posto. Deixa-me só enviar este fax para Praia para ser confirmado. Fazemos assim: se até a meia-noite da sexta-feira não receberes nenhum email meu é porque o trabalho é teu.

Calú foi para casa radiante. Mesmo que um pouco indeciso por causa do possível email gritou para que a festa começasse. Todo mundo falava ao mesmo tempo e o cão ladrava estranhamente. Apareceram dois tocadores de guitarras ao peito. Acenderam a grelha e começaram a tocar “Mort d’um tchuk” e já não se ouvia mais o cão. De seguida servia-se cabrito, vinho e cerveja para todos. Maria, a mãe d’fidje do Calú, dizia-lhe para tomar mais fiado porque o que tinham não chegava para comemorar com tanta gente. Ela comentou que crioulo só se reúne em três ocasiões: festa, enterro e guerras de família.

Mas Calú estava sempre atento ao portátil para ver se recebia o email. Como tinha um pendrive de internet móvel que não tinha um bom sinal estava sempre a levar o computador para o terraço para confirmar a ligação. Onze e meia e nem sinal do email do director do instituto. Mãos para cima a dançar “rabadob”.

Apareceram várias meninas “pelárob” a reconhecer a beleza e generosidade de Calú. Começaram a dançar à volta dele e para mostrar o tamanho da sua alegria elas colocavam as mãos no chão e remexiam a cintura. Onze horas e 59 minutos.

De repente Calú ouve o sinal do portátil de que recebeu um novo email. Os tocadores pararam a música e começaram a meter os instrumentos nos estojos, as meninas já não querem dançar mais com ele e afastam-se rapidamente. Maria grita que bem avisou para que o Calú não gastasse o que não tinham no fiado. O cão começa a latir de novo e algumas pessoas suspiram de alívio.

Calú abre o email e fica com uma cara sombria mas logo de seguida grita:

- Podem continuar a festa. É só minha mãe que morreu!


2 comentários:

Perturbod disse...

hehehehehe

Anónimo disse...

Adorei Dai Varela.
Continuá assim que bó ten futuro alás já bó é presente..Ess ficção ta demostra a realidade que temos cá em Cabo Verde.Gente ta vivê daquilo kel ta ganhá e daquilo kel ka ta ganhá. kriolo é só bajofe.Sofia

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