30 de maio de 2011

Bócio: um mal endémico em Cabo Verde

A falta de iodo no sal é uma das causas para a existência de bócio em Cabo Verde. Também conhecido por “papo”, a doença pode provocar cretinismo, deformação física, depressão, entre outros males. O Ministério da Saúde (MS) vai apresentar, no final de Maio, os resultados do inquérito feito no ano passado sobre a prevalência do bócio entre nós. A expectativa é que a estratégia de colocar iodo no sal tenha ajudado a diminuir para menos de 5% (por cento) a prevalência dessa endemia no arquipélago.

 
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O estudo do MS conta com a colaboração de um especialista da Organização Mundial da Saúde (OMS) no processamento dos dados das análises às tiróides que foram enviadas para Portugal.

O último inquérito, feito em 1996, indicava que as regiões altas como Fogo, Santo Antão e
partes de Santiago são as mais afectadas. O estudo revelou uma carência de iodo ligeira em todo o país e uma prevalência de bócio endémico da ordem dos 25,5% em crianças de idade entre 6 e 12 anos. A constatação desta carência foi um dos factores que levou com que fosse lançada a campanha de iodação do sal, ou seja, a colocação do iodo no sal antes da sua entrada no mercado de consumo.


PONTOS NEGROS


Chama-se bócio ao aumento de volume da glândula tiróide, que fica situada na parte inferior do pescoço, provocado pelo hipotiroidismo, ou seja, produção insuficiente de hormónios tiroidianos.


O hipotiroidismo pode surgir por insuficiência de ingestão de iodo e nesse caso diz-se que o mesmo é endémico. O uso do sal iodado, preconizado em Cabo Verde, é uma medida de prevenção da doença que pode provocar cretinismo, depressão e outros males físicos e 
Dra. Samila Inocêncio
psicológicos. Um deles é o “papo”, um aumento característico da espessura do pescoço.


Apesar de pensarmos que por sermos ilhas estamos protegidos, nas regiões mais altas de Cabo Verde há uma carência de iodo por causa do fenómeno chamado “lixiviação do solo”, ou seja, quando a chuva cai ela arrasta os nutrientes do solo, incluído o iodo. Por este motivo, nas regiões altas onde chove com frequência, existem mais casos de bócio.


Samila Inocêncio, médica no Hospital “Dr. Baptista de Sousa”, é a única especialista em endocronologia da Região Norte. Ela assegura que São Vicente não é das regiões onde o bócio, por carência de iodo, se verifica com grande prevalência. “Pelo contrário, as partes altas de Santo Antão, Fogo e alguns locais de Santiago são considerados zonas endémicas, mas em São Vicente as taxas de bócio  correspondem ao que se esperava em relação à média nacional”, garante.



SOLUÇÃO É COLOCAR IODO NO SAL


A iodação está a ser adoptada em vários países e é considerada por Samila Inocêncio uma excelente estratégia. “Sabemos que todas as pessoas usam sal na sua dieta para cozinhar. Essa foi a forma encontrada para estender a toda população, porque, se tivéssemos escolhido a distribuição de comprimidos de iodo, muitas gente não teria acesso. Quase todos os países que conseguiram baixar a taxa de bócio, foi através da iodação do sal”, remarca Inocêncio.


Por ser uma doença genética e hormonal, no geral, não há um cuidado específico na alimentação para se evitar o bócio. “Temos a vantagem de ter uma grande quantidade de peixe disponível na nossa dieta alimentar, mas o que se recomenda é ter uma alimentação saudável e variada”, aconselha Inocêncio.


A lei sobre iodação do sal foi aprovada em 2002 e, a partir de 2004, tornou-se obrigatória a colocação do iodo no sal em Cabo Verde. Esta é uma das razões porque se fez esse inquérito em 2010. “Queremos saber se houve uma diminuição da taxa de bócio endémico, que é aquele relacionado com a deficiência em iodo. Esperamos que tenha caído para menos de cinco por cento a sua prevalência na população”, nota Samila Inocêncio.



MULHERES MAIS AFECTADAS


Há uma maior proporção de pessoas do sexo feminino com esta patologia e isso é explicado por Samila Inocêncio com base em causas genéticas e diferenças hormonais com os homens. “Em termos de causas do bócio na nossa população, temos verificado que as mulheres, na sua maioria, têm bócio nodular e que não há uma causa específica sendo muitas vezes geneticamente determinado. E ainda há os casos de hipertiroidismo e hipotiroidismo que são doenças auto-imunes”, releva.


Paulo Sança
Por ser a única especialista em endocrinologia na Região Norte, Inocêncio recebe doentes transferidos de todas as ilhas de Barlavento. É o caso de Paulo Sança, 47 anos, que veio do Sal para mais uma consulta de controlo. “Há cerca de cinco anos que me foi diagnosticado bócio. Faço minhas consultas e análises no Sal e, dependendo da situação, o meu médico manda-me a São Vicente”, diz Paulo, que conta que os sintomas desta doença incluem “agitação, dificuldades em dormir e palpitações do coração”.


O bócio é uma patologia benigna, sendo no entanto importante a realização de um correcto diagnóstico, por forma a distinguir esta situação do surgimento de uma patologia tumoral, mais grave.
O problema é que muitos doentes só procuram os médicos depois de notarem uma inflamação no pescoço, como é o caso de Salete Lima, a quem foi diagnosticada bócio ainda em criança. “Com dez anos, meus pais notaram uma inflamação do meu pescoço e quando fui consultar os exames mostraram que a minha tiróide não estava a funcionar bem”, recorda.

 DIAGNÓSTICO

O diagnóstico é feito por apalpação do pescoço, análise de hormonas estimulantes da tiróide, observação da tiróide por ultra-sons ou radiografia e, nalguns casos, por biópsia, através de punção. “Apesar de ser tratada apenas com comprimidos, tenho medo de vir a ser operada por causa de todas as suas consequências”, confessa Salete.

Normalmente, o tratamento do bócio depende da causa que o despoletou, podendo ir da administração de um complemento dietético de iodo (na maioria dos casos suficiente), até ao tratamento com iodo radioactivo e cirurgia, para promover a redução do volume glandular, nos casos mais graves.

Além da inflamação do pescoço, outros sintomas do bócio são dor nas articulações, constipações intestinais (prisão de ventre), ganho de peso, letargia (falta de iniciativa, muitas vezes determinando dificuldade de aprendizagem), perda de cabelo, ganho de peso, entre outros.

Importa dizer ainda que os problemas relacionados com a deficiente ingestão de iodo não param por aí. Há que destacar, igualmente, o hipertiroidismo (produção exagerada de hormonas tiroidianos), perda de peso, olhos esbugalhados, irritabilidade e ansiedade, tremores nas mãos e arritmias cardíacas. Diante desse quadro clínico, é aconselhável a procura de um médico.

Publicada (também) no Jornal A NAÇÃO


2 comentários:

Jorge - badiu disse...

Deste lado fala Jorge-badiu, criador de diario de um thug e patrimpnium.cv. Olha que tens trabalho muito melhor que alguns dos nosso orgãos de comunicação social. Se continuares assim, acredita meu amigo, vais ser um dos melhores em Cabo Verde. Força e muito crença em ti.

daivarela disse...

'brigada Jorge - badiu

Esse elogio é uma grande responsabilidade para a minha pessoa.

Abraço e volte sempre

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