26 de maio de 2012

São Pedro: Mau tempo deixa botes em terra e aldeia em dificuldades

A aldeia piscatória de São Pedro vive essencialmente da pesca e do pequeno comércio, mas por esses dias os homens do mar estão quase sempre sentados nas cadeiras da praça porque “o mar não está para peixe”. A solução para levar a panela ao lume é recorrer ao fiado nas mercearias da zona e esperar que o tempo mude para regressarem à pesca.

Mau tempo condiciona saída dos pescadores
e aumenta dificuldades de São Pedro
No último mês as saídas à faina dos cerca de 200 pescadores locais foram escassas por causa do mau tempo que se faz sentir. Este “momento fraco” justifica-se também porque a época alta da faina é a temporada do atum que acontece entre os meses de Junho e Setembro; por isso esse tempo é aproveitado para costurar as malhas das redes de pesca.

Por agora, os poucos que se aventuram ao mar vão à procura de espécies menos raras como o ‘peixe-serra’. Uma tarefa que os pescadores reconhecem ser mais facilitada pelos 16 Dispositivos de Concentração de Peixes recentemente espalhados ao redor da ilha de São Vicente que têm como missão atrair e concentrar as várias espécies de peixes para facilitar a sua captura. “De outra forma os botes regressariam quase vazios”, reconhece Hamilton Martins, vice-presidente da Associação de Pescadores de São Pedro.

Sempre à procura de alternativa, os homens de São Pedro saem ainda à cata da espécie conhecida como “búzio cabra”, que tem esse nome por causa dos dois pequenos chifres apresentados por este molusco aquático. Búzios que compradores asiáticos adquirem para venderem em outras paragens, onde são apreciados. E este tem sido das poucas fontes de rendimento para os pescadores nesta altura do ano em que o mar está agitado.


Viver de fiado à espera do mar

Outra forma encontrada pelos pescadores mais novos é tentar a sorte como tripulantes nos barcos de pesca de longo curso da Espanha, Portugal ou mesmo da China, onde ganham um salário a rondar os 50 contos/mês. “As coisas já estiveram melhor”, admitem ao A NAÇÃO os vários homens do mar que agora estão sem trabalho e sentados na praça central da aldeia. “Neste momento os barcos não estão recrutando mão-de-obra aqui e preferem ir para a Indonésia onde conseguem contratar dois pescadores pelo salário que pagam a um cabo-verdiano”, lamenta algo contrariado um dos homens.
A praça de São Pedro onde os pescadores
esperam a mudança do tempo para pescarem

Quando a pesca escasseia, tudo o resto tem tendência de parar nesta aldeia com cerca de 1600 habitantes porque a ligação com o mar é muito forte. Por outro lado, se a pescaria revela-se boa aumenta as ligações de hiaces que percorrem os cerca de 10 quilómetros para a cidade do Mindelo e seus mercados. Tudo isso faz com que o comércio nas lojinhas da zona conheça novo ânimo. É tempo de pagar as dívidas dos vários produtos de primeira necessidade comprados fiado para sobrevivência desta comunidade carenciada. “Passamos muitas dificuldades quando nossos maridos não conseguem ir à pesca”, afirma Joana Livramento, uma doméstica de 54 anos, que diz fazer “muita ginástica” para levar à panela no lume por “falta de dinheiro”. 


Desafio é melhorar a pesca

O desafio é conseguir melhorar e diferenciar o tipo de pescaria porque já reconhecem que a pesca artesanal não está a revelar-se lucrativa. Mas o problema apontado é a dificuldade de acesso ao crédito, tanto assim é que só dois pescadores da localidade já conseguiram financiamento através do Fundo de Desenvolvimento das Pescas (FDP) para construção e remodelação dos botes. Isto numa altura em que o FDP já distribuiu mais de 60 mil contos para cerca de 90 operadores de pesca em todo o país. Mas nada disto parece desanimar estes pescadores que só esperam que o tempo melhore para lançarem os botes ao mar.


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