12 de outubro de 2011

“Pesca industrial está em declínio”, alerta Carlos Ferreira Santos

Carlos Ferreira Santos, operador do sector das pescas e membro do Instituto Nacional de Desenvolvimento das Pescas (INDP), fala sobre as dificuldades do sector que é “muito mal entendido” carente de financiamento e investimentos. E aponta vantagens do novo acordo de pescas entre Cabo Verde e União Europeia (EU).


Acredita que o acordo de pescas assinado por Cabo Verde e a EU tem vantagens para o país?
Carlos Ferreira Santos - Economista

Carlos Ferreira Santos - Esse contrato tem que ser vantajoso, até porque de outra forma Cabo Verde não o assinaria. Acredito sim que este é um acordo bem estudado e deriva de uma longa relação com países da EU. Mas é óbvio que os 435 mil euros de contrapartida que recebemos não é muito e os 110 mil euros para investir no sector pesqueiro é um valor muito insuficiente para as nossas necessidades. Já é qualquer coisa mas está muito aquém das necessidades que efectivamente este sector tem. Mas claro, também não será somente este acordo com a EU que será a salvação para as necessidades que o sector da pesca possui - são precisas outras fontes de financiamento.




Qual o maior benefício para o nosso país?

São muitos, mas para mim o maior ganho é a obrigatoriedade de ter parte da tripulação composta por cabo-verdianos. E isso para nós é extremamente importante porque as divisas que eles transferem para o país ultrapassa um milhão de euros anuais. Se por outro lado decidimos que este acordo não é vantajoso para nós e que não queremos cooperar com a EU, onde é que empregaríamos os mais de quinhentos marítimos-pescadores nacionais? De se notar que só de São Vicente temos mais de cem pessoas nos barcos de pesca industriais, muitos deles nem sequer pescam nas águas de Cabo Verde.


Condicionantes

Como está o sector das pescas na região norte?

Tínhamos que dividir isso em várias pescarias. Mas vale a pena falarmos da pesca industrial do atum e do gaiado. Neste ano conta-se - e também vê-se – que a pesca do atum tem sido extremamente fraca. Sabemos que é um peixe sazonal e migratório e temos uma série de condicionantes na sua pesca mas também é verdade que há cada vez menos capacidade para procurar este atum. Temos vindo a fazer um alerta de que a pesca industrial está em declínio e por isso é preciso investimentos fortíssimos. Se conseguirmos fazer isso, se remodelarmos a nossa frota e criarmos capacidade própria, então sim, poderíamos inclusive questionar se devemos manter os acordos de pesca nos volumes e quantidades actuais.

Outro grande constrangimento do sector é sem dúvida o preço do combustível que só tem vindo a subir e que neste momento já contribui com quase setenta porcento do custo do funcionamento de uma embarcação de pesca. Entretanto, o preço do peixe não acompanhou essa evolução, ou seja, os armadores e pescadores perderam competitividade, são hoje mais pobres. Por isso acredito que é preciso um debate urgente para se entender o quão dependente é a pesca do combustível e aplicar políticas mais acertadas para viabilizar este sector. Igualmente, outro grande constrangimento é a falta de isco vivo (cavalinhas, chicharro ou melon). 


Cabo Verde não tem este tipo de peixe para servir de isco?

Tem alguma quantidade, mas está longe de ser suficiente e como já mencionei, muitas vezes há uma dessincronização entre o isco e o atum. Mas também é claro que não podemos comparar a produtividade em termos de pequenos peixes na costa do continente e nas nossas águas, pois lá ela é muito maior. Inclusive é possível encontrar pequenas indústrias que servem a várias companhias onde pode-se chegar e comprar o isco, sem necessidade de perder tempo útil a pescar o isco.


Já lá vão quase três anos e só agora é assinado o contrato de construção do Entreposto Frigorífico do Porto Grande. Como tem sido a situação de conservação do pescado?

A disponibilidade de instalações de conservação do peixe tem sido outro grande problema. Para se ter uma noção, o Complexo de Cova de Inglesa, que é o único local neste momento com capacidade frigorífica para receber, congelar e armazenar o produto da pesca, tem uma capacidade que dois ou três barcos industriais podem encher em dois ou três dias se houver disponibilidade de isco e atum. É uma situação difícil porque primeiro há períodos de escassez, mas depois quando há abundância, pode-se pescar de tal forma que não há espaço para conservação. Felizmente as conserveiras têm lutado para conseguir algum espaço próprio de conservação do seu produto, caso contrário seria o caos.


Renovação da frota: urgência que se impõe

Como é que a região norte conseguiu sobreviver sem a INTERBASE nesses últimos três anos?

A verdade é que, em termos de pesca industrial, quase não conseguimos sobreviver e não 
Investir nas pescas é garantir o futuro do sector
é só por causa da perda da INTERBASE. Nota-se claramente que a pesca industrial, principalmente a do atum e do gaiado, está em declínio desde então e corre o risco de desaparecer se não conseguirmos renovar a frota, vencer o problema do isco e do combustível a um preço acertado.

Neste ano, em toda a região de barlavento, não deverá ter havido mais do que quatro ou cinco barcos tentando fazer a pesca do atum, quando há alguns anos atrás eram mais de trinta barcos industriais na faina. Agora com a nova INTERBASE a ser construída e os Cabo-verdianos sem barcos industriais, quem vai viabilizar essa grande industria de frio? A frota estrangeira, é claro. Portanto é preciso criarmos condições para os Caboverdianos capacitarem-se, temos que urgente pensar formas de resolver estes problemas.


Porque é que não houve uma reclamação mais firme do sector das pescas em relação a esta situação?

Porque é uma questão complexa. A pesca é muito mal entendida no nosso país, quase todos pensam que o sector das pescas é um sector inviável, que não vale a pena os investimentos e não reparam sequer que este sector, para além de garantir a alimentação básica da população, pois é da cavala e do atum que o povo vive, este sector cria milhares de postos de empregos e contribui com mais de oitenta porcentos das exportações deste país.

Eu devolveria a pergunta: porque é que a União Europeia quer pescar aqui? Será para perder dinheiro? Claro que não! Ou seja, este é um sector que tem uma potencialidade incrível, que vale a pena entender e apostar fortemente, criando oportunidades e capacitando os cabo-verdianos para serem eles a ganharem desta situação.



Publicada (também) no Jornal A NAÇÃO Nº 214









1 comentários:

zito azevedo disse...

Aí está um depoimento lúcido, claro e esclarecedor...Na realidade, não basta haver peixe em abundancia para se conseguir manter estruturas de pesca industrial - são necessários barcos pesqueiras,instalações de frio e pescadores, claro...São investimentos vultosos mas não devemos esquecer que o fututo da alimentação da Humanidade está no mar!

Enviar um comentário

 
Design by Wordpress Theme | Bloggerized by Free Blogger Templates | coupon codes