26 de fevereiro de 2012

É urgente ter uma Casa do Carnaval, alerta presidente do Samba Tropical

Luísa Morazzo, presidente da Escola de Samba Tropical desde a sua fundação, crítica a falta de uma Casa do Carnaval em São Vicente e aponta os factores que tornariam esta festa num negócio sustentável. Enquanto isso diverte-se nessa “brincadeira que dá muita canseira”. 


Desde quando tem esta sua paixão pelo Carnaval? 

Luísa Morazzo
Sempre gostei e participei. Estou no Carnaval desde 1988 quando criámos um grupo infantil chamado “Meninos de nôs terra”. Começámos a desfilar um ano depois e desde então estou ligada ao Carnaval de São Vicente. 


Quando nasce a “Escola de Samba Tropical”? 

Em Novembro de 1988, depois de vários carnavais com crianças. Reparámos que aquilo, que começou como uma brincadeira para crianças, aumentava a cada ano e decidimos fazer um grupo mais adulto e organizado. Em Dezembro 2010 foi oficializado com o objectivo de contribuir para as actividades carnavalescas, culturais, sociais e recreativas, visando o desenvolvimento junto da sociedade. 


O próprio nome da Escola tem muita influência do Brasil… 

Na altura, das várias propostas, optámos por Escola de Samba Tropical. Isto porque dentro da categoria “tropical” poderíamos fazer muitas coisas bonitas sem ficar muito amarrados a um nome e tínhamos maiores liberdades cada vez que fossemos para o Sambódramo da Morada. 


Qual a sua resposta quando dizem que o Samba Tropical é um grupo da elite? 

Eu já nem ligo porque a verdade é que se pode encontrar gente de todos os estratos sociais no Samba. Todos. São Vicente é pequeno e cada um veste-se e escolhe a sua ala de preferência, conforme as suas posses. Mas, se acham que somos um grupo elitista porque temos organização, disciplina e transparência na apresentação das contas, então podem acusar que eu aceito naturalmente. 


Depois da grandiosidade dos andores com várias pessoas em cima deles o grupo passou a apostar em carros alegóricos mais pequenos. Porquê? 

Os carros são construídos com muita dedicação, custam centenas de contos e fazem a alegria e a beleza do Carnaval, entretanto, no dia seguinte, não há onde guardá-los. Não há um museu ou casa do carnaval ou outra forma sequer de aproveitar as peças. Foi por isso que passamos a investir nesses carros na lógica de poderem ser desmontados e transportados facilmente para poderem decorar um local. É mais prático. 


Mas assim não perdem o esplendor apresentado na noite de segunda-feira? 

Não, porque a beleza está na alegria que se transmite durante o desfile. Veja, a roupa pode-se guardar e daqui a uns meses voltar a usar, mas os andores não. Depois de tanta contrariedade e canseira para os levar à rua, na quarta-feira estão estragados e é triste vê-los. Por isso esta opção por andores pequenos. 


Porquê a opção por um tema relacionado com a astrologia para este ano? 

Escola de Samba Tropical no desfile de Carnaval'2012
O nosso tema este ano é “O Esplendor da Astrologia no Reinado da Folia”. Foi um trabalho à volta dos 12 signos do Zodíaco, sol e lua. Colocámos quase mil foliões no Sambódramo da Morada, desfilando sobre os mistérios, sabedoria e mitologia e a sua influência no astral humano. Cada traje esteve de acordo com os signos, mas mesmo assim fantasiamos porque dentro destes signos há os quatro elementos: fogo, terra, água e ar, e cada um teve seu carro alegórico. O quinto carro foi dedicado ao Sol e à Lua e todos eles foram construídos por Fernando "Nóia" Morais. Quisemos semear também nos terrenos da cultura esta mensagem de optimismo na procura da paz para com a esperança num mundo cada vez melhor, por isso o samba-enredo criado pelo Constantino Cardoso. 


Porque é que não há uma Casa do Carnaval ou Museu em São Vicente? 

Se fosse pela Escola de Samba Tropical há muito que haveria uma. Admitimos que é algo que merece um estudo com vista à sua sustentabilidade e viabilidade económica, devendo por isso envolver o Governo e a Câmara Municipal, mas também os grupos e artistas. Se houvesse esse local, da nossa parte, cederíamos os carros alegóricos e trajes, mas tem que ter alguém a suportar as outras despesas fixas que um espaço como este exige. 





Quais seriam os benefícios de uma Casa do Carnaval? 

Com um espaço do tipo poderíamos ter oficinas onde os artistas mais velhos poderiam ensinar os mais jovens. Fala-se tanto no turismo gerado pelo Carnaval mas na verdade falta um trabalho sério nesta área. 

Um outro momento deveria ser aproveitado através do Porto Grande com os barcos turistas que por aqui passam e lucrar com visitas guiadas onde estaria incluído a Casa do Carnaval. Seria uma oportunidade para mostrar a nossa cultura, vender DVD’s e CD’s, para que o turista tenha uma ideia do que é nosso Carnaval. Não estou a falar de quando chega um barco turista para pegarem uma pessoa a rodopiar e depois dizer que esse é nosso Carnaval como tem acontecido. Não é nada disso. 

Seria também uma forma privilegiada de lazer e enriquecimento cultural e relacionamento entre os povos. Por outro lado, o Carnaval mindelense tende a tornar-se, cada vez mais, um factor de atracção turística. Por exemplo, veja quantos voos chegaram com emigrantes e turistas para a festa deste ano. Isto é algo que não acontecia antes onde suas férias eram marcadas essencialmente para o verão. Houve um ano que fizemos um Carnaval com música totalmente dedicada aos emigrantes. Eles gostaram e cada vez aparece mais gente nos ensaios onde pessoas emigradas em várias partes do mundo reencontram amigos e abraçam-se com grande alegria e amor. Tudo isso é bonito e bom para nossa terra. 


Quais os maiores constrangimentos ao Carnaval em São Vicente? 

Um dos maiores constrangimentos é a falta de espaço para confecção dos carros alegóricos. Apesar da Câmara Municipal ter criado um espaço, ele fica longe pelo que não pode ser devidamente aproveitado. Outro problema é encontrar um lugar para os ensaios pelo que ao longo dos anos já ensaiamos em todos os lugares possíveis, incluído na rua. 

Temos também necessidade de formação e reciclagem. Cada vez há menos artistas a conceber os desenhos e a executarem. Aqueles com mais idade estão a cansar-se e a saturarem-se, mas a verdade é que eles têm capacidade para formar outras pessoas. É só criar as condições para eles ensinarem jovens com talento. 

O nosso Carnaval é um património cultural onde se pode encontrar compositores, cantores, bailarinas, modistas, escultores e um leque variado de artistas. Porque não preservar tudo isso criando condições ou encontrando soluções económicas para sua sustentabilidade. Isso é sonhar muito? Acho que não. 


Pretende sair da “Escola de Samba Tropical”? 

Mais dia, menos dia, sim. Temos nosso estatuto como associação e cada um dos nossos vinte elementos tem a sua tarefa no grupo, por isso, com a minha saída, saberão o que fazer. Estou na presidência do grupo desde a sua fundação. Até pareço aqueles políticos agarrados ao poder (risos). Na verdade, foram sempre eles que pediram para que eu mantivesse à frente do grupo, mas, como tudo na vida, o meu mandato também tem um fim. 


Isso quer dizer que se sair o grupo não acaba? 

Claro que não. Já somos uma associação e há eleição para escolher novos corpos gerentes. Há que ter garra para continuar porque sempre brincamos o Carnaval e não será por isso que iremos parar. 


Qual o futuro do “Samba Tropical”? 

O futuro a Deus pertence. 



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