30 de novembro de 2011

Mi ê dod ne língua criol ma ê falod, não escrit

Enquadrado no evento Tertúlia Crioula Portuense, o moderador Nelson Carvalho apresentou o tema Contornos da Oficialização do Crioulo em Cabo Verde, e convidou-me a  ler a sua exposição por isso achei por bem expressar um pouco da minha opinião sobre esta matéria. 

Qual o caminho para o
Crioulo Caboverdeano?
Aproveito para falar também que durante a socialização deste projecto nacional que é oficializar a Língua Caboverdeana foi dado espaço de antena a lingüistas e a pessoas que nada entendiam da matéria. Se por um lado isso foi bom porque este tema abarca áreas que transcendem a lingüística, por outro fez com que pessoas lançassem a confusão (intencionalmente ou não) na mente das pessoas. Mas vamos por parte porque esta caminhada vai ser longa. 

O crioulo na variante de São Vicente talvez não possa ser considerada aquilo que o linguista David Crystal chama de “língua-aspirador”, ou seja, com capacidade de sugar facilmente léxicos ou vocábulos das outras variantes. 




Isso talvez deve-se ao facto dos sãovicentinos considerarem sua variante como a mais esteticamente bela (passe o pleonasmo) e com isso não se encontram muitas incorporações nem do lado do Sotavento (talvez por causa das várias picuinhas/bairrismo com principalmente o badiu), nem do lado da vizinha Santo Antão com quem mantém trocas constantes de bens e pessoas (talvez porque muitos de São Vicente consideram-se intelectualmente superiores aos santantonenses, logo estes não tomariam por empréstimo uma variante que é alvo constante de gozo na ilha. Basta ver que muitas pessoas de Santo Antão quando chegam à São Vicente preferem falar esta variante para evitar a troça). 

Mas quando falo de empréstimos linguísticos, refiro-me ao momento da minha existência pois é possível que o permanente contacto tenha provocado incorporações antigas que desconheço e que só um estudo aprofundado pode revelar. 

Curioso é que nossa variante é mais relutante em fazer empréstimo com quem está próximo mas não temos problema em sugar termos e expressões inglesas, brasileiras e francesas para o nosso quotidiano. 

Há um dado preocupante que David Crystal traz no seu livro “A Revolução da Linguagem” em relação às ameaças que recaem sobre as línguas: “…em média, uma língua morre a cada duas semanas” (CRYSTAL, 2005, p. 58) e identifica o inglês como agente decisivo no desaparecimento de línguas em várias partes do mundo. 

E quando é que uma língua morre? Segundo Crystal (2005, p. 60) “…morre quando a penúltima pessoa que a fala desaparece, pois então a última não tem mais ninguém com quem conversar”. 

É por esta razão que sou a favor da Oficialização da Língua Caboverdeana e que ela seja ensinada nas escolas sem complexos. Sou a favor que os professores sejam formados para transmitir esse conhecimento às crianças e que eles possam continuar nossa língua e cultura. 

Mas aviso desde já: não pretendo escrever em crioulo. Não é porque desde logo levantaram-se pessoas a alarmar que queriam impor o badiu como língua oficial mas sim por pura preguiça. Não tenho a menor vontade de aprender um novo alfabeto. Escrevo muito pouco em crioulo (ou kriol, ou krioul, ou krioulo) e quando o faço escrevo da forma fonológica (escrevo como ouço) e vou continuar a optar pela escrita em português apesar de pensar, falar e sentir em crioulo.


4 comentários:

Anónimo disse...

Essa briga é antiga, remonta à década de 70/80 quando surgiram com a primeira proposta do um dicionário cabo-verdiano, ALUPEC, e muito se discutiu, nada se resolveu. Voltou-se a tocar no assunto em noventa e tal, não ouve consenso. Com o ministro Manuel Veiga, voltou-se a discutir o assunto, queriam que uma única variante fosse escolhida, depois pretendeu-se ensinar o badiu da Praia e o sampadjudo de São Vicente. Ou seja, uma guerra antiga. Acho que seria mais fácil o cabo-verdiano admitir que se ensine qualquer outra língua no país, desde que não se opte nem pela variante de São Vicente e nem da Praia, porque se lá no barlavento existe uma discussão entre Santo Antão e São Vicente, na ilha de Santiago existe entre as inúmeras variações entre o badiu que se fala na Praia e o de interior. Portanto acho que isso vai-se ainda debater-se por muito mais tempo pelos entendidos e desentendidos na matéria. Seja o que Deus quiser. Eu, por enquanto, vou escrevendo o crioulo fonologicamente.
E quando à tua tónica sobre o bairrismo/picuinhas entre badiu e sampadjudo de São Vicente, essa também é uma guerra sem fim.

daivarela disse...

Eu sei que se escrever crioulo errado vai ter alguém para me corrigir por isso nem me preocupo em aprende-lo.
Mas sou a favor que seja ensinada (aos outros)

Anónimo disse...

As pessoas tem que querer aprender, e não vais querer aprender a tua direito.. to bad.

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