21 de junho de 2012

Escolas criam jovens sem memória

A intenção deste texto não é desculpar o desconhecimento da história de Cabo Verde pelos jovens estudantes ou apontar o dedo apenas ao sistema de ensino. Mas, se as escolas têm um papel fundamental em dar sentido histórico aos factos, de criar a memória de um povo, então podemos admitir que estamos a criar jovens desmemoriados acerca do nosso passado histórico. Agora resta saber de quem é a culpa. 

Afinal, como é que se exige à juventude que tenha um maior conhecimento do seu legado quando são os próprios professores de História que lamentam a falta de manuais para leccionar a disciplina? Como querem que o jovem reconheça o contributo da Cidade Velha (Ribeira Grande de Santiago, 1462) na construção da nossa identidade se não a estudam? Como é que se quer que um adolescente saiba qual o papel de Nha Ana Veiga na Revolta de Rubom Manel (Santa Catarina, 1910) ou do Capitão Ambrósio (Mindelo, 1930), ou de outros que certamente desconheço, quando não há uma sistematização escolar dos seus estudos? Os jovens desconhecem suas heranças? Certamente, ora. 

Mas também os mais velhos que melhor a conhecem não estão a mudar o sistema para minimizar estas lacunas. Efectivamente, os estudantes demonstram um fraco interesse por esta matéria mas também há que apontar o dedo a quem definiu os planos curriculares e que deu primazia à História dos “outros”. 

O nosso sistema de ensino determinou há muito tempo que no 7º ano deve-se estudar assuntos como a génese e a consolidação das estruturas feudais no nascimento da Europa. No 9º ano tem-se que saber quais as grandes civilizações do Mediterrâneo ou então ter na ponta da língua a formação dos reinos cristãos na Europa. Para passar no 10º ano é preciso decorar o papel de Portugal no cruzamento das rotas do Mediterrâneo para o Mar do Norte. Já no 11º está-se bem preparado para saber quais os particularismos na Europa do Sul e do Leste. Ainda se tem que preocupar com o dinamismo sociopolítico dos estados mercantis do Norte da Europa. A questão que fica é qual o espaço para estudar a nossa história? 

A resposta à tal pergunta depende muito do professor, que indicará textos dispersos e fotocopiados porque ainda não foi implementado uma reforma dos manuais capaz de introduzir esta temática como instrumento de educação. Então é precisamente isto que precisa ser mudado: a introdução de manuais de história que incidem sobre nosso país, nosso povo e herança. Porque o estudo da nossa história permite também melhor avaliar a noção do nosso progresso e saber onde estamos para definir novos caminhos. 

Não quero dizer com isso que não devemos conhecer a história dos outros até porque não é possível compreender a nossa sem a relacionar com a dos outros. É preciso ensinar que nossa história não está somente relacionada com a Europa. Temos de saber se nossa relação com África é somente a referência de que os escravos foram trazidos aqui para ajudar na colonização ou mais do que isso, ver já agora até que ponto a independência de Cabo Verde está ou não ligada à emancipação de todo o continente. 

Agora, o que não é admissível é exigir ao jovem um conhecimento que a própria escola não disponibiliza e tem deficiência em criar motivação nos alunos para a procurarem. Desconhecermos a nossa história enquanto povo é o mesmo que desconhecer a história da nossa própria família, do nosso bairro, da nossa ilha, etc. Tudo está interligado. 

Por exemplo, que alguém tente perguntar a um jovem que quatro datas importantes para Cabo Verde. Facilmente se perceberá que a nossa história ficou retida na memória que o nosso achamento se deu em 1460, conseguimos a Independência em 1975 e que tivemos a abertura política em 1991. O curioso é que se desconhece o que se passou entre estas datas. É como se houvesse um “hiato” ou um vazio temporal. Como se durante este tempo não houve nada de relevante ou não se registou os acontecimentos. Ou então não se ensina sobre isso nas escolas. 

Cabo Verde como qualquer outro país fez o seu percurso e todos sabemos não ele não é linear. Ele é feito também por aquilo que está entre as datas, por aquilo que não sabemos ou naquilo que não queremos remexer. Se temos capacidade técnica e os registos vamos aproveitar a próxima reforma do ensino para introduzir manuais de História que preencham estas lacunas. Mas também que sejam livros que motivem os alunos a conhecer essa história feita de momentos de valentia, de fome, de alegria, de receios, de perdas, de sofrimentos e de conquistas, por exemplo, a nossa graduação a país de rendimento médio. 

Felizmente, nem tudo está perdido. Mesmo fora do sistema de ensino é possível identificar a preocupação dos jovens em conhecer e divulgar nossa herança. Basta observar, por exemplo, a juventude artística – cantores, artistas plásticos, das artes cénicas, escritores, dança e outros – para se notar que fazem pesquisas sobre nossa herança e também questionam estes vazios temporais, aquilo que não é ensinado. Isso pode significar que os jovens têm interesse em conhecer os nossos feitos e suas personalidades históricas. Significa também que estão a dar importância as raízes culturais do nosso povo e querem manter viva na memória as suas próprias origens. Talvez seja o próprio sistema que está a falhar e precisa ser modificado. Com esse conhecimento, talvez consigamos responder mais facilmente à pergunta: quem somos, onde estamos e para onde vamos? 


4 comentários:

jcruz disse...

bom texto, man. curti txeu so k ainda "mistério" de educacao que t cond d fazeh nada

Zito Azevedo disse...

UM POVO SEM HISTÓRIA É UM POVO SEM ALMA...
TODOS OS POVOS TÊM DIREITO À SUA HISTÓRIA...
NÃO É POSSIVEL CONSTRUÍR O FUTURO IGNORANDO O PASSADO...
As frases feitas sobre este assunto são mais do que muitas mas, atenção: é preciso que a NOSSA HISTÓRIA (ou a vossa História) não seja um repositório de eventos que apenas nos alimentam o "ego" e pintam de cor-de-rosa o que é negro, mistificam a realidade e tratam os assuntos pela rama...A História tem que ser estudada, sistematizada e compilada por cientistas historiadores e não por políticos sem visão periférica...Isso sería trágico!

Belanacv disse...

Sem uma base ou um conhecimento histórico um estudante podera ver a sua identidade em causa. É triste quando nos perguntam sobre a história do nosso país pouco ou nada temos a dizer, porque só conhecemos os eventos actuais. É necessário que os estudantes tenham acesso aos manuais e artigos sobre a história do Cabo Verde e necessário que se escrevam mais obras. Ter orgulho em ser caboverdeano(a).

daivarela disse...

bem dito, agora falta é sermos ouvidos

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