8 de janeiro de 2012

Autoridade versus Idolatria

OBS: esta é minha tradução livre da versão espanhola do texto fotocopiado sobre Teoria da Representação da Imagem.

A política com maiúscula requer líderes com autoridade. As políticas da vida, ao contrário, necessitam de ídolos. A diferença entre um e outro não poderia ser maior, apesar de que a alguns líderes se idolatram e que as vezes os ídolos se arrogam a autoridade a partir da grandeza do seu culto.

A política é muitas coisas, mas dificilmente poderia ser uma dessas coisas se não fosse em primeiro lugar a arte de traduzir problemas individuais em assuntos públicos, e interesses comuns em obrigações individuais.

As políticas de vida, pelo contrário, são egocêntricas e auto-referenciais e estão desde o princípio limitadas a um marco individual: trata-se de lutar pelo “espaço” da própria identidade individual, preservando a dos outros.

Aqui é que os ídolos entram em acção. Ao veicular-se a demanda de modelos de uma boa sociedade, e ao torná-los mais difíceis de alcançar, tendem a atrair um público potencial. A demanda de modelos de uma boa vida (de uma boa vida individual, com objectivos e satisfações individuais) aumenta exponencialmente. A diferença com os líderes é que os ídolos estão sendo feitos à medida da nova demanda. Os ídolos não mostram o caminho a seguir: apresentam-se a si próprios como exemplos.

Num mundo em que as políticas de vida individuais inibem totalmente o desenvolvimento de qualquer outra actividade política, os exemplos exercem melhor função que os programas e plataformas e as revistas cor-de-rosa sobre famosos cumprem melhor papel do que reuniões políticas, manifestos ou panfletos. São, por certo, o instrumento educativo indispensável do qual as políticas de vida não poderiam prescindir e tão pouco poderiam obter de outra fonte.

Para inculcar o exemplo mostrado com a autoridade necessária para transformar uma mera aventura individual em um modelo imitável, é necessário uma massa de espectadores; e a contínua demanda destes modelos assegura uma enorme audiência. Somente pela força do seu número, a massa confere carisma aos ídolos; e o carisma dos ídolos converte os espectadores em uma massa.

A idolatria condiz com o modo de vida contemporâneo num outro aspecto também: está em sintonia com o carácter fragmentário dos projectos de vida individual. Num mundo de mudanças abruptas e imprevisíveis, uma política de vida razoável exige o percurso da vida em episódios que se sucedem mas que um não determine o outro. A capacidade de “renascer” constantemente, de “tentar outra vez” ou de “começar desde o princípio”, adquire nas condições actuais, um valor capital de sobrevivência: isto é, em termos gerais, o que os políticos tentam inculcar quando exigem “maior flexibilidade”.

Diferente da antiga fama, a celebridade é efémera e a fugacidade da sua ascensão condiz com uma vida que se vive como uma série de recomeços. Unir-se ao culto da celebridade não é como abraçar uma causa: não exige assumir compromissos a largo prazo e por isso não hipoteca o futuro.

O que a idolatria perde em durabilidade, ganha-o em intensidade. Ela condensa emoções que de outro modo se dispersariam em períodos mais prolongados. O parâmetro com que se mede o valor da experiência tende a ser a sua capacidade de produzir entusiasmo, não a profundidade dos seus vestígios, adequando-se a “um máximo impacto e a um obsoleto imediato”. A monótona, e em termos gerais, pálida actividade política tradicional não está preparada para destacar-se entre os seus competidores, e se isso sucede, dificilmente atrai muitos espectadores. Mais dificilmente consegue conservar a sua atenção pelo tempo necessário. Os ídolos de hoje, mais do que nenhuma outra coisa, simbolizam a futilidade dos esforços humanos e a certeza de que nos extinguiremos sem deixar rastos. Mas a procissão de celebridades é demasiado colorida e sucede-se muito rapidamente para permitir um instante de reflexão acerca da futilidade dos esforços e a certeza de extinção.


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