7 de maio de 2012

[Desafio Criativo Nº4] - Conquistas perdidas!

Três dias? Três dias para viver? Como? Se ainda era tão nova? As lágrimas desciam pela minha face rosada como se de uma cachoeira se tratasse. Não podia acreditar numa coisa destas. 

Abri a porta sem ouvir as últimas palavras de consolo do médico. Não me importava a pena das pessoas. De que valia a pena? Para me fazer mais mal? Ver como uma rapariga cheia de sonhos e projectos acabaria dentro de três dias? 

A minha alma sentira o cheiro da morte e congelara. Não me importava com mais nada. Queria deitar no meu quarto, apagar as luzes e deixar que a morte viesse. Não comer, não beber, não falar com ninguém. Ninguém! Nem com o meu namorado. Tantos planos fizemos. A nossa casa já estava quase pronta e íamos casar no próximo mês. Era justo? Digam-me? É justo uma pessoa nova, com muita vida para frente morrer assim do nada? Por causa de uma maldita doença? Antes enforcar-me, ou então suicidar-me pois sabia que, pelo menos, era uma vontade minha. Mas morrer sem querer? Contra a própria vontade? Como lutar contra isto? Alô? Tem alguém ai? Tem um Deus aí? EU NÃO QUERO MORRER! 

Para ter a certeza do que foi-me dito, voltei para o médico. Ele, com a cara séria disse-me que lamentava muito mas, era a mais pura verdade. A minha doença não tinha mais remédio. 

- O que tens de fazer agora é ter muita força, falar com a tua família. Todos vocês têm de aprender como lidar com este assunto. 

- Lidar com isso? Pensei que os médicos salvavam vidas. Porque é que o senhor não salva a minha. Eu estou noiva, acabei de conseguir o meu primeiro emprego. Como vou viver só três dias? Como? – perguntei a chorar desesperadamente e sai da sala. Tinha que pensar! Não ia ser egoísta comigo, nem com as pessoas que eu amava. Não deixaria que eles sofressem e sentissem pena de mim. Foi então que tomei uma decisão: não ia contar nada a ninguém. Viveria estes três dias da minha vida com muita intensidade e alegria para que, quando fosse, todos lembrassem de mim com satisfação. 

Já eram quase onze da noite. O Carlos não viria ter comigo. Restava-me deitar e reflectir sobre tudo o que tinha vivido até ai. A partir de amanha seriam três longos dias. Os mais difíceis e os últimos da minha vida. Mas, ia dar tudo de mim. Tinha que ser forte. Fazer tudo o podia em três dias. Carreguei a minha máquina para deixar marcado estes momentos. Abri o meu computador e comecei a escrever tudo o que estava a sentir. Tinha a certeza que um dia alguém leria aquilo. 

1° Dia 

Levantei bem cedo, tomei o pequeno-almoço e fui trabalhar. Cheguei com muito entusiasmo. Era sexta-feira, e o meu último dia na minha profissão. Disse a todos que os amava muito e que eram os melhores colegas do mundo. Embora eles não tinham entendido nada ficaram satisfeitos. Tiramos várias fotos. Na hora do almoço fui para casa almoçar com os meus pais. Contamos muitas coisas de quando eu era pequena, rimos tanto. Foi dos melhores momentos que já passei com a minha família. Depois entrei no quarto e chamei a minha irmã mais nova. Abri o meu guarda – roupas e retirei de lá todas as coisas minhas que ela adorava: “Toma, ficam melhor em ti do que em mim, vou arranjar outras”. Ela ficou contente e sem palavras. A cara de alegria dela era uma das imagens que ficariam guardadas na minha mente para sempre. Regressei para o trabalho. Quando já tinha tudo adiantado abri todas as redes sociais que eu fazia parte e bloqueei-as todas. Nunca gostei da ideia de ver pessoas mortas com Facebook e outras redes sociais. Achava um desrespeito para com a pessoa. Podem ver-me em fotos mas não visitarão a minha página, porque morreu comigo. Após ter concluído tudo fui para casa do Carlos. Como sempre, tomamos banho junto, lanchamos e fomos ver a nossa casa. As lágrimas escorreram silenciosamente pela minha face. Tentei disfarçar sorrindo para que ele não notasse a minha tristeza. Combinamos fazer um passeio no próximo dia. Como estávamos ambos cansados deitamos no chão da casa e adormecemos. 

2° Dia 

No dia seguinte levantamos cedo. Arrumamos tudo e saímos rumo a aventura. Brincamos, rimos, tiramos tantas fotos. De repente paramos num lugar lindo. Fizemos várias declarações de amor. Pus-me estática a olhar para a beleza daquele homem que estava a minha frente. Aquele homem que seria meu só mais um dia. Aquele homem que eu tanto amava. Os seus olhos castanhos, corpo musculoso, a pele morena, a boca carnuda, traços do homem perfeito. Aquele que esperara desde sempre. Cheguei mais perto e resmunguei no seu ouvido: “ És, e serás sempre o homem da minha vida, nunca esqueças de mim”. Foi um momento mágico. Como se ele percebesse o que estava a passar. Olhou-me com tristeza, abraçou-me bem forte e beijou-me com ardor. Deitou-me no chão e despiu a minha roupa. Tudo muito devagar, como se estivesse a desenhar. “ És perfeita, a mulher da minha vida”. O prazer tomou conta do meu corpo. A união dos nossos corpos era tão fantástico, as lágrimas escorriam pela minha face enquanto amávamos. Ali ficamos, amando vezes e vezes seguidas até quando faltava precisamente um dia para o fim. 

3° Dia 

Lindo. Como ele era lindo. Lutei tanto por ele. Ia abandona-lo agora? Ia deixa-lo sem a sua mulher? Pus-me a olhar para ele a dormir. Era injusto! Em que mundo estávamos? Porque è que as pessoas sofrem assim? Porque não tenho o direito de escolher o que eu quero? 

Ele abriu os olhos e quando viu que eu estava a observa-lo, esboçou aquele sorriso que fez disparar o meu coração. 

- Porque estas a olhar assim para mim? – perguntou, meio a gozar meio sério. 

- Porque eu amo-te muito. Ficas tão bonito a dormir – respondi meio a sorrir meio triste. Ele levantou e beijou-me 

– Bom, temos de ir para a tua casa, hoje é domingo – resmungou enquanto espreguiçava. 

Aquilo soou como se fosse um balde de água congelada. O dia de estar com toda a família reunida, o meu último dia. Fomos para casa. Enquanto ele falava com o meu pai na sala, eu e a minha mãe preparávamos o almoço. Foi uma tarde extraordinária. Falamos de coisas passadas, muito engraçadas da qual já não me recordava. Depois de tudo despedi-me do Carlos e ele foi para casa. Ele bem que tentou convencer-me a ir dormir com ele mas não. Queria morrer onde nasci. Dei boa noite a toda a gente com abraços e beijos e rapidamente retirei-me para o meu quarto. Terminei de escrever a minha carta com as seguintes palavras: 

“Passei estes três dias com as pessoas mais importantes da minha vida. Andei montanhas com o Carlos, uma coisa que eu afirmei nunca fazer. Dei tudo a minha irmã. Fiz tudo o que podia no meu emprego de sonhos. No entanto sinto que falta alguma coisa, falta um pedido de desculpas da minha parte. Perdoem-me todos. Perdoem-me por não ter dito nada, mas não disse porque pensava na vossa felicidade. Se tivesse dito estes dias não seriam assim. Seriam lágrimas, muita tristeza, muita dor. Espero que possam perdoar-me um dia. Amo-te muito Carlos. Amo-te mama, papa e mana.” 

E foram assim as últimas palavras escritas pela minha mão. Deixei o computador aberto, deitei e fiquei a espera da minha hora. A hora em que tudo acabaria. Os meus sonhos e projectos seriam desfeitos. Tudo o que tinha conquistado seria destruído. O Carlos… 


OBS: este texto é da autoria de  Arilízia Rodrigues  e faz parte do Concurso de Escrita Criativa

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