22 de novembro de 2012

Santa Maria do Sal: No Stress

NOTA: crónica publicada no jornal A Nação Nº273 de 22 de Novembro de 2012.


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Para quem quer se sentir turista no Sal o local ideal é a cidade de Santa Maria. Aqui suas magníficas praias fervilham de jovens musculados, queimados pelo sol e cabelos rasta que se exibem para as turistas brancas de meia-idade. Muitas delas nem mostram tanto pudor assim em esconder que querem aproveitar, nessa uma semana ou dez dias das suas férias, tudo o que de exótico Cabo Verde pode oferecer. Mesmo que para isso não resistam em pagar para ter sol, praia, mar e carinho. É o reflexo do boom turístico que alimenta vários tipos de economias. 

Daivarela num pouco de relax na praia de
Santa Maria após muito trabalho na ilha do Sal 
Mas de dia estas mesmas turistas quase que também não conseguem resistir à simpatia dos vendedores de artesanato da costa africana. Com um largo sorriso cumprimentam e depois esquecem-se de devolver a mão aos seus donos enquanto estes não acederem em conhecer ou comprar algo. E são mais de 60 lojas “No Stress” espalhadas nas ruas da pequena localidade turística. Não se sabe se os proprietários fizeram uma reunião antes para decidir isso, mas a verdade é que em quase todas as lojas tem escrito, pintado ou colado os dizeres “No Stress”. Aqui reina o artesanato típico dos países continentais, muitos deles com o selo “Made in Cabo Verde”. Entretanto, apesar das muitas reclamações de alguns crioulos, nenhum desses vendedores parece interessado em ofuscar o artesanato típico cabo-verdiano; até porque, se este é pouco expressivo, não é por culpa deles. Vende-se o que se tem e o que o cliente quer comprar. 


E por falar em ruas, Santa Maria deve ser o local de Cabo Verde com mais sinais de trânsito de proibição e/ou obrigação. A condução deve ser feita com cuidado para não se entrar à esquerda quando a obrigação dizia para seguir pela direita antes de encontrar uma proibição de entrar naquela outra esquina. Os salenses dizem que esta é uma estratégia para fazer o turista conhecer o máximo da localidade. Pela nossa experiência ao volante, resulta. 

O Centro de Saúde de Santa Maria é muito criticado
pela população por causa das fracas conduições
Contudo, é bom ter cautela mesmo porque os cuidados de saúde nesta cidade turística são muito precários. O Centro de Saúde é referido pelas suas gentes de forma depreciativa por causa das suas fracas condições. A farmácia “Rama”, a única num local que serve a população local e mais de 300 mil turistas por ano, está quase sempre sem remédios disponíveis. Até mesmo para comprar uma simples aspirina é preciso apanhar um hiace por 100 escudos e fazer os 22 quilómetros até Espargos. A alternativa é a clínica médica privada mas que fecha as seis horas, por isso, até o final da tarde as pessoas tem que receber alta e continuar o tratamento em casa. Ainda bem que esta população tem ares saudáveis por causa da proximidade ao mar. 

Quando a noite cai aparecem turistas dos muitos becos escuros, muito por causa da deficiente iluminação pública, à procura de animação nos bares. Quer seja turista ou nacional qualquer um recebe troco em moeda de um euro como se fosse a coisa mais natural do mundo. O euro tornou-se moeda corrente no Sal e ninguém avisou os forasteiros das outras ilhas. 

E é dentro destes estabelecimentos ou à volta deles que, crioulas e meninas da costa africana negoceiam a diversão enquanto vendedeiras de “drops” e cigarros fazem um extra ao vender por 50 escudos o mesmo preservativo que é oferecido no Centro de Saúde. É a lógica de que tudo torna-se mais caro na madrugada. 

Para quem chega de fora, as cerca de 30 jovens oriundas do continente negro que estão na prostituição em Santa Maria chamam a atenção rapidamente. São novas, bonitas, de pele bem negra e directas na abordagem: “Boa noite. Do you want 'bisniss'?” [Queres negócio?], perguntam sem rodeios. Para aqueles que acedem à tentação, o preço varia de quatro mil escudos para o turista e dois mil para o nacional. O taxista que me transporta diz que não sabe como chegam à ilha porque nem ele nem os seus companheiros as vão buscar ao aeroporto de Espargos ou ao porto da Palmeira. Mas que elas estão em Santa Maria, estão. 

Sem surpresa, repara-se que as pessoas em Santa Maria, e principalmente os taxistas, mostram-se à vontade para comunicarem-se em italiano, inglês, francês ou outra língua que dê para ganhar a vida com as mais de 30 nacionalidades que residem ou transitem pela ilha. Este é também um local onde os turistas passeiam-se em grupo ou sozinhos, de dia ou de noite, de forma tranquila. Não há uma expressiva presença policial mas a sensação de segurança é grande. 

Nota-se que as praias, e também a cidade, enfrenta o problema da superpopulação de cães. Os animais convivem tranquilamente entre turistas e estes amigos de quatro patas aproveitam para fazerem suas necessidades nas areias finas, sem nenhuma finura. Para evitar o acumular de sujeira alguns donos de hotéis limpam as zonas circundantes aos seus empreendimentos mas até hoje ninguém sabe se a limpeza dos cerca de sete quilómetros de praia é responsabilidade do Instituto Marítimo e Portuário, da Câmara Municipal do Sal (CMS) ou de outra entidade qualquer. 

Praia de Santa Maria
Entretanto, não é apenas na orla marítima que existe esta indefinição: a recém-construída Avenida dos Hotéis, a infraestrutura rodoviária que liga a cidade turística, é considerada “terra de ninguém” porque não se sabe de quem é a responsabilidade para limpar o local. Se é o Ministério das Infraestruturas, de Sara Lopes, que executou a obra de 500 mil contos, ou se é a CMS, de Jorge Figueiredo. E também ninguém sabe quem deve fazer a troca das lâmpadas fundidas nos postes de iluminação pública. Perguntamos mas ninguém soube dar conta. 

É assim Santa Maria. Dia e noite as ofertas de lazer e diversão nas praias e ruas principais parecem ilimitadas enquanto nas ruas secundárias a população local vai desenrascando suas dificuldades básicas como pode, tranquilamente. Tipo, “no stress”. 



9 comentários:

Anónimo disse...

boa crónica Day, bo escse d fala d kel praia bnit por natureza e "suje" pela mão dos homens (tok d cigórr, garrafa d'ága, bolsinha d plástico, etc) ahhh sem fala q ao pé d pontão vra uma autentica "c z'nhóla" (cozinha)dakel pessoal q ta usa kel galpão d pescadores... enfim... "no stress" pq "súl" ta continua "cúl"! Bençon.
Hércules Ramalho

dai varela disse...

Thanks nha broda Hércules Ramalho. Lá ne Pontão um dvé ter passod la fora de hora de refeição pamod um k oiá ninguém com panela ne lume. Ate pq um tava aproveitá log pe da um palm la tb.
Um fka vontad de ter bo oiod la pe Santa Maria. Da proxima no te encontrá ou cond bo bem pem Sv bo da fala.
Deus bensoob, nhe mnine :)

zito azevedo disse...

GOOD STUFF...O amigo Hercules tem razão: a praia de s.maria, (pelo menos a que eu conheci nos anos de 1950)
é um espectaculo. Era uma praia limpíssima e a água tão cristalina que se via o fundo do mar a profundidades de mais de 20 metros...Só visto!

dai varela disse...

Thank you, Zito Azevedo, mas para minha tristeza só consegui entrar no mar algumas horas antes de apanhar o voo para Mindelo, coisa que me arrependi porque a água é deveras uma "sabura" e deveria ter aproveitado mais. Ossos do ofício.

Anónimo disse...

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Manuel Antonio Duarte disse...

Muito bem Dai

Continua bem!

dai varela disse...

Agradecido Manuel Antonio Duarte

Maurino Delgado disse...

Gostei bastante.
No tempo em que arranjar uma passagem de avião para Portugal era muito dificil, cheguei no Sal e, apesar de ter Ok no meu bilhete, não pude viajar. Depois de ter experimentado uma revolta enorme eu e outros companheiros fomos hospedados no hotel que ficava próximo do Aeroporto.(Não me lembro o nome do hotel, sei que eram antigas instações militares que foram adaptadas). No meio da desgraça, felizmente,tive a sorte de descobrir a Praia de Santa Maria.Esqueci as arrelias. Foram cinco dias maravilhosos, uma sensação de prazer enorme me invadia o corpo quando aí nadava, que nunca tinha experimentado noutras praias. É certo, que perdi cinco dias nas minhas férias mas, por outro lado, fui compensado pela doçura daquele mar. Nunca mais lá volteio. Naquele tempo, não me recordo de ver visto turistas por aí. Se os havia, passaram-me despercebidos.Pelo que depreendi da tua crónica, a Vila está um bocado ao abandono. Não pode ser! Quem de direito, a começar pela Câmara Municipal deve dar mais atenção a Santa Maria, não só pela sua importância histórica, como pelo seu valor turístico. É porque não valorizamos o que é nosso, que estamos atrasados e,`muitas vezes, não é por falta de dinheiro, mas sim falta de iniciativa. Espero que a tua crónica não passe despercebida aos dirigentes deste País. FORÇA! Maurino

dai varela disse...

Maurino Delgado gostei de saber que estiveste por cá. Deves tentar ir outra vez para Santa Maria porque as praias continuam muito boas.
Abraço

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