26 de maio de 2012

"Teorema do Silêncio" coloca Caplan Neves em destaque

A peça teatral “Teorema do Silêncio” não tem nada de fácil: nem no tema, nem no aspecto da dramaturgia, muito menos na interpretação e nem mesmo na encenação. Mas onde estaria o gozo nas coisas fáceis?

Propor-se a falar do drama que é o abuso sexual de menores exige primeiramente uma tomada de posição a favor das vítimas, quer queira-se ou não, e uma coragem para representar uma realidade repugnante. Mesmo tratando-se da arte onde (quase) tudo é permitido, o dramaturgo navegará sempre em turvas águas: a estética do texto e a repugnância da informação do acto condenado e condenável. 
Entretanto, Caplan Neves, autor do “Teorema do Silêncio” não é marinheiro de primeiras águas: depois de ter-se estreado com “O Jardim do Dr. Gordner Brickers” no 13º Curso de Iniciação Teatral do CCP-IC, Caplan escreveu “Androgenia” e “Casa dos Bonecos” para agora trazer aos palcos esta peça de elevada qualidade. Um drama recontado de forma não linear e bem explícita nas entrelinhas, esta que revelou-se uma característica soberba no trabalho final do autor que muito agradou na estreia este sábado (26) no Centro Cultural do Mindelo. Sentiu-se que este menino de 28 anos de Santo Antão conseguiu destapar a violência física e psicológica que acompanha o abuso sexual sem necessidade de um texto violento e conseguiu também chocar o público pelo intencionalmente não dito, pelo afastamento do óbvio e pelo incitamento ao questionamento.

Caplan Neves destaca-se como dramaturgo
Interpretações
Quem acompanha o teatro em São Vicente sabe que Fonseca Soares é da velha guarda de qualidade e que tem seus créditos firmados nos palcos crioulos. Verdade, cada peça é um momento único mas este actor já nos tem acostumado com interpretações de elevada qualidade e esta foi mais uma delas.

Quem também soube bem expressar a grande carga emocional de representar uma vítima de abusos sexuais é a brasileira Janaina Alves. Uma actriz que trouxe também um sotaque diferente aos palcos nacionais e que no final não conseguiu conter as lágrimas ao se despir da pele daquela a quem mataram a inocência, o corpo e a alma.

A encenação de João Branco é também ela soberba por se afastar do visível e do linear. Não se trata de algo como: vou contar a história de uma menina que sofreu abusos sexuais que começa no início, vai por este caminho e chega ao fim. Trata-se antes de tudo de uma envolvência dos personagens no cenário e depois do público na narrativa, sem pressas, repetitivo o suficiente para encravar na memória.

Teorema do Silêncio” é marcado pela cena de violação do Professor de Matemática à sua jovem aluna. Uma acção impressionante, a começar no texto, passando pela interpretação até chegar à escolha cénica. Quando esperava-se uma cena de luta de dois corpos e subjugação do mais fraco, a direcção artística seguiu algo completamente oposto; a cena decorre com os actores a uma distância de vários metros e toda a violação é (sub)entendida pelas falas, expressões do corpo e silêncios. Arrepiante.

Um excelente trabalho do grupo de Teatro do Centro Cultural Português / IC que já vai na sua 47ª produção teatral.

FICHA ARTÍSTICA

Texto – Caplan Neves

Encenação. Cenografia e Direcção Artística – João Branco

Interpretação – Fonseca Soares & Janaina Alves

Desenho de Luz – Edson Fortes

Fotografias – Tchitche: Photo Gira

Design do Cartaz – Neu Lopes

1 comentários:

Criola di terra disse...

Fiquei com pena de não poder ter assistido a essa peça. Esse é um tema muito polémico e cheio de tabus na nossa sociedade. De todos os crimes, a violência contra as crianças é a mais horrenda e hediondo que existe; a mais repugnante...a violência sexual então nem se fale. Um grande parabéns para Caplan e a equipa que trabalhou duramente, acredito, para conseguir levar este tema ao público. Espero, um dia, poder assisti-la.

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